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O Café Petrol, na aldeia de Corgo do Vale, em plena Serra de Monchique, era local de encontro desde a altura do Zé do Caixote, o barbeiro da aldeia, que vendia petróleo para os fogões enquanto curava maleitas com medicamentos caseiros.
A herança deste “homem à frente do seu tempo”, como o descreve a neta, Nélia Nunes, foi sendo perpetuada pelas gerações seguintes: primeiro pela filha, com uma venda, onde o petróleo deu lugar aos copos de aguardente e vinho, e, desde 2004, com um restaurante fundado pelos três netos: a Tasca do Petrol, um Solete do Guia Repsol
Como a eletricidade chegou tarde a esta aldeia de Marmelete, o forno a lenha sempre foi a solução para tudo. Nélia recorda o Inverno intenso da sua infância, quando choviam três meses seguidos e, no caminho a pé da escola para casa, “ficávamos encharcados, ia logo aquecer-me ao ‘foguinho’ da minha avó, onde, ao mesmo tempo, ela fazia as papas de milho e torrava o pão para, a seguir, barrá-lo com banha”. Esse lanche, assim como os dias de matança e “aquele cheiro intenso a carne”, ficaram marcados na sua memória até hoje.
Tal como o avô, Nélia nunca abandonou a sua terra. Durante anos trabalhou na restauração, em projetos que pouco a representavam e quando os irmãos, Osvaldo e Pedro, a desafiaram a dar continuidade à venda da mãe, sabia que a comida teria de fazer parte — o objetivo era trazer de volta a cozinha tradicional serrana. “É uma comida de conforto, caseira, que leva tempo a fazer”, explica Nélia com os olhos arregalados e a mesma curiosidade da menina que se sentava à lareira.
O cozido de couve com papas de milho e o milho com feijão — dois pratos tradicionais da região — serviram de inspiração para um menu que, mais de 20 anos depois, se mantém fiel à sua essência: “Antigamente todas as famílias tinham milho, feijão, oliveiras e porcos em casa. Dessa cultura nasceram pratos simples, que ficaram para sempre na história da nossa terra”.
Na cozinha desta tasca entram apenas produtos locais e, sempre que possível, da própria aldeia. “Felizmente, ainda temos pessoas com ingredientes essenciais para as nossas receitas: batatas, cebolas, couve, feijão, porco e, no Verão, tomate rosa”. O milho, usado nas papas ou no cozido de milhos, vem da casa da Maria, que ainda faz ‘milhos aferventados’ como antigamente: cozidos em água com cinza do forno a lenha, lavados e secos ao sol, para durar o ano todo.
À matéria-prima juntam-se métodos e técnicas de outros tempos: não se usa panela de pressão e há quem entre na cozinha todos os dias às seis da manhã para pôr as carnes a cozer. O grande forno a lenha é o coração da cozinha, onde a comida cozinha lentamente.
A carne de porco, presente na maioria dos pratos, é salgada em potes de barro com sal grosso durante 15 dias: “depois de curtir, a carne é lavada e fica de molho. Este processo dá-lhe o sabor intenso e característico da salga”. Quanto ao tempero, comum a todos os pratos, resume-se ao essencial: azeite e banha — a mesma que com que a avó barrava o pão.
Na hora da refeição, os “mistos de entrada” — com fígado, morcela, chouriço de arroz, lombo na banha, picos de banha e salada de orelha — são a introdução perfeita ao que se segue. Entre os pratos principais, destaca-se o pernil, um dos mais pedidos: temperado de véspera e assado ao longo de mais de quatro horas, resulta numa carne suculenta por dentro e crocante por fora.
A par dos clássicos, há também espaço para novidades, por sugestão de Fábio, o filho mais novo de Nélia, que também já trabalha no restaurante. Surgem assim dois pratos do dia, ambos assentes num caldo de ossos feito a partir do aproveitamento das carnes. “É um caldo muito rico, que leva quatro dias a cozinhar em lume brando e serve de base para o molho dos bifes de pimenta e cogumelos”, explicam mãe e filho.
Esta tasca parece ser casa de muitos: da grande família de Nélia, mas não só. É dos locais que aqui se juntam para convívio e companhia; dos emigrantes que regressam de férias e reencontram, à entrada, os cheiros e sabores da infância; e dos turistas que chegam pela fama do lugar e descobrem um retrato precioso de outros tempos, com um menu que guarda memórias.
Num mundo cada vez mais igual, vive-se aqui algo de único, onde quem chega como estranho acaba por descobrir, entre a serra e a mesa, o verdadeiro significado de ser serrano.
Tasca do Petrol. EN267 Corgo do Vale, 8550-145. De quinta a segunda, das 12h às 15h e das 19h às 21h30. 282 955 117
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