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Coisa Verde: Comer Algas nos Açores

As algas comestíveis dos Açores

Coisa Verde: Comer Algas nos Açores

Atualizada: 24/04/2026

Texto: Austin Bush

Fotografia: Austin Bush

Em tempos um recurso importante nos Açores, as algas comestíveis estão a voltar graças a uma mão cheia de chefs e empreendedores. E ainda há quem as faça da maneira mais tradicional.
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Artur Oliveira está em silêncio. Estamos no Porto do Salão, na costa norte do Faial, e observa as ondas a quebrar num pequeno afloramento rochoso. O cais íngreme foi em tempos utilizado para trazer as baleias para a costa e Oliveira sabe que aquelas rochas em baixo são um excelente local para encontrar algas. “A primeira coisa que fazemos antes de entrar na água é sentir como ela se comporta”, conta-nos, “não interessa se vamos mergulhar ou se vamos andar nas rochas”. Oliveira continua a olhar em direção ao mar durante mais alguns minutos, até que decide que é seguro descermos.

É uma das duas pessoas por trás da SeaExpert, uma empresa sediada no Faial que negoceia aquele que será o recurso mais esquecido dos Açores: as algas. “Antigamente, nos anos 1960 e 1970, as pessoas iam à praia colher musgo vermelho ou musgão, que era usado para fazer agar-agar”, conta-nos Oliveira, explicando que as algas eram depois enviadas para o continente ou para Espanha, onde eram processadas para cosmética, produtos farmacêuticos, ou transformadas em gelatina.

Artur Oliveira, um dos fundadores da SeaExpert, apanha erva patinha da costa norte do Faial
Artur Oliveira, um dos fundadores da SeaExpert, apanha erva patinha da costa norte do Faial

Acrescenta que no Pico, nas Flores e no Corvo, os habitantes também se alimentavam com algas — uma tradição que ainda se mantém. Hoje em dia, a grande maioria das algas que a SeaExpert recolhe destina-se a aplicações cosméticas. Estima Oliveira que menos de 5% do seu negócio seja dedicado aos produtos alimentares. “As algas comestíveis representam uma pequena parte do nosso trabalho, mas é interessante”, diz-nos. “Dá-nos mais visibilidade e ajuda a consciencializar as pessoas.”

Aqui no Porto do Salão, é de facto de algas comestíveis que estamos à procura, em particular de uma variedade chamada erva patinha, conhecida mais universalmente como alga nori, a mais consumida nos Açores. Oliveira veste um fato de mergulho, prende um saco de rede à cintura e, armado apenas com umas tesouras, dirige-se para as rochas. Normalmente, a SeaExpert trabalha com recoletores locais, mas Oliveira, natural de Guimarães, apanha também ele mesmo, tanto em poças de maré como debaixo de água.

Em busca da Erva Patinha

Agachamo-nos e subimos de quatro sobre as rochas incrivelmente escorregadias para chegar a uma poça de maré. A princípio nem conseguimos ver a erva patinha; tem um tom castanho-escuro que se confunde com as rochas. Só se torna visível quando as ondas entram e conseguimos distinguir as largas lâminas gelatinosas a baloiçar na água.

A alface do mar é apenas uma das algas comestíveis da costa Sul do Faial
A alface do mar é apenas uma das algas comestíveis da costa Sul do Faial

“Este foi um excelente ano”, comenta Oliveira, referindo-se à abundância das algas, que só estão maduras para colheita entre janeiro e março. Oliveira aproxima-se da poça e, com as tesouras, corta apenas as folhas, mantendo as raízes intactas para que a alga possa voltar a crescer. Segundo ele, a erva patinha prefere viver em rochas parcialmente submersas, mas não totalmente debaixo de água: “Gosta de ser salpicada pelas ondas.”

Enquanto apanha a alga, está constantemente atento e a ouvir o mar, subindo ocasionalmente pelas rochas para evitar ser arrastado. Entrega-nos algumas folhas de erva patinha para provar: é salgada, com um toque de iodo, saborosa e crocante. Cerca de uma hora mais tarde, Oliveira já reuniu aproximadamente um quilo de algas, que serão depois secas, embaladas e vendidas como uma das cinco variedades de algas comestíveis no portfólio da SeaExpert.

Na Feteira, na ilha do Faial, pode apanhar-se uma imensidão de algas comestíveis
Na Feteira, na ilha do Faial, pode apanhar-se uma imensidão de algas comestíveis

Oliveira quer mostrar-nos outros tipos de algas comestíveis no Faial: muda de roupa e conduzimos até à Feteira, na margem sul da Ilha. Lá chegados é necessário apenas seguir alguns caminhos, não naturais, que ligam as poças marés entre si. Em poucos minutos, já Oliveira tinha encontrado a fava do mar, chamada assim pelo formato da alga. Dá-nos a experimentar, tem uma textura rija e paladar de iodo.

Há também a patinha verde, com longos fios verdes claros; a alface do mar, com folhas finas, verdes claras e em forma de folhagem, “de textura de couro”, nas palavras de Oliveira, e sabor ligeiramente ácido; e a erva lagosta, ácida, salgada, saborosa e de longe a mais crocante (Oliveira diz que gosta de servir esta com massa). Mas o destaque é a erva malagueta: pequenas folhas castanho-escuras, em forma de avenca, com um sabor picante a rabanete e quase amanteigada.

Algas comestíveis na Cozinha

“As algas e a variedade que existe nos Açores foram uma surpresa”, escreve Rui Batista, chefe de cozinha do Latitude, o restaurante com 1 Sol Guia Repsol que faz parte da Azores Wine Company, mesmo ao lado, no Pico. Batista é natural de Santa Maria e diz que o consumo de algas não fazia parte da sua infância, mas integrou o ingrediente em vários pratos do restaurante. “A diversidade abre portas a várias utilizações, dado que cada alga apresenta aspeto, textura, sabor e composição diferentes. Vejo um grande potencial na utilização das algas, desde a cozinha até à pastelaria”, explica.

O Latitude, da Azores Wine Company, tenta usar todas as algas comestíveis disponíveis nos Açores
O Latitude, da Azores Wine Company, tenta usar todas as algas comestíveis disponíveis nos Açores

Recentemente, num jantar de 10 pratos no Latitude, quase um terço das criações incluía algas de alguma forma: um prato de lula com dois tipos de erva patinha, um de peixe guarnecido com erva lagosta frita até ficar crocante, e um outro prato de peixe que incorporava um pó feito de erva patinha. “Nós no restaurante Latitude tentamos usar todas as algas disponíveis,” escreve Batista. “As algas podem ser transformadas de variadas formas. Fritas, ao natural, saladas com mix de algas, temperadas ou em detalhes visuais.”

O prato de peixe com beurre blanc e molho vilão caramelizado servido com pó de erva patinha mostra apenas uma das aplicações das algas no Latitude
O prato de peixe com beurre blanc e molho vilão caramelizado servido com pó de erva patinha mostra apenas uma das aplicações das algas no Latitude

Rui Batista é fã da erva malagueta, “apresenta uma textura crocante com sabores complexos, conseguindo identificar notas subtis a trufa, azeitona e tremoço, com uma salinidade muito equilibrada. Visualmente, para mim, é a alga mais elegante da nossa costa”, escreve.

No entanto, a parte dos Açores mais associada ao consumo de algas são as ilhas das Flores e do Corvo, as mais remotas e ocidentais do arquipélago. Por lá, os habitantes recolhem algas para preparar as tortas de erva patinha, um prato que ainda hoje é servido no Restaurante Pôr-do-Sol, nas Flores.

O prato de peixe com beurre blanc e molho vilão caramelizado servido com pó de erva patinha mostra apenas uma das aplicações das algas no Latitude
José António Freitas e Nélia Maria Freitas, donos do Pôr-do-Sol, e Gorete Jorge Eduardo, cozinheira do restaurante

“Ao domingo, normalmente, as famílias iam para o pé do mar e portanto colhiam a lapa, a alga, apanhavam as moreias e depois comia-se,” explica Nélia Maria Garcia Medeiros Freitas, nascida e criada na ilha, cozinheira e proprietária do restaurante com o seu marido. Porque a erva patinha só pode ser apanhada entre janeiro e março, o casal congela-a, podendo assim servi-la durante o ano inteiro.

Freitas mostra-nos como se fazem as tortas de erva patinha: chegamos a uma cozinha preparada com uma mise-en-place simples: uma taça média de erva patinha, alguns ovos, alho picado e salsa cortada.“Tem três nomes diferentes”, conta-nos sobre a alga, “erva patinha, algas, torta de musgão.” Pegando numa mão cheia de erva patinha, coloca-a na taça e parte dois ovos por cima. Junta o alho e a salsa e mistura os ingredientes, mais ou menos como se estivesse a fazer uma omelete. Por causa da salinidade natural da erva patinha, não é necessário acrescentar sal.

Nélia Freitas faz a erva patinha segundo a receita tradicional das Flores
Nélia Freitas faz a erva patinha segundo a receita tradicional das Flores
Serve-as com tubérculos e o local bolo do tijolo
Serve-as com tubérculos e o local bolo do tijolo

Em seguida, pega em porções do tamanho de bolas de pingue-pongue da mistura e leva-as à frigideira, já preparada com alguns dedos de óleo vegetal — “antigamente fritavam-nas em banha”, diz, “isto é mais rico”. Quase imediatamente ao tocar no óleo quente, a alga de cor ferrugem muda para um verde claro. Vira as tortas e, passados no máximo três minutos no óleo, retira-as e deixa-as escorrer sobre papel absorvente.

Nélia Freitas transfere as tortas ainda quentes para um prato já decorado com gomos de inhame cozido e batata-doce roxa (ambos cultivados pelo casal), com fatias triangulares de bolo do tijolo, um pão achatado feito com farinha de milho, tradicionalmente consumido na ilha.

Provamos e as tortas são salgadas e saborosas — um contraste agradável com os tubérculos doces — crocantes por fora e macias por dentro. Estão deliciosas, e, tentando descrever o sabor único, perguntamos a José António Corvelo Freitas, marido de Nélia, como acha que deve ser o sabor de uma boa torta de erva patinha. “Se eu fechar os olhos, leva-me logo ao mar, não é?” responde. “Ao oceano. Leva-me logo às ilhas. À nossa pequenez.”

Traduzido por Raquel Dias