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Ao longo de mais de 20 anos, Alexandra dos Santos trabalhou como designer gráfica, na sua terra natal, Silves. Foi aliás no processo de um trabalho que desenvolveu durante algum tempo para uma empresa de produtos locais, que ficou interessada na doçaria tradicional do sul de Portugal.
Alexandra foi notando uma mudança. “Era uma tradição que estava a morrer e eu já não conseguia encontrar os doces em lado nenhum” diz. “Comecei a pensar como dar continuidade a isto”. A sua solução foi abrir a Doçaria do Sul, um pequeno negócio no centro de Silves.
Aberta há quase cinco anos, a Doçaria do Sul toma a forma de uma pequena mercearia na rua principal da cidade, mesmo à sombra do Castelo situado ao cimo do monte. Alexandra conta que neste momento já não sabe dizer quantos tipos de doces vende, mas pensa que rondam os 20 ou os 30. “Mas tenho acesso a muitos mais”, acrescenta, referindo-se à sua rede de produtores em todo o Algarve.
Recorrendo ao seu background em design, Alexandra criou um catálogo completo, com fotografias, que mostra a variedade de doçaria com que se tem cruzado ao longo dos anos, alguma da qual é agora bastante rara. “Perdi bastantes fornecedores devido às idades avançadas,” explica, acrescentando que a maioria das pessoas que tem acesso a estas receitas está agora na casa dos 60 ou 70 anos.
Para compensar, Alexandra tem começado a confecionar ela mesma os doces com a ajuda da sua mãe. Terminou agora uma cozinha profissional para tornar possível cozinhar em maior escala. Transformou a Doçaria do Sul num centro cultural da gastronomia, oferecendo workshops e outros eventos.
Num dia soalheiro de Março, sentamo-nos com Alexandra em frente à loja e pedimos-lhe que nos explique o que faz com que a doçaria da região seja tão diferente da que se encontra no resto do país. “Nós usamos ingredientes diferentes”, diz-nos, contanto que a maioria da doçaria no Algarve é feita à base de três ingredientes: figos, amêndoas e alfarroba. “É uma questão de sobrevivência”, aludindo ao clima seco e quente da região. “Nenhum destes ingredientes precisa de muita água.”
“O figo era uma cultura muito importante antigamente”, conta-nos, referindo-se ao ingrediente talvez mais associado à doçaria do sul. “Quando havia figos, ninguém passava fome.” Os doces algarvios à base de amêndoa poderão ter origem nos Mouros, que governaram a região durante mais de 500 anos, embora existam poucos registos escritos que o comprovem.
Já a alfarroba só recentemente passou a fazer parte da doçaria do sul. “Se perguntar à minha avó sobre a alfarroba, ela dir-lhe-ia que era algo para dar aos porcos”, afirma. “Quando começou a haver turismo e mais pessoas se interessaram pelo Algarve e pelo que fazemos aqui, começaram a produzir doces com alfarroba.”
Para Alexandra, se houver um elemento comum que liga a doçaria algarvia, será a sua democraticidade. “Não temos muitos doces conventuais. Os bolos aqui eram coisas populares, feitos para as famílias, não para pessoas ricas ou para conventos.”
Pedimos a Alexandra que selecione alguns produtos da sua loja que, na sua opinião, exemplifiquem a doçaria da região: começa pelo queijo de figo — figos secos misturados com ingredientes que podem incluir açúcar, cacau, raspa de limão, canela ou até medronho e licor de figo. Estes ingredientes são trabalhados até formarem uma pasta densa e escura, que pode ser moldada em diferentes formas, muitas vezes enriquecidas com amêndoas.
Para além da forma mais comum — uma espécie de roda semelhante a um queijo, decorada com padrões em forma de flor feitos com amêndoas — mostra-nos também um pequeno queijo de figo, do tamanho de um polegar, em forma de coelho, uma fila de queijos de figo embrulhados em papel que imita uma réstia de cebolas e a chamada pinha de figo. “Era uma das que já não conseguia encontrar”, conta-nos sobre esta última: uma base de queijo de figo totalmente coberta com lascas de amêndoa, pensadas para imitar as escamas de uma pinha. “São os mesmos ingredientes, só muda a forma, mas demora o dobro do tempo a fazer,” explica.
Os figos são também a base de outro doce importante, a estrela de figo, que consiste em dois figos secos abertos e espalmados de modo a formar uma estrela, geralmente decorada com amêndoas dispostas em padrão. “É só figo e amêndoas torradas”, lembra Alexandra, “mas pode ser decorado de mil e uma maneiras.”
“O maçapão é rei no Algarve”, afirma ao passar para o seu exemplo seguinte: o doce fino. Estes doces assumem a forma de pasta de amêndoa moldada em várias figuras e pintada com cores vivas. Mostra-nos um tomate vermelho e rechonchudo, um nabo com apontamentos de rosa e folhas verdes, e algo que faz lembrar um ananás maduro. Alexandra explica que, em Silves e arredores, estes doces têm um recheio de gemas doces, enquanto mais a leste, regra geral, não levam recheio. A base do doce fino não é mais do que açúcar e amêndoa, mas o processo que leva ao maçapão — ilustrado num mural nas paredes da Doçaria do Sul — é demorado e exige muita mão de obra. Acrescenta ainda que o doce fino, tal como outros doces da região, era antigamente consumido apenas em ocasiões especiais — festas, casamentos e batizados.
O último exemplo que partilha connosco é algo fora do comum. Em forma de uma pequena pirâmide envolta em papel de alumínio azul, o famoso Dom Rodrigo é, tanto quanto Alexandra sabe, o único doce associado a um convento do Algarve. “Este vem do Convento do Carmo, em homenagem a Dom Rodrigo de Menezes, que foi capitão durante as invasões napoleónicas”, explica. Ao abrir o invólucro, encontramos um emaranhado de doce de ovos e fios de ovos, enriquecido com canela e amêndoa picada — uma combinação de ingredientes comum em doces de regiões mais a norte, mas que no Algarve seria, sem dúvida, considerada invulgar e decadente.
Uns dias mais tarde, estamos a conduzir numa zona montanhosa, com ar campestre em São Bartolomeu de Messines, a cerca de 15 minutos de Silves. É Primavera, as bermas da estrada estão floridas e o ar cheira a flor de laranjeira. Estamos com Maria do Carmo Neto, uma das produtoras que trabalha com Alexandra, e que, através de uma pequena equipa numa unidade de produção instalada em sua casa, no campo, confeciona diferentes tipos de doces tradicionais.
Embora o negócio tenha o nome de Maria do Carmo Neto, é, na verdade, o seu marido, Hélder Neto, antigo padeiro, que tem experiência na área da doçaria: “sou da geração de fazer estas coisas. A minha avó já fazia”.
No dia da nossa visita, está ocupado a fazer folares a tempo da Páscoa; o ar na pequena unidade de produção cheira a erva-doce, mais um ingrediente importante na doçaria do sul. Do outro lado da sala, uma funcionária prepara estrelas de figo, enquanto outra prensa maçapão em moldes de silicone. “Isto começou como uma brincadeira”, diz Maria sobre o início do negócio, há quase 40 anos. “E tem sido uma brincadeira de que toda a gente gosta.”
Maria mostra-nos como se fazem estrelas de figo, o produto mais emblemático da sua produção. Pega num figo seco e faz quatro cortes longitudinais, antes de o achatar até formar uma figura semelhante a uma estrela com quatro pontas. Repete o processo com outro figo e junta-os, sobrepondo-os. Mais tarde, irá inserir amêndoas entre as camadas de forma decorativa, e a estrela de figo será levada ao forno para uma secagem leve, até ganhar uma cor dourada e uma textura agradavelmente seca, que permite a sua conservação até um ano.
Para além das estrelas de figo, a unidade produz uma variedade de queijos de figo; figos cheios, aparentemente figos secos inteiros, mas recheados com amêndoas; figo prensado, barras quase em forma de bolo feitas de figos secos, que muitas vezes incluem também camadas de alfarroba e amêndoas; e doce fino. Durante a época certa, Maria consegue usar alguns figos locais, mas ao longo da maior parte do ano depende de figos importados de Espanha ou da Turquia; o mesmo acontece com as amêndoas. “Hoje em dia, as pessoas no Algarve cultivam abacates, ninguém planta figos”, lamenta.
Maria leva-nos a conhecer a pequena unidade de produção e aprendemos que o figo prensado passa vários dias sob pesos pesados para obter a sua textura densa, e que, hoje em dia, os doces finos já não são pintados com pincel, mas sim com aerógrafo elétrico. O processo é demorado e detalhado, com grande atenção à aparência final, e lembramo-nos de algo que Alexandra dos Santos nos havia dito alguns dias antes na sua loja: “Quando se vai a um museu, não há lá bolos. Mas deveriam ser considerados uma forma de arte popular.”
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