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Todas as desculpas são boas para dar um salto a Ayamonte, em Espanha, a 10 minutos de carro de Vila Real de Santo António, no Algarve: pôr gasolina, comer tapas, comprar conservas e presunto ou ver a animação ao fim do dia na Plaza de la Coronación.
Do outro lado do rio, em Vila Real de Santo António, muitos chegam à procura de renovar o enxoval com toalhas e lençóis mais baratos – um dos pontos fortes do comércio local – e acabam por ficar para um almoço demorado, um passeio pela praça pombalina ou um cocktail com vista para o Guadiana.
Está apresentado o projeto e feito o convite. De seguida, damos-lhe seis sugestões de coisas para fazer nesta zona da fronteira.
Pendurado numa das paredes do Margallo, bar de choco frito e peixinhos fritos em Ayamonte, está um recorte de jornal com um texto de 2022 de Miguel Esteves Cardoso com a pergunta: “Porque é que não há um Bar Margallo em cada esquina?” A resposta vem logo a seguir: “Porque o mundo é incompreensível.”
Diego Sobral, o dono do pequeno restaurante que funciona quase sempre com uma esplanada com cadeiras de plástico na rua (só quando está mau tempo servem no interior) conta que a crónica ajudou a trazer muitos portugueses ao bar. Outros vieram pelo passa-palavra. “Através de um amigo, de um amigo de um amigo…”
O bar foi fundado em 1946 e, desde então, a ementa pouco mudou. “O que corre bem não se toca”, orgulha-se Diego, que herdou o negócio do seu avô, o fundador.
O menu é fácil de decorar: “pescaíto frito”, choco frito de Huelva e uma salada de tomate difícil de esquecer. “Os portugueses vêm muito para o choco frito com tomate”, confirma Diego. “O meu pai inventou um tempero mágico e toda a gente quer provar.” A salada é feita com tomate Canela, o tomate local, com azeite e alho picado, à moda da casa que este ano celebra o 80.º aniversário. “O segredo é ter produtos bons, de qualidade, a preços acessíveis.”
No Verão e aos fins-de-semana, a fila pode ser longa, mas vale a espera. Um conselho: leve dinheiro, não aceitam cartão.
El Margallo. Calle de José Pérez Barroso, 18, Ayamonte. Quinta a sábado, 12h30-15h, 20h-23h; domingo a quarta-feira, 12h30-15h. T. +34 685 12 49 47
Também em Espanha, o Merkajamón (Solete Guia Repsol) é local de peregrinação de portugueses em Ayamonte para comprar presunto, queijos e conservas. Renato Ferreira, cliente habitual, vem de propósito várias vezes por semana de Faro. “É um capricho”, diz. “Nós não temos a cultura destes produtos, achamos que estas coisas são um desperdício. Mas os espanhóis nisto das conservas é que sabem, dão-nos dez a zero.”
A casa foi fundada em 2002 por José Miguel Vazquez, conhecido por toda a gente em Ayamonte como Pele, e foi-se expandindo. “Abri só como loja, mas como vi que as pessoas queriam beber aqui vinho e cerveja com os produtos que vendia, comecei a transformar a casa pouco a pouco”, conta o espanhol.
Hoje, o produto mais vendido é o presunto ibérico, mas também os queijos e embutidos, para levar para casa ou consumir na loja. “Funciona mais a partir do fim do dia, naquilo que os espanhóis chamam tardeo”, explica Pele.
“Os portugueses, pela proximidade com a fronteira, também vêm muito a essa hora, a partir das seis da tarde, para comer presunto, queijo, ou conservas de biqueirão ou de cavala com um copo de vinho [a maioria, de Espanha].”
Pele continua a apostar em preços “de loja” e em produtos locais, da região da Andaluzia, e, sobretudo, de Huelva, “onde se produz 50% do presunto ibérico de bolota”.
Delicatessen Merkajamón. Av. de Villa Real de San Antonio, 9, Ayamonte. Todos os dias, 10h-15h, 17h-23.30. T. +34 959 470 559
Se os portugueses fazem fila à porta do Bar Margallo, em Ayamonte, os espanhóis retribuem com fila à porta da Taberna do 16. O bar de “tapas à portuguesa” de João Silva abriu em 2024, quando o dono já tinha o Latté, um dos bares mais movimentados de Vila Real de Santo António, a funcionar há quase 20 anos. “Criámos um menu que abrange toda a gente: os locais, os espanhóis, pela proximidade com a fronteira, e os turistas”, explica João.
O atum é um dos protagonistas da carta, com um prego de atum que está entre os mais pedidos, muxama de atum, tártaro de atum, tacos e “pica-pau da terra”, que também é de atum. O choco frito é servido “à espanhola”, com maionese de alho e coentros, e há outros pratos a piscar o olho à vizinhança, como as puntilhitas fritas ou o revuelto campestre com presunto, pimentos padrón, cogumelos e linguiça.
Entre as onze da manhã e as dez da noite, a cozinha não fecha, perfeito para refeições tardias depois da praia.
Taberna do 16. Todos os dias, 11h-22h. Rua da Princesa, 50, Vila Real de Santo António. T. 281 541 212
Depois de anos ao abandono, o antigo Hotel Guadiana, inaugurado em 1926 pela família Ramirez, das conservas, e um dos primeiros hotéis de luxo a sul do Tejo, foi recuperado. Em 2019 renasceu como Grand House Hotel, um cinco estrelas na zona ribeirinha, com vista para Espanha. O edifício mantém o estilo Arte Nova da fundação, mas está, desde o ano passado, nas mãos do grupo espanhol Bordoy.
Ao todo, são 26 quartos e suites e acesso a um beach club com piscina e restaurante na foz do rio, que também pode ser frequentado por não-hóspedes. O mesmo acontece com o bar do hotel, com um balcão de mogno centenário, onde se servem cocktails clássicos ao fim do dia, como negronis ou margaritas. Uma dica: pode bebê-los na varanda secreta do hotel, só com uma mesa.
Bordoy Grand House Algarve. Avenida da República, 171-A, Vila Real de Santo António. Todos os dias, 19h-22h30. T. 281 530 290
Aberta em 2021, em plena pandemia, a Pousada de Vila Real de Santo António é uma das mais recentes Pousadas de Portugal e veio dar vida a quatro edifícios históricos mesmo no centro da cidade, em plena Praça Marquês de Pombal.
Num deles funcionou em tempos a alfândega, outro foi jardim de infância – muitos habitantes de Vila Real de Santo António ainda se lembram de brincar no pátio onde hoje é a piscina principal – e outro, um palacete do início do século XVIII, que ainda conserva os azulejos originais.
Do outro lado da praça, há mais um edifício, usado quando o hotel está mais cheio e que também tem uma pequena piscina – ao todo são três piscinas, incluindo uma no rooftop, com vista para o Guadiana.
O restaurante do hotel, aberto também a não-hóspedes, tem um forno a lenha e tornou-se conhecido pelas pizzas, incluindo as “marafadas”, as pizzas com ingredientes algarvios. Como a pizza paiola algarvia, com orégãos, paiola e chouriço regional, ou a pizza do chef Yuri Souza, com muxama de atum, burrata, geleia de laranja e coentros.
Pousada de Vila Real de Santo António. Praça Marquês de Pombal, 30, Vila Real de Santo António. Preços a partir de 86 euros/noite. 281 249 120
Isabel Ribeiros abriu a Cantarinha do Guadiana em 2004 nas Laranjeiras do Guadiana, uma pequena terra ao pé de Alcoutim, na margem do rio, onde o seu pai em tempos geriu uma taberna. “Tinha 60 habitantes quando abri o restaurante, agora tem 10”, lamenta a cozinheira algarvia. “Trabalhava-se muito ao fim-de-semana, mas durante a semana o ambiente estava morto. Infelizmente é isto que acontece com as povoações da serra.”
Em setembro de 2019, à procura de um negócio mais estável, decidiu, com o marido e com as filhas, mudar a Cantarinha para Vila Real de Santo António, onde há mais turistas.
Os pratos do restaurante são os mesmos que deram fama à casa nas Laranjeiras – lampreia, enguias, sopa de tomate, sopas de peixe de rio, cabidela ou açorda de perdiz –, com algumas novidades, como as pataniscas de polvo, o peixe-galo, açordas de camarão ou papas de milho com berbigão.
O segredo de Isabel é seguir os ensinamentos das cozinheiras da serra algarvia, com pratos com “poucos ingredientes, mas muito sabor”, diz.
Cantarinha do Guadiana. Avenida da República, 19, Vila Real de Santo António. Todos os dias, 12h-15h, 19h-22h. T. 281 547 196
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