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Há um antes e um depois da Capital Europeia da Cultura, de 2012. Quem o diz são os próprios cidadãos de Guimarães, que desde então têm sabido crescer sem vergonhas ou peneirices, navegando entre a tradição e a inovação, entre o regional e o tanto mundo que há para agarrar para lá do berço.
Da gastronomia à cultura, passando pelo compromisso ambiental e cívico que lhe valeu o título de Capital Verde Europeia 2026, Guimarães é hoje um destino mais do que apetecível.
Quem vai, quer voltar e voltar e voltar, porque uma escapadinha é muito curta para lhe sentir o pulso. Nunca é demais visitar o Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG), que até dia 6 de setembro apresenta uma retrospetiva da obra fotográfica de Jorge Molder, nem espreitar a programação do Centro Cultural Vila Flor e da Oficina ou fazer os caminhos da Zona de Couros, com os seus edifícios e tanques que remetem para a indústria dos curtumes, que ali se desenvolveu até meados do século XX.
Pelo meio, há monumentos, livrarias, lojas dedicadas ao Bordado de Guimarães e, claro, muitos e bons sítios para afiar o dente. Neste capítulo, temos uma palavra a dizer. Aliás, várias: visitamos seis lugares que deve incluir no seu roteiro. Desaperte o cinto e seja feliz.
Não há dia em que Rosário Ferreira não faça tortas. “As que são amassadas hoje, são vendidas depois de amanhã”, diz sobre um processo que dura cerca de 36 horas e que, por alturas de estender a massa, requer sempre quatro mãos — as dela e as do marido, José António. A receita já lhe é debitada pelos dedos. “É um legado meu, está-me no sangue”.
Foram os pais, Avelino Ferreira e Olívia Vieira, quem abriram a Confeitaria Clarinha, em 1953, no Largo do Toural, e foi ela e a irmã Clara quem lhe deram continuidade, a partir de 2015, na Rua de Santa Maria. As Rochas da Penha, os Pastéis de Noz, os Pasteis de Chila ou os Amores, são receitas de família, doces que o pai ia testando aos domingos, em casa, para depois vender na pastelaria.
Mas as coqueluches da casa, que até merecem uma breve explicação num quadro à entrada - ou não fosse Rosário também professora - são as Tortas de Guimarães, as Douradinhas e o Toucinho do Céu de Guimarães, doces à base de amêndoa, ovos e chila, confecionados no antigo Convento de Santa Clara.
Após a extinção dos conventos, no século XIX, estas receitas foram parar às casas senhoriais da região pela mão das senhoras que trabalhavam em Santa Clara. Algumas foram sendo partilhadas, como a do Toucinho do Céu de Guimarães (€2,40), o mais consistente dos três doces: é cozido duas vezes e envolto em farinha, para conservar a humidade e a frescura.
Outras, como a das Douradinhas (€2,40), quase caíram em esquecimento, não tivesse o pai de Rosário recuperado este pequeno pastel de massa quebrada nos anos 90, a partir das memórias de uma descendente dos proprietários da antiga Pensão Teixeira Mendes, casa reconhecida por fabricar “as verdadeiras” Douradinhas.
Por fim, as Tortas de Guimarães (€2,70) são um segredo muito bem guardado, apenas passado de pais para filhos, e o tesouro maior da doçaria preservada no Convento de Santa Clara. “Ninguém faz tortas de receita”, explica Rosário, que se lembra de ajudar os pais desde pequena, mesmo quando eles torciam o nariz: “Quase foi preciso obrigá-los a ensinarem-me”.
O processo é todo artesanal, do recheio à massa crocante. “É preciso sentir a massa. No verão é uma coisa, no inverno outra”. Enfim, não há uma torta igual à outra. A única coisa que se mantém constante é a procura: faça chuva ou sol, se quiser apanhar as Tortas de Guimarães na Confeitaria Clarinha, o melhor é passar por lá durante a manhã ou então encomendar, porque elas voam. Outra hipótese é marcar uma degustação (a partir de €5).
Pastelaria Clarinha. R. de Santa Maria, 44, Guimarães. 253 097 725. 10h-18h.
Ela era designer de moda, ele, designer gráfico. Ambos gostavam de expandir a criatividade, mas estavam cansados das suas áreas. Viraram-se então para a gastronomia vegetariana, sem nunca imaginar que esse namoro um dia viria a dar origem a um restaurante. “Este espaço surgiu de um convite do CAAA (Centro para os Assuntos da Arte e Arquitectura)”, conta André sobre a Cantina que abriu com a companheira Ane, em 2019.
Nenhum dos dois tinha experiência em restauração e a única formação que fizeram durou dois meses, no Rio Grande do Sul, no Brasil, de onde Ane é natural. “Aprendemos fazendo”. Todos os dias, de terça a sábado ao almoço, Ane e André põem a prática ao serviço do conhecimento, ou vice-versa, e os pratos vão-lhes saindo das mãos com um equilíbrio, subtileza e beleza que nos fazem crescer água na boca.
Tudo o que ali é servido, das lasanhas ao falafel, dos risotos aos caris, da tarte de requeijão e pêra ao bolo de cenoura e nozes, é feito com atenção ao detalhe, algo transversal à decoração do restaurante, pensada a partir do reaproveitamento de materiais - como os tampos de cortiça das mesas compridas - e de plantas. Também na escolha de fornecedores se nota o cuidado de Ane e André, para quem é importante criar laços com a vizinhança: “Interessa-nos muito o ser local. Vamos buscar muitas coisas a pé”.
O ambiente da Cantina é leve e descontraído, como o de um supper-club. Mais do que querer impressionar, Ane e André cozinham aquilo que gostam, como se estivessem a partilhar a sua casa connosco. Existirá melhor sensação do que essa? O menu pode ser provado a partir de €13,50 por pessoa.
Cantina CAAA. R. Padre Augusto Borges de Sá, Guimarães. 913 830 102. 12h-15h; Fecha dom. e 2a.
"Somos apenas cozinheiros, não vamos salvar o mundo", afirma o coletivo Má Vontade, com palavras impressas numa das t-shirts que fazem parte da sua coleção de streetwear. Eles, que para além de restaurante de street food, são também uma pequena galeria de arte e loja de roupa, advogam que o que ali fazem não é nada de especial. É cozinha e arte sem salamaleques e isso é tão delicioso de ouvir como a mousse de chocolate é deliciosa de comer.
Note-se que foi precisamente esta mousse, com nozes ou avelãs caramelizadas, flor de sal e azeite, que apontou os holofotes para o Má Vontade, num vídeo partilhado até à exaustão. Nele, via-se o chef Francisco Coelho a descomplicar a cozinha, metendo a formalidade na borda do prato, que neste caso é de alumínio.
O importante aqui é que tudo seja bem feito: cozeduras no ponto, estrugidos apurados, reações Maillard respeitadas e molhos condimentados. O resultado? Cada garfada, colherada ou mãozada está cheia de sabor e deixa-nos os lábios brilhantes e a ansiar por mais.
O menu é servido a partir de sexta-feira ao almoço e prolonga-se para o fim de semana. Dele fazem parte a vitela assada - braço dado com as tradições minhotas - o taco de croquete de rabo de boi, as espetadas de frango e amendoim ou as lulas, servidas com manteiga de limão.
“Nós marcamos a diferença em muitas coisas”, diz Francisco sobre este ecossistema queer e aberto à comunidade artística local. Reflexo disso são as Má Vontade Sessions, micro-concertos dentro do restaurante, ou a coleção street wear Bad Mood. O projeto quer evoluir, em constante diálogo e disrupção com a cidade, usando dessa tensão para continuar a fazer a diferença.
R. Egas Moniz, 127, Guimarães. 960 034 209. 6a. e sáb.: almoço e jantar; dom.: almoço.
Tascos, tabernas e tasquinhos, Guimarães está cheia deles. De tal forma, que poderíamos escrever uma tese sobre este tema. Entre as mais conceituadas, está a Adega do Ermitão, uma preciosidade escondida nos barrocais do Santuário da Penha onde se petisca à grande todos os fins de semana (ou todos os dias, no verão).
Numa dessas cavernas da Penha, Armindo Dias Monteiro decidiu guardar o vinho por si produzido, para o proteger dos picos de temperatura. Aos poucos, foi recebendo amigos e forasteiros que ali paravam para dois dedos de conversa e alguns petiscos. Mais de 40 anos volvidos, a caverna de Armindo transformou-se numa adega de filas à porta, mantendo ainda a gestão familiar e é reconhecida pelos bolos — uma massa salgada estendida como um crepe que vem guarnecida de sardinha, carne ou chourição. Também há moelas, cebola com sal, iscas de fígado, salgadinhos vários e caldo verde.
Adega do Ermitão. R. Da Penha, Guimarães. 912 786 968. 12h30-21h
Antigamente, a Tasquinha do Tio Júlio era o ponto de encontro da “gandulice”, lugar de má fama, como canta Marante na balada Som de Cristal.
É António Júlio, 69 anos, quem o lembra, ele que abriu a tasquinha em 1981, ficando conhecido por Tio Júlio, “uma brincadeira dos miúdos que por lá paravam”, conta numa das raras vezes em que o encontramos sentado, na esplanada. Na maior parte do tempo, é atrás do balcão que lhe vemos o bigode, maneando pregos na chapa “com carinho”, porque só com carinho é que se leva esta vida.
“Faço o que gosto. Mesmo quando não tenho clientes, estou aberto”, garante. Há sempre alguém a chegar fora de horas e a querer um cantinho para saciar a fome e sentir o quentinho do trato humano que nenhuma vending machine ainda sabe replicar. E é nesta tasca, forrada a cachecóis e adereços do Vitória SC – ou não fosse este um dos lugares históricos para os adeptos se reunirem antes e depois dos jogos – que encontrará o “olá amigo” que satisfaz tanto quanto um bom preguinho.
O prego que dá fama à casa (€6) é tenro e suculento e tem o tamanho certo para não encher nem para deixar o estômago com buraquinhos. Claro que, quem pede um, facilmente pede dois. O difícil é chegar aos 13, recorde da casa. Se alguém se atrever a comer 14, o Tio Júlio paga a conta. Promessa feita olhos nos olhos, que é assim que os compromissos se selam.
Para além dos pregos, há também moelas, francesinhas e meias-francesinhas e “francesinhas à dantes”, em pão biju, sandes de presunto e ovo, caldo verde e coisas modernas, como kebabs, em versão omnívora e vegetariana. Para comer a qualquer hora do dia e da noite, com uma cerveja bem tirada e um copo de vinho a acompanhar.
Tasquinha Tio Júlio. R. de Couros, 20, Guimarães. 253 417 761. 12h-02h; 6a. e sáb. fecha às 4h; Fecha dom
Pode uma cozinha ser de fine dining e, simultaneamente, fazer-nos lembrar do gostinho do fundo da assadeira dos almoços de domingo em família? Pode sim e A Cozinha por António Loureiro é a prova disso. Cozinhando com o que a terra e o mar dão, o chef de 57 anos faz magia com aquilo que nasce e desagua nas imediações de Guimarães, fazendo do quilómetro zero, da técnica, do aproveitamento do subproduto e do louvor ao Minho a sua fórmula de sucesso.
Há uma assinatura vincada em cada um dos seus pratos, seja pela elegância com que chegam à mesa, seja pelos sabores que nos despertam memórias íntimas, sem que nenhuma insinuação ou espalhafato sejam feitos. Os menus de degustação, de 11 e 13 momentos (€115 e €145 respetivamente) são a melhor forma de entrar na narrativa, mas o restaurante tem também serviço à carta. A sazonalidade dita os pratos da estação. Independentemente disso, n’A Cozinha nunca pode faltar bacalhau nem galinha, muito menos a cavala no verão. Há também um menu exclusivamente vegetariano, pensado de raiz, para que ninguém fique à porta.
Cozinha por António Loureiro. Largo do Serralho, 4, Guimarães. 253 534 022. 12h30-15h30 e 19h30-23h (fecha dom. e 2a.)
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