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Monsaraz e arredores, para além daquilo que está à vista

Roteiro em Monsaraz

Monsaraz e arredores, para além daquilo que está à vista

Atualizada: 21/05/2026

Texto: Diego Armés

Fotografia: David Pires

Património, história e gastronomia, silêncio, sossego e praias fluviais. Este paraíso do interior alentejano tem muito para explorar.
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Vila-museu, povoação cristalizada no tempo, empoleirada em cima de um monte, sentinela do Guadiana contra as invasões castelhanas, Monsaraz tem um encanto ímpar na paisagem alentejana. Vista de longe, ergue-se na sua colina elegante, recortando o horizonte. Quando se visita, muralhas adentro, encontram-se ruas labirínticas e pedras de xisto, paredes brancas e, a toda a volta, para lá das muralhas do castelo, uma vista soberba.

Monsaraz tem um encanto ímpar também por causa das suas ruas labirínticas
Monsaraz tem um encanto ímpar também por causa das suas ruas labirínticas

Voltados para oriente, na direção de Espanha, podemos contemplar o grande lago de Alqueva preenchendo os vales entre os pequenos montes que compõem a região. Vistas de cima, as pequenas lagoas parecem poças de água. A arquitetura da vila mistura a herança medieval com aquele alinhamento de casas que, à falta de melhor definição, se pode classificar como “tipicamente alentejano”. Há traços de épocas diversas, dos arcos de janela góticos aos frontões e torres barrocos, mas a miscelânea é tão harmoniosa que se torna praticamente indiscernível.

Junto a Monsaraz, um oásis: o grande Lago de Alqueva
Junto a Monsaraz, um oásis: o grande Lago de Alqueva

A vila de Monsaraz não precisa de outros adornos para merecer visita. A sua beleza é motivo mais do que suficiente para uma paragem demorada. Para quem pretende permanecer um pouco mais, ou fazer de Monsaraz destino de escapadinha, deixamos uma proposta de roteiro que o leve para lá do que é mais óbvio e evidente.

Pelo caminho, descobrir a olaria de São Pedro do Corval

Terra do barro, situada no caminho entre Reguengos e Monsaraz, ali se encontram, com grande abundância, elementos típicos da cerâmica alentejana - são muitos os ateliers e fabricantes. Dos tijolos às travessas, das lajes de chão até aos jarros e às taças, com perfil mais funcional ou mais decorativo, a aldeia atravessada estrada municipal 514 é fértil na oferta. 

Da Roda da olaria Patalim saem objetos tradicionais com uma perfeição que nem parece manual
Da Roda da olaria Patalim saem objetos tradicionais com uma perfeição que nem parece manual

Escolhemos, de entre as várias possibilidades, a olaria O Patalim, onde se encontram peças para todos os gostos, mantendo sempre a traça distintitiva do Alentejo, bem como a paleta de cores que imediatamente identificamos com a região. Aqui, tudo é feito à mão, desde a moldagem das peças até à pintura e ao envernizamento. O caráter artesanal da produção mantém-se intacto, ainda que a quantidade de peças produzidas impressione, bem como o ritmo a que a equipa de artesãos e artesãs as vão concebendo e finalizando.

A Patalim é apenas uma das olarias de São Pedro do Corval
A Patalim é apenas uma das olarias de São Pedro do Corval

Nesta olaria, existe ainda uma secção onde o visitante pode encontrar objetos com pequenos defeitos, percalços de fabrico que são suficientemente relevantes para as retirar das prateleiras e para a impedir a sua expedição para os mercados (internos e externos - a exportação é um dos fortes desta olaria), mas discretos o bastante para permitir que sejam vendidas a preços reduzidos a quem não se importa com um traço levemente defeituoso ou um grão de areia no verniz.

Olaria O Patalim. São Pedro do Corval. 967 573 883. Aberto de segunda a sábado, das 9h00 às 17h30; aos domingos, das 10h00 às 12h00.

Contemplar o passado no Cromeleque do Xerez

Para quem não acompanha a trend pré-modernista dos artistas paleolíticos, pode parecer só um conjunto de pedras à roda de uma outra pedra maior. E é disso que se trata, sim. Mas a instalação tem um significado, cuja missão de descobrir preferimos deixar para o leitor e viajante.

O cromeleque do Xerez é o marco pré-histórico perto de Monsaraz
O cromeleque do Xerez é o marco pré-histórico perto de Monsaraz

O cromeleque do Xerez (ou do Xarez) remete para as estevas - “saris” ou “sharish”, em árabe -, que inundam a paisagem e que estarão origem do nome de Monsaraz, “monte de xarez/xaraz”, o monte das estevas. O edificado pré-histórico fica aos pés de Monsaraz, junto ao Convento da Orada, a caminho da praia fluvial. E vale a pena uma visita, ainda que breve, para nos pôr a pensar sobre há quanto o tempo anda o Homem por estas paragens.

Onde comer em Monsaraz? Almoçar em casa no Sahida

Fica mesmo no coração de Monsaraz, ao lado do Pelourinho e da Igreja de Nossa Senhora da Lagoa, um dos restaurantes mais surpreendentes da região. Cabem nele muitos outros adjetivos, e todos eles são positivos e elogiosos, porém surpreendente é, porventura, aquele que melhor designa o primeiro impacto. Ao entrarmos, deparamos com arte sacra, relicários, pormenores de madeira entalhada, pinturas a óleo com vários séculos de idade.

A arte sacra e os traços de uma arquitetura antiga fazem a decoração do Sahida
A arte sacra e os traços de uma arquitetura antiga fazem a decoração do Sahida

Nos tectos antiquíssimos, há lustres e candeeiros modernos; as pedras dos degraus das escadas estão gastos ao ponto de terem de ser revestidos a vidro, para deixarem de ser tortos - a solução é ótima, pois mantém à vista a escadaria as pedras originais; toda a casa merece este tipo de cuidados: o conforto é garantido, mas procura-se sempre solução para preservar o que já lá estava.

Tudo no Sahida é recomendável e merece ser descoberto. Os terraços com vista, os recantos com floreiras, as gárgulas que o decoram. E, claro, a ementa, que é alentejana sem ser limitada, das sopas de cação aos choquinhos ao alhinho.

O Sahida é, normalmente, o último restaurante a fechar no centro da povoação
O Sahida é, normalmente, o último restaurante a fechar no centro da povoação

O proprietário explica que aquela era a casa de férias dele e que, durante a pandemia, decidiu mudar-se definitivamente para Monsaraz, transformando a casa num restaurante. Chamou-lhe Sahida porque, diz, aquele era o único sítio para onde se pode sair um bocadinho em Monsaraz quando tudo fecha, e aquela era a grafia antiga da nossa atual “saída”. Alguém lhe disse, acrescenta, que “sahida” significa “acolhimento” em árabe, e que achou piada por isso. Incapazes de confirmar a designação árabe, descobrimos, no entanto, que “sahida” significa “testemunho” em turco. Não sendo igual, assenta-lhe como uma luva, já que o Sahida é um testemunho de outras eras e de muitas histórias.

Sahida. R. José Fernandes Caeiro 5, Monsaraz. 968 808 075. De quarta-feira a domingo, das 12h00 às 15h00 e das 19h00 às 22h00.

Refrescar com um mergulho nas Azenhas d’El Rei

A proximidade às aguas do grande lago de Alqueva é mais um dos trunfos da zona. Ir à praia é bastante fácil, e até existe uma em Monsaraz, a pouco mais de um minuto de carro desde as muralhas. Mas há outras opções, como a praia fluvial das Azenhas d’El Rei, a meia-hora de distância, em direção ao Alandroal - que é, já agora, vila que também merece visita.

As Azenhas d’El Rei são uma das mais bonitas praias de Alqueva
As Azenhas d’El Rei são uma das mais bonitas praias de Alqueva

As Azenhas d’El Rei têm um areal mais vasto e, com certeza, não perdem para a praia de Monsaraz no que toca a beleza natural, além de que um passeio de carro pelos campos com os vidros abertos sabe bem a seguir ao almoço, o que nos leva a optar por esta praia e não pela outra. Em todo o caso, ambas dispõem de várias atividades, além, naturalmente, de tomar banhos de sol e de água doce: há os cruzeiros pelo Guadiana, há a canoagem e há a pesca desportiva. Estas serão as modalidade mais populares. Para quem prefere atividades menos radicais, há sempre a opção do pires de caracóis mais imperial na esplanada à beira do areal. No fim, antes de partir, mais um mergulho para refrescar.

Descansar no silêncio encantador da Horta da Moura

Fora da vila de Monsaraz, mas no sopé do mesmo monte, a um minuto da entrada nas muralhas, aí fica o hotel que, no início, em 1991, era somente um alojamento para caçadores. A beleza do sítio fez com que a simplicidade inicial fosse ganhando outras dimensões, até se tornar, enfim, hotel. Pelo caminho, houve percalços - a pandemia e seus confinamentos levaram ao encerramento -, mas em junho de 2025 a Horta da Moura renasceu voltou a abrir portas.

A Horta da Moura é uma mini-aldeia alentejana, com suítes e quartos independentes
A Horta da Moura é uma mini-aldeia alentejana, com suítes e quartos independentes

Rodeada de vegateção e praticamente invisível para quem passa ao largo, na estrada, a Horta da Moura é uma espécie de mini-aldeia alentejana, com suítes e quartos independentes, fiéis à estética da região, que inclui as grandes e características chaminés e lume de chão, entre outros elementos que fazem de cada recanto um refúgio de bom-gosto e conforto.

As zonas comuns têm o ambiente de uma casa de férias de uma grande e abastada família
As zonas comuns têm o ambiente de uma casa de férias de uma grande e abastada família

Dentro da propriedade, que é vasta - são nove hectares, no total -, há piscina, sala de jogos - snooker, xadrez, cartas -, bar, esplanada e restaurante, e podemos ainda encontrar um recinto com oliveiras milenares, ovelhas a pastar livremente ou uma nora de tirar água, o que convida a passeios descontraídos dentro da propriedade. A Horta da Moura convida a desfrutar das tardes longas e indolentes do Alentejo. Com o seu sossego absoluto - não há ruído de máquinas, não há televisões -, é o sítio ideal para relaxar e desligar do mundo.

A rematar tudo isto, aos sábados, o hotel serve um brunch alentejano com alma de almoço — das 12h às 15h, mas com potencial para ocupar a cabeça e o corpo dos comensais o dia todo. Promete-se um buffet que vai dos pezinhos de coentrada e dos ovos com farinheira à sopa de panela e borrego assada. À sobremesa, mais clássicos, como a sericaia.

Para finalizar, e para não termos de nos mexer mais, sugerimos um jantar no Sítio da Moura, o restaurante dentro da Horta da Moura. A ementa não é extensa, mas nela podemos encontrar algumas preciosidades, como as sopas de espinafres com batata e queijo de cabra fresco, ou a posta de carne mertolenga.

Depois disso, o melhor é aproveitar os cadeirões dos terraços e contemplar o céu estrelado, em silêncio.

Hotel Horta da Moura. Estrada de Monsaraz, km 4. 962 287 093