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Onde se come uma boa carcaça em Lisboa? A pergunta fica sempre com uma resposta pouco satisfatória, sobretudo nesta era dos pães da massa mãe com sabor a fermentação pronunciado e inspirados nas tradições nórdicas ou nas tendências americanas. E a carcacinha ideal para ensopar o molho de uma sandes, sem se desfazer, acolher os temperos do conduto sem se sobrepôr?
Em Lisboa, apesar de tantas padarias de fermentação natural, a carcaça estava até agora entregue a padarias antigas com fabrico de pão cheio de melhorantes — químicos adicionados às farinhas que garantem fornadas que correm sempre bem, independentes da perícia do padeiro. Foi um pólo cultural que resolveu o assunto. Abriu a Casa Capitão, no Beato, e tem a carcaça perfeita.
Com três salas para concertos e djset e um generoso terraço com vista sobre o Tejo, a Casa Capitão é a segunda vida do Musicbox, espaço emblemático da música em Lisboa, encerrado em 2025. Aqui os mesmos proprietários continuam o desbravamento do panorama musical, da cultura do clubbing, a descoberta e lançamento de novos artistas e juntam-lhe programação de outras artes e um restaurante e bar a cargo de Bernardo Agrela. Contas feitas, a Casa Capitão é um micro-bairro da cultura, da mesa reconfortante e da alegria.
O projeto multidisciplinar reabilitou e habitou a antiga casa do comandante da Manutenção Militar, edifício mesmo em frente, do outro lado da Rua do Grilo. Num dos andares intermédios instalou-se o Mesa, o restaurante responsável por alimentar espectadores, notívagos, amantes da comida gulosa, foodies e gastrónomos.
Esta última fauna acompanha o percurso de Bernardo Agrela há algum tempo: é responsável pelo projeto Frangos do Além, que ajuda pequenos produtores de galináceos de qualidade, ovos, galinhas de raças autóctones e caça a fornecer restaurantes. Antes disso, foi um chef revelação no fine dining Cave 23 (Lisboa), onde começava o menu de uma bola de berlim recheada de rabo de boi que ficou mais ou menos mítica.
“Estou um pouco cansado de conceitos, só quero é comida boa. A ideia era exatamente essa. Ter os pratos escritos numa ardósia que nos desse essa liberdade. Não é um farm to table, não queria fazer o próximo restaurante gastronómico de Lisboa”, desvenda um pouco o que está por trás das bochechas de vaca com arroz de enchidos ou das lulas recheadas com orzotto (massa pevide cozinhada como um arroz cremoso).
Esta falta de conceito significa uma coisa desesperadamente simples: aqui ninguém o vai obrigar a saber de onde vem a carne de vaca, o queijo de cabra servido com frutos secos ou cada legume. Mas já agora, fique sabendo: Bernardo Agrela e a equipa de cozinha estão na cruzada de trabalhar apenas com ingredientes locais e — mais difícil do que isto — sair da operação das grandes empresas de retalho, para assegurar bom produto e um pagamento mais justo ao produtor.
“Não tenho no menu que o nosso bitoque é com ovos de pata [maiores do que os de galinha e de sabor mais intenso], porque não os conseguimos garantir sempre. O problema dos nossos produtores é a quantidade, temos produções pequenas,” explica o desafio que é manter a consistência do fornecimento escolhendo pequenos produtores.
Quando foi contactado pela equipa da CTL — Cultural Trend Lisbon, empresa de programação e responsável pela Casa Capitão, nada disto era um briefing. Este foi o princípio que Bernardo Agrela decidiu trazer, depois de um trabalho próximo com produtores em projetos como os Frangos do Além.
“Saí da vida diária da restauração e a razão para voltar é o posicionamento político da empresa — nos restaurantes e hoteis isso não acontece, não é normal haver opiniões. Este é assumidamente um espaço sem discriminações sexuais, raciais, queremos receber pessoas de todos os géneros, transgénero. Toda a gente é bem vinda e pode ser programada. Não nos cabe dizer se uma banda é boa ou má, cabe-nos dar espaço para existir. Os patrões não querem comprar o próximo Ferrari, o dinheiro que fazemos é para pagar a operação e programar cultura para a cidade de Lisboa. O mais importante para mim é saber que não estou a trabalhar para a riqueza de uma pessoa, mas de toda a cidade”, diz Bernardo Agrela.
Se o Mesa é a expressão e prática gastronómica desta casa, o terraço é a entrada na noite brilhante e batida. Por aqui entra-se para as salas de djset e a grelha e o bar funcionam como apoio ao clubbing. Por isso, um menu de sandes: de polvo, a belíssima sandes de espada, uma tosta mista em grande, um prego digno do seu nome e, ocasionalmente, uma sandes de cozido toda direitinha — todas as parcelas do cozido recheiam uma porchetta (barriga de porco, enrolada sobre si e crocante por fora). Cada um destes condutos vai no meio de uma carcaça.
“A carcaça está em vias de extinção”, alerta Bernardo Agrela. “Eu lanchei durante anos carcaça com leite na escola, a única escolha é se era com manteiga e marmelada ou com queijo e marmelada. Não devemos abdicar da nossa identidade só porque há coisas da moda. Acho que o público português às vezes se esquece destas coisas.”
As carcaças que se fazem na cozinha da Casa Capitão são não só essa manifestação de identidade, mas também uma lição: nem todo o pão branco é diabólico e nem toda a fermentação lenta e massa mãe se parece com um pão familiar escuro e ligeiramente ácido a cinco euros cada meio quilo. Aqui fazem-se carcaças de fermentação longa e natural (ou seja, de massa mãe, sem fermentos químicos ou melhorantes), usam-se boas farinhas e um ou outro truque para que fiquem estaladiças não magoam ninguém (como a adição de farinha de arroz para se fiquem crocantes).
Isto é um acontecimento. Tanto assim que o Mesa organiza o Clube Internacional da Carcaça, eventos em que cozinheiros de fora são convidados a criar uma sandes de carcaça.
A cozinha trabalha até à meia-noite e vende ao postigo pela madrugada para apoiar o Baile, o nome da programação de clubbing da Casa Capitão. Há três salas com djsets às sextas e sábados e concertos durante a semana
À semelhança do que o Musicbox foi por tantos anos para Lisboa, a Casa Capitão quer ser um sítio de experimentação e encontro, levado agora além das fronteiras da música. A da CTL – Cultural Trend Lisbon, a empresa dos fundadores do Musicbox, abre aqui uma nova linha de programação, o Quiosque com curadoria de debates, exposições, teatro, que cruzam arte e a discussão sobre arte e política. Assim continuam eventos e festivais a que a cidade já se habituou, como o MIL, e preparam-se para nascer outros.
Casa Capitão. Rua do Grilo 119, Lisboa. Mesa: segunda a sexta, das 19h às 00h00; sábado e domingo das 12h às 00h
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