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Das entranhas da terra, o cozido que virou atração turística

O que comer em São Miguel

Das entranhas da terra, o cozido que virou atração turística

Atualizada: 15/01/2026

Texto: Clara Silva

Fotografia: Ana Brígida

O famoso cozido das Furnas é obrigatório em São Miguel. Fomos aprender a fazê-lo com o chef do Terra Nostra Garden Hotel.

Quando Anthony Bourdain visitou as Furnas para um episódio do programa “No Reservations” que foi para o ar em 2009 não ficou impressionado com a paisagem. “Parece um cenário de ‘Star Trek’”, ironizou ao olhar para as caldeiras vulcânicas: “E não digo isto no bom sentido.”

Também o cheiro a enxofre vindo das “entranhas da própria terra” o incomodou: “Furnas, a vossa terra smells like ass”, exclamou. O chef norte-americano só ficou verdadeiramente convencido depois de provar o cozido das Furnas, o prato típico da região açoriana, uma versão do cozido à portuguesa, mas cozinhado debaixo de terra, com o calor geotermal. “Fantástico”, rendeu-se finalmente, já à mesa.

Todos os tachos se envolvem em panos que protegem o cozido de terra e areias
Todos os tachos se envolvem em panos que protegem o cozido de terra e areias

Desde então, e com o boom turístico nos Açores na última década, as Furnas, no concelho da Povoação, tornaram-se um dos principais pontos turísticos de São Miguel, a motivar excursões para banhos nas águas quentes termais (no Parque Terra Nostra ou na vizinha Poça da Dona Beija) e para provar o famoso cozido.

Como fazer um cozido das Furnas? O Terra Nostra explica

O restaurante do Terra Nostra Garden Hotel, o primeiro hotel construído nos Açores, em 1935, e um dos primeiros do país a ser inaugurado, é, sem dúvida, um dos sítios mais procurados para experimentar o prato – e até cozinhá-lo. Cook Your Own Cozido, assim se chama a atividade do hotel, já a piscar o olho aos muitos turistas estrangeiros que visitam a zona, propõe uma manhã a preparar o prato, desde as compras nas pequenas lojas da vila até à colocação da panela na caldeira borbulhante.

Luís Arruda, chef do Terra Nostra, guia as compras para o cozido das Furnas no comércio local.
Luís Arruda, chef do Terra Nostra, guia as compras para o cozido das Furnas no comércio local

Luís Arruda, que trabalha no Terra Nostra desde 1992, é o chef responsável pela atividade muito procurada por grupos. É ele quem encontramos pontualmente às dez da manhã à porta do hotel para a primeira etapa do dia: as compras na mercearia na mesma rua. “Às quintas, sextas e sábados também vamos ao talho, quando abre”, diz o chef açoriano de 55 anos. “É tudo praticamente na mesma rua, é a vantagem do comércio local, não é preciso andar de carro.”

Com um cesto, abastecemo-nos de batata, batata-doce, inhame plantado ali mesmo, cenouras, couve e um repolho branco, os ingredientes que se vão juntar às carnes na panela. Tudo isto tem uma ciência que Luís está habituado a explicar e que tem um princípio fundamental: “A couve serve como as molas de um colchão”, ensina. “Vai suportar os ingredientes que vamos colocar em camadas sucessivas até ao final.”

Batata, batata-doce, inhame , cenouras, couve e repolho branco: tudo isto vai cozer debaixo de terra
Batata, batata-doce, inhame , cenouras, couve e repolho branco: tudo isto vai cozer debaixo de terra

Depois das compras, a preparação da panela faz-se numa sala do hotel exclusiva para o tempero das carnes (vaca, porco galinha, chouriço e morcela dos Açores) e onde começa o puzzle de encaixar os ingredientes. “Não se assustem com a quantidade de tempero”, adverte Luís, que junta massa de pimentão, louro, vinho branco e sal grosso.

Antes da tampa, a panela é envolvida com um pano, para evitar que fique com areia quando vai para a caldeira. “Depois de amarrada, passa a funcionar com uma panela de pressão”, continua Luís.

A evolução do cozido das Furnas, da serapilheira ao caldo que não leva água

O chef de São Miguel explica que a tradição do cozido nas Furnas é secular. “Foram as próprias famílias daqui que começaram a fazê-lo”, conta. “As pessoas já estavam familiarizadas com os eventos da natureza, como os sismos, mas desconheciam o efeito das caldeiras. Inicialmente, puseram os legumes a cozinhar para alimentar os animais. Como viram que não lhes aconteceu nada, começaram a comer também e a preparar pratos como o cozido.”

Se não tem um restaurante com lugar marcado, há que acordar cedo para conseguir uma caldeira
Se não tem um restaurante com lugar marcado, há que acordar cedo para conseguir uma caldeira

Os locais continuam a levar as suas panelas para as caldeiras das Furnas, embora haja uma lotação, que nos meses de verão esgota rapidamente. “Chegar cedo às caldeiras” é fundamental para garantir lugar num dos buracos de cimento com menos de um metro de profundidade onde, depois de tapado por um profissional (a quem convém dar gorjeta), a temperatura chega aos 95 graus. Os restaurantes da zona têm os seus próprios buracos reservados e as primeiras panelas são postas ainda de madrugada, para estarem prontas a tempo do almoço.

No Terra Nostra, o empratamento e serviço elevam deste cozido antigo e popular
No Terra Nostra, o empratamento e serviço elevam deste cozido antigo e popular

“Um tacho habitual, para 25 a 30 pessoas, demora umas 7 ou 8 horas até estar pronto”, diz o chef. Já a nossa panela, mais pequena, estará pronta dentro de 5 horas. O cozido (31 euros para uma pessoa, 57 euros para duas) é servido no restaurante do Terra Nostra Garden Hotel, uma sala art déco com vista para o verde do parque.

“O caldo é que faz a diferença”, diz o sub-chef de sala, Nelson Raposo. “Dantes não aproveitávamos o caldo da panela. Aliás, antigamente o cozido era cozinhado em sacos de serapilheira. Agora já não é tão seco e não sabe a enxofre.”

O restaurante do Terra Nostra, ao estilo art déco, tem vista para um dos mais bonitos jardins privados da ilha
O restaurante do Terra Nostra, ao estilo art déco, tem vista para um dos mais bonitos jardins privados da ilha

O caldo dos ingredientes na panela (que não leva água) é que dá o verdadeiro sabor ao cozido e o torna diferente do habitual. “A natureza faz o seu trabalho”, conclui o chef Luís Arruda. “E tem o seu humor. O tacho que é colocado cedinho tem outro aroma que o da noite. Eu prefiro o cozido do almoço.”

Restaurante Terra Nostra. Terra Nostra Garden Hotel, Rua Padre José Jacinto Botelho, 5, Furnas, São Miguel. Todos os dias, 13h-15h e 19h-21h30. Telefone: 269 549 090. Marcações de Cook Your Own Cozido: tngh@bensaudehotels.pt