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Zulmira Silva apoia-se no cajado e, testando a firmeza da terra que se deixa pisar, vai passeando devagarinho junto às ramas da sua plantação de tomate coração de boi. “Olhe este aqui”, aponta com o cajado, chamando-nos a atenção para um tomate gorducho, vermelhão, e que pesa um quilo. “Este está bonito”.
Exemplares como este valeram-lhe o prémio de melhor Tomate Coração de Boi do Douro em 2023 e um segundo lugar na edição de 2024 do concurso, que anualmente reúne vários produtores, desde Mesão Frio a Vila Nova de Foz Côa, quase todos associados a quintas vínicas do Douro.
“Eu não faço nada ao tomate. A única coisa que faço é sachá-los. Depois deito um bocadinho de adubo e vou alimentando com água”, revela a agricultora transmontana de 75 anos, sem truques escondidos no bolso do avental.
O olho, aguçado pela experiência de uma vida inteira a trabalhar no campo, é o seu indicador de qualidade, tanto no momento da colheita como no da seleção das melhores sementes. “Parto o tomate ao meio e com uma faca tiro as pevides. Depois seco-as e planto-as num vaso”.
Na Primavera, explica, transplanta os pés de tomate, sempre para uma terra diferente da do ano anterior, para não saturar o solo. No verão, as ramas crescem velozes em direção ao sol e dão tomates suculentos, carnudos e de pele fina. Os tais que motivaram a realização de um concurso que já vai na décima edição e que, paralelamente, traz ao território e às mesas do Douro uma série de iniciativas.
Se na primeira edição, que teve lugar na Quinta Dona Matilde, apenas apareceram 13 produtores, na de 2025 estarão presentes quase 40, em linha com os números dos anos anteriores. Quem o divulga é Celeste Pereira, mentora desta iniciativa.
“Quando tive esta ideia, há dez anos, já andava louca com os produtos do Douro. Vivia num sítio super rural e tinha produtores que me vinham pôr à porta os seus produtos. Comecei a acreditar que podia fazer mais coisas por eles”, conta a responsável da empresa de comunicação e eventos Greengrape.
Juntou-se então aos amigos Edgardo Pacheco, jornalista, e a Abílio Tavares da Silva, da Quinta de Foz Torto, e convidou os produtores para “um lanchinho partilhado” à volta do tomate.
Esse lanchinho teve um duplo objetivo: por um lado, sensibilizar os produtores a não centrar o seu discurso e atividade exclusivamente no vinho, lembrando-os da importância em manter as tradicionais hortas durienses e, assim, aportar valor acrescentado à região; por outro, o de valorizar um produto de elevada qualidade junto dos consumidores, evitando o seu desaparecimento.
“Há 10 anos, só se via este tipo de tomate em mercados municipais, à venda a €1 o quilo. Era claramente um produto em vias de extinção”, recorda Celeste. Hoje, já é vendido a €3,5 o quilo, sinal de que os tempos e as mentalidades estão a mudar.
À medida que o zunzum à volta do Tomate Coração de Boi do Douro cresceu, estipulou-se uma meta mais ambiciosa: a de classificar este tomate como Indicação Geográfica Protegida (IGP). Esse passo, segundo Celeste Pereira, é essencial para garantir a preservação da semente e a genuinidade e a origem do fruto.
Caso contrário, corremos o risco de andar a comprar gato por lebre, que é como quem diz tomate ligúria (de origem italiana, com forma de pêra, e com nervuras) por Tomate Coração de Boi do Douro.
“O que tem barrado o processo de classificação IGP são as instituições que gerem o dinheiro para o território ainda não terem entendido a importância disto”. Celeste di-lo com igual dose de franqueza e de tristeza. Será preciso fazer um croqui para que os senhores de fato entendam que a preservação do património duriense passa por honrar os seus produtos e produtores?
Não foi feito nenhum croqui, porém já há um Guia de Boas Práticas, um Mapa das quintas produtoras e um livro publicados. Tomate Coração de Boi do Douro – A outra riqueza do vale mágico (2024) foi, aliás, eleito como melhor livro do ano no prestigiado concurso internacional Gourmand World Cookbook Awards, na categoria de livro sobre frutos. Está disponível para download no site do projeto, bem como os restantes materiais.
Nesse livro, por exemplo, não só encontramos o contexto histórico e as características que tornam este fruto diferente do dos outros territórios, como exemplos de empreendedorismo que surgiram graças ao tomate e um punhado de receitas de chefs e cozinheiros de casas respeitadas: Miguel Castro e Silva (Mercado da Ribeira, deCastro Gaia e Casario), Alípio Branco (Vila Vitta Parc Resort), Julien Montbabut (Le Monument, 2 Sóis Guia Repsol) ou Graça Gomes, do tradicional Toca da Raposa partilham as suas sopas, tibornas, tártaros e outras iguarias que podemos replicar em casa.
“O tomate desperta paixões”, afirma Celeste Pereira, com um punhado deles nas mãos, acabados de colher. “A febre que sentimos à volta deste produto vê-se pelas pessoas que fazem 300 quilómetros de propósito para virem prová-lo em agosto”.
Apresse-se: até ao final do mês, vários restaurantes da região têm pratos e menus exclusivos dedicados ao tomate. A lista dos estabelecimentos aderentes pode ser encontrada no Instagram da iniciativa, onde aparece o restaurante da Quinta da Pacheca, anfitriã da décima edição do concurso.
“Plantei aqui para estarem bem bonitos no dia do concurso”, nota Pedro, o hortelão da quinta que todos os dias os vai regar às 7h da manhã. A uma semana do grande evento, a maior parte ainda está verde, mas o hortelão de 47 anos, que aprendeu os segredos da terra com o pai, está confiante de que no dia da eleição do melhor Tomate Coração de Boi do Douro os seus vão estar no ponto ideal de maturação: com cor vermelha, pele fina, gomo suculento e carnudo como um bife, sem se esborrachar, e uma ligeira doçura a equilibrar a acidez.
O concurso acontece no dia 29 de agosto, já com as entradas para o público geral esgotadas. No dia seguinte, a 30 de agosto, encerra oficialmente a festa, com o Tomate à Capella, na freguesia de Arroios, em Vila Real. Haverá provas comentadas de tomate, um mercadinho com o dito cujo e outros produtos regionais, porco no espeto, concertinas e muita animação.
A organização assegura o estacionamento gratuito na Quinta do Paço e no Largo de S. João e transfer permanente a partir destes parques para o largo de Arroios.
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