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Américo Pinto, de boina posta para se proteger do frio de janeiro, entra no café Lobito, às portas da Praça da Batalha, e senta-se numa mesa, com o seu chá. Não tarda muito para que cumprimentos e abraços lhe comecem a chover.
“Este senhor aqui é de alto nível”, esbraceja um rapaz que, pouco depois, viríamos a encontrar no balcão da Gazela, a comer um cachorrinho — o tal que é conhecido como “cachorrinho da Batalha” desde 1962 e que Américo Pinto, natural de Armamar e feito portuense pela vida, serve desde os seus 13 anos.
“Saí da escola e fui para ali trabalhar como aprendiz”, diz, apontando com o olhar para a cervejaria original, mesmo em frente ao Teatro Nacional São João. Nessa altura, a Gazela era lugar de tertúlias “até altas horas”, ou não estivesse numa das zonas da cidade de maior vida cultural e boémia: para além do teatro, moravam ali ao lado o Águia d'Ouro (extinto em 1989), o Cinema Batalha, reaberto em 2022, e, não muito longe, as Galerias Lumière (já fechadas), o Teatro Carlos Alberto e o Teatro Sá da Bandeira.
Muito do público que frequentava estas salas acabava por desaguar na Gazela, mas havia quem não se sentisse confortável em pôr lá os pés: “Era um sítio em que as senhoras praticamente não entravam”. Se há hábitos que infelizmente se foram perdendo, como o de toda gente se levantar para dar as boas-vindas ao cliente que chegava, outros mudaram para bem melhor. Hoje, todos, todas e todes que vierem por bem, sentir-se-ão à vontade para entrar na Gazela.
Há uma coisa, porém, que se mantém inalterada desde o início: o cachorrinho. “Havia até um slogan que dizia O cachorro da Gazela é mais antigo que a melhor francesinha”, lembra Américo. Na verdade, a francesinha surgiu em 1952, n’A Regaleira, e só passados dez anos é que nasceu o cachorrinho.
Talvez o cliente que inventou o slogan se referisse a uma outra francesinha. Qual era, não sabemos, mas isso pouco importa para a história, porque aqui, embora também haja uma francesinha (servida em pão bijou, como antigamente), o cachorrinho é quem governa a casa.
O segredo está na qualidade dos produtos usados: o pão, uma baguete fininha tostada e pincelada com manteiga, tem de estar estaladiço para receber as tiras de queijo flamengo e a linguiça e a salsicha fresca da Salsicharia Leandro, do Mercado do Bolhão.
A montagem dos ingredientes é feita atrás do balcão, à vista dos clientes, mas há um elemento especial que é preparado longe de olhares coscuvilheiros: “só há duas pessoas que sabem fazer o molho. Sou eu e o meu genro. Preparamo-lo todos os dias em casa”, revela Américo, sem deixar vazar nenhuma pista sobre a receita. Picante e álcool de boa qualidade terá certamente.
Em alturas boas – que, durante a época alta, são a regra – saem mais de 1000 cachorrinhos por dia, entre a casa-mãe, com os seus 13 lugares ao balcão, e o segundo restaurante, aberto em 2018 a poucos passos de distância e com capacidade para cerca de 70 pessoas.
A maior parte são servidos fatiados (um gesto de samurai sempre belo de se observar), mas há exceções: “No princípio, comia-se o cachorrinho inteiro. Fazíamos um laço com um guardanapo e servíamos assim (Américo exemplifica o gesto enquanto fala). Uma ocasião, um cliente pediu-o fatiado, para comer mais devagarinho, e virou moda”. Os antigos, diz, ainda pedem inteiro ou partido ao meio. Se quiser passar por entendido, já sabe qual a senha a usar.
Até ao ano da pandemia, Américo Pinto ainda passava os dias na casa original, a trabalhar atrás do balcão. Fazia de tudo naqueles poucos metros quadrados de copa, como todos os outros: lavava a louça, descascava e fritava as batatas, preparava os cachorrinhos e ainda tinha tempo para cumprimentar os clientes com um bacalhau. Depois da covid, retirou-se do balcão, mas nem por isso se afastou da Gazela, da qual é proprietário desde 1982.
A mulher diz-lhe que é tempo de acalmar, mas Américo, com os seus 68 anos, não concorda. “Isto faz-me bem. Eu não vou enriquecer nem mais nem menos. O que estou aqui a fazer não é por mim, é pela marca”, confessa. E a marca, que em 2019 foi distinguida nos The World Restaurant Awards, em Paris, vai de vento em popa. “A Gazela sempre funcionou bem, mas depois de ele vir cá, foi um boom!”
O “ele” da história é Anthony Bourdain, que em 2017 passou pelo Porto e incluiu a Gazela no seu programa Parts Unknown (temporada 9, episódio A Feast in Porto). “Na altura, tudo foi preparado com quase total secretismo. No dia da gravação, vi chegar dois a três carros Mercedes, com uma enorme quantidade de câmaras…parecia uma autêntica romaria”, lembra Américo Pinto. A partir desse dia, os clientes começaram a aparecer aos magotes, de todas as partes do mundo, e ainda hoje “fazem disto uma procissão”, ressalva.
De tal modo os cachorrinhos da Batalha se tornaram famosos, que a concorrência não tardou a brotar de todos os poros da cidade. Atualmente, há várias casas a vender cachorrinhos e, aparentemente, a Gazela vive em paz com isso.
“O vizinho aqui do lado faz cachorros e eu dou-me bem com ele”. O que Américo não tolera é que usem o nome da cervejaria original: “Não digam que é da Gazela, isso não podem pôr. Tem de haver respeito”. A única exceção é no Café Costa, em Valongo. O motivo? “Comprei o café e levei para lá os cachorrinhos”. Tudo em família, portanto.
O futuro é sempre uma incógnita. Basta olhar à volta e ver quantos dos prédios e palacetes daquela zona foram transformados em hotéis. Como se não bastasse, a matéria-prima não pára de aumentar. “Só no ano passado, o preço da carne aumentou seis vezes”. Não é de estranhar que de 2017 para agora o preço do cachorrinho tenha subido de €3,20 para €4,80 (e há 15 anos custava €2,80). “Eu vou aguentando”
Em 2018, a cervejaria recebeu a insígnia Porto de Tradição, uma classificação municipal que visa salvaguardar os estabelecimentos históricos da cidade. Isso dá um certo descanso a Américo e aos 50 funcionários que tem sob a sua alçada: “Se isto fechasse, quantas pessoas seriam despedidas? Quantas famílias seriam afetadas? Alguém dá valor a isso?”. Queremos crer que sim. Em breve, é possível que abram novos espaços. Enquanto isso, fica a promessa no ar: “A Gazela não vai acabar”.
Cervejaria Gazela. Tv. do Cimo de Vila, 4, Porto | Rua de Entreparedes, 8, Porto. 221 124 981. 12h-22h30
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