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Luiz da Rocha: uma cooperativa alentejana que é uma delícia

Pastelaria em Beja

Luiz da Rocha: uma cooperativa alentejana que é uma delícia

Atualizada: 07/04/2026

Texto: Diego Armés

Fotografia: Marisa Cardoso

Emblemático ponto de encontro da cidade, afamado pelos Porquinhos de Doce, a Confeitaria Luiz da Rocha é também, desde 2025, um Solete Guia Repsol. Parámos para tomar café e conhecer a sua peculiar história.

Este não é um cheiro qualquer: entramos pela vetusta porta giratória e sentimos aquele aroma misto de café e bolos frescos, juntamente com o do óleo de cedro entranhado nas mesas e cadeiras. Tudo neste Solete Guia Repsol tem história, até a mobília, os tampos de mármore, os mosaicos do chão e os azulejos das paredes — alguns deles obras de arte de que a autoria custa a ler.

Perguntamos a António Leandro quem são os autores. Diz que não sabe, que são peças antigas - que do painel de azulejos talvez consiga descobrir o autor, mas que ao baixo-relevo perdeu o rasto há muito. A obra, de traços modernistas, continua intacta e bem preservada. Num outro painel, no topo da parede do fundo da sala principal, lê-se “Confeitaria Bejense de Luiz da Rocha - Fundada em 1893”.

António Leandro foi um dos fundadores desta cooperativa prestes a fazer 50 anos
António Leandro foi um dos fundadores desta cooperativa prestes a fazer 50 anos

Conhecida pela qualidade da doçaria conventual e da pastelaria tradicional, a Luiz da Rocha tornou-se, ao longo dos seus mais de 130 anos, um lugar emblemático da cidade da Beja. Os traços quase intocados do espaço - “vamos fazendo melhoramentos, vamos retocando, consertando, tentamos não alterar o essencial”, explicará António Leandro no decorrer da conversa - fazem da confeitaria um café à antiga, onde as pessoas vão para se encontrar, para sentar e conversar. Um café não é só um café: aqui, é pretexto para uma conversa. É de sítios assim que se faz a identidade das terras.

António Leandro, com quem pudemos conversar para saber um pouco mais sobre a história da Luiz da Rocha, fala sempre no plural: fizemos, construímos, vamos fazer, renovámos, trabalhamos. A explicação para este plural transversal a todos os tempos e verbos é fácil: António não é o proprietário do lendário estabelecimento, é antes o presidente da cooperativa Luiz da Rocha. A cooperativa “faz 50 anos em julho deste ano”, esclarece, foi formada em 1976, “no rescaldo da Revolução de Abril”. O presidente há-de explicar que, naqueles tempos conturbados, o negócio perdeu força. Mas, primeiro, a fundação da casa.

A pastelaria de fabrico próprio é afamada, com destaque para as trouxas de ovos
A pastelaria de fabrico próprio é afamada, com destaque para as trouxas de ovos

Dos primórdios até à cooperativa

Antes de se transformar na cooperativa que hoje existe, a confeitaria mais célebre de Beja já tinha uma longa história, com 83 anos. Foi fundada por Luiz da Rocha - “que nem era alentejano, era da região de Aveiro, de Vagos” -, um rapaz que veio para Beja com 14 anos e que logo aprendeu a fazer doces. Com o tempo, tornou-se independente e, em 1893, abriu negócio em nome próprio.

Luiz da Rocha faleceu em 1940 e a confeitaria ficou para os dois filhos, que, “ao que parece, não tinham a melhor relação e as coisas não correram lá muito bem”. A situação não durou muito e venderam a casa a uma sociedade. Eram quatro sócios. Essa sociedade foi-se modificando, as quotas foram sendo vendidas, os proprietários foram mudando. Só o número de sócios se mantinha igual, eram sempre quatro. E foram os últimos quatro que venderam a sociedade à cooperativa, que ainda hoje existe e de que António Leandro foi também fundador, pois já ali trabalhava na época.

Com mais de 100 anos, a Luiz da Rocha faz parte dos encontros de tarde da cidade
Com mais de 100 anos, a Luiz da Rocha faz parte dos encontros de tarde da cidade

“A Sociedade desfez-se e foi transformada em cooperativa depois da Revolução de Abril - mas não se tratou de uma ocupação selvagem, nem coisa nenhuma desse género”, ressalva. Foi uma época de grande convulsão e grandes reivindicações, o negócio caiu a pique, também por causa da instabilidade política. A sociedade que então detinha a casa não resistiu à crise, “começaram os salários em atraso e as dívidas por pagar”. Com medo de que a situação se agravasse, os sócios falaram com os funcionários e estes propuseram-se a ficar com a empresa e a transformá-la em cooperativa - uma cooperativa em que todos os empregados seriam sócios.

“Fizemos uma compra fictícia, por valores simbólicos, só para dar legalidade às coisas. E pelo menos um dos membros da anterior sociedade quis continuar como participante da cooperativa.” Acabou por não ficar, uma vez que seria obrigado a ser sócio-cooperador, ou seja, a trabalhar efetivamente na Luiz da Rocha, não podendo limitar-se a ser apenas investidor. “Mas continuámos muito amigos”, observa o presidente, “essas pessoas continuaram a frequentar a casa”.

A confeitaria tem também um restaurante com pratos tradicionais alentejanos, como a açorda
A confeitaria tem também um restaurante com pratos tradicionais alentejanos, como a açorda

Eram 38 os funcionários e sócios no momento da fundação da cooperativa. “Hoje são cerca de 40”, detalha António Leandro, e explica que o número vai oscilando, mas que anda sempre por volta desse: 40. Houve alturas em que os funcionários, após o contrato experimental de seis meses, caso se tornassem efetivos, eram automaticamente transformados em sócios. “Depois, tivemos de rever. Percebemos que havia pessoas que, findo o período inicial e tornados sócios, ‘se encostavam’, e não podíamos correr esse risco.” Hoje em dia, a filtragem para alguém se tornar sócio-cooperador é mais apertada. E a verdade é que a sociedade funciona.

A fachada com néons é um ícone do centro de Beja
A fachada com néons é um ícone do centro de Beja

Porquinhos e outros doces

Os porquinhos são um doce conventual antigo. Têm este formato porque o porco preto é o animal mais icónico da região. Não foi uma invenção de Luiz da Rocha: “foi mesmo criado nos conventos”. Mas foi ele, Luiz da Rocha, quem os tornou populares e lhes deu esta forma mais ou menos fixa, “embora haja nuances, consoante os mestres-pasteleiros”.

Hoje em dia, podemos encontrar os Porquinhos de Doce e outras delícias da doçaria conventual da confeitaria Luiz da Rocha noutros sítios que não as vitrines deste lendário café. “Fornecemos muitas casas em Lisboa, por exemplo”, afiança António Leandro. “Hoje temos uma carteira de clientes em Lisboa como nunca tivemos”, afirma, e explica que tal se deve, em parte, à saída de cena das pastelarias das Caldas da Rainha, “de onde saíam muitas e boas trouxas de ovos”.

Os porquinhos de doce ganharam fama na Luiz da Rocha
Os porquinhos de doce ganharam fama na Luiz da Rocha

A Luiz da Rocha soube ocupar o lugar deixado vago. “Depois de experimentarem as nossas trouxas, percebem que estas são bem melhores.” Leandro aproveita para contar uma pequena curiosidade. “O padre [Vítor] Feytor Pinto [1932-2021] era nosso cliente e levava sempre trouxas de ovos de cada vez que aqui vinha. Ora, o padre dá uma entrevista, já no final da vida, a uma revista e o jornalista pergunta-lhe, ‘qual é o seu último desejo quando partir?’. E ele responde ‘olhe, o meu desejo é, quando chegar ao Céu, no jantar dos Deuses, ter lá umas trouxas de Beja, do Luiz da Rocha’.” Há lá melhor publicidade que o veredito de um padre sobre doces conventuais.

Luiz da Rocha. R. Cap. João Francisco de Sousa 63, Beja. Todos os dias, das 8h às 23h. 284 323 179