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O Clann é uma família de quatro elementos: Pedro Larcher de Resende e Cláudio Palma, são, respetivamente, chef e sub-chef; Carolina d’Aragão é a responsável de bar e João Palma, o chef de sala. Cada qual tem o seu peso e visão no projeto e juntos fazem com que este restaurante, o único fine dining no centro de Grândola, respire harmonia.
São eles que personificam o significado de “Clann”, palavra gaélica – em homenagem à companheira irlandesa de Pedro – que se refere a “família” e “descendência”.
João e Cláudio, irmãos e grandolenses de gema, trazem consigo a memória do lugar. “Antes, isto era o Café Arcadas, que servia uns ótimos passarinhos fritos e caracóis”, lembra João. Hoje, como Clann, já não há petiscos a juntar os habituais ao balcão, mas nem por isso os locais viraram costas ao restaurante.
Bem pelo contrário: desde setembro, mês de abertura, praticamente 70% dos clientes que ali chegaram foram pessoas de Grândola, garante João. Isso deixa a equipa motivada, ainda que sejam inúmeros os desafios de abrir um restaurante de autor numa vila pequena.
“É difícil para nós chegar ao produto e vice-versa. Existe muita intermitência no fornecimento”, nota Pedro Larcher de Resende, que antes do Clann teve uma experiência curta no Costa Terra, de Melides. O ambiente de “clube privado” não agradou completamente ao chef de 34 anos, que conta no currículo com passagens pelo famoso The Fat Duck, de Londres, pelo Eleven, e pelo grupo de Henrique Sá Pessoa. Saint-Tropez, Reykjavik e Manchester, cidade que lhe ficou no coração e à qual volta com frequência, também fazem parte do seu percurso, seja através de consultorias ou de experiências em unidades de luxo.
O luxo que agora almeja é o de ver crescer o seu Clann com saúde, qual sobreiro num montado, e de trabalhar com a comunidade que o rodeia. Batendo à porta dos vizinhos, Pedro foi buscar o peixe à Peixaria Gagarine, a carne ao Talho e Salsicharia Carlos Maria Romão e o pão à Panificadora Os Três Albinos. “Gostávamos de mudar a carta de três em três meses, para ser o mais sazonal possível”, partilha, mas para isso há que consolidar os fornecimentos, dentro e fora da vizinhança, objetivo que requer tempo e investimento.
Ainda que esteja a passar por alguns ajustes, normais a qualquer negócio em início de vida, o Clann já tem claros os seus traços. A alma, para além do trato próximo e de detalhes que revelam cuidado e atenção – desde a decoração à playlist com personalidade – é a cozinha de autor, com base no receituário português, associada às tradições gastronómicas dos países das antigas colónias. “Tenho interesse em ir buscar essas influências, mas sem ser pretensioso”, explica Pedro, ciente de que um restaurante desta matriz deve refletir a visão do chef, mas também a do local onde está inserido, de forma agradar os clientes. No final das contas, são eles quem mais ordena.
Como tal, na carta não há como contornar alguns senadores da cozinha portuguesa, como é o caso do bacalhau. É servido com broa, espuma de coentros, uma maionese feita a partir do próprio peixe e caviar de limão, para lhe dar frescura. Na base, apresenta um xerém de berbigão, apontamento algarvio que vai buscar as raízes de Cláudio Palma, cujos avós, pescadores, eram naturais de Quarteira.
Da mãe Rosinda, Cláudio pede de empréstimo a marmelada, receita aqui reproduzida para o couvert, “com muito menos açúcar do que a original”, garante o irmão João. Acompanha os pãezinhos de queijo da Ilha, piscar de olho ao Brasil e aos Açores, e vem ao lado de uma manteiga defumada de alecrim.
Outro ilustre a quem o Clann dá palco é o à Brás. Ao invés do bacalhau, é feito com lagostim: tem dois lagostins braseados no topo, ao lado de um paté de azeitona, mais lagostim no meio da batata frita palha e do ovo cremoso, tiras de feijão verde vivaças e, na base, um creme de caju, a puxar pelos sabores de África.
Destaque ainda para o pani puri com ceviche de camarão, um encontro da Índia com o Peru e com o Japão, pontuado por uma maionese de caril que juraríamos ser prima de uma boa mostarda portuguesa; para a textura de couve flor, desmultiplicada em puré tostado, pickles e num corte de bife cozinhado em vinho branco, paprika, alho, sal e louro (o ABC da marinada); e para a tartelete de cogumelos com caviar de algas, alho assado e cebolinho picado.
Na carta de vinhos, a seleção é curta e precisa, ficando a promessa de João de que em fevereiro, depois das férias, o restaurante abrirá com mais referências do Alentejo e da península de Setúbal, bem ali ao lado. Atenção também aos cocktails de assinatura, departamento de Carolina, que mostra especial sensibilidade a brincar com os clássicos.
Mula Alentejana parte do Moscow Mule, mas, em vez da vodka, utiliza o medronho, também presente no Espírito da Serra; o Mojito Twist é preparado com poejo e, como digestivo, é sugerida uma interpretação do Expresso Martini, com vodka, pumpkin and spice sirup, suspiro e canela. Casa lindamente com o mil-folhas de caramelo salgado e marmelada (sim, a mesma da mãe Rosinda) ou com o bolo de tâmaras, inspirado no sticky toffee pudding inglês de que Pedro não prescinde nos seus regressos a Manchester.
A vida, para ele – recentemente pai de gémeos – faz-se entre cá e lá. Entre o sol de Grândola e a chuva de Manchester, existem muitas nuances e algumas delas estão no Clann.
Clann. Rua São João de Deus, 20, Grândola. 938 302 501. 19h-21h30 (6a. e sáb. abre ao almoço; fecha dom. e 2a.). Preço médio: €40
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