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À mesa destes Soletes come-se a sopa toda

Soletes e boas sopas

À mesa destes Soletes come-se a sopa toda

Atualizada: 27/02/2026

Texto: João da Ponte

Fotografia: Marisa Cardoso

Quando um desconhecido lhe disser que este país é pequeno, mostre-lhe um roteiro de sopas, uma prova da vastidão nacional. Sugerimos sete boas sopas de norte a sul.

Era uma vez um garoto que não gostava de sopa. Porque estava quente. Porque era muita. Porque fazia bem, mas não sabia na mesma medida. Porque não era divertida. Porque amanhã havia mais e parecia nunca acabar. E, essencialmente, porque era uma obrigação. Esse garoto cresceu, descobriu umas verdades, esqueceu umas mentiras e percebeu que, no meio das obrigações, pode haver muito prazer.

Hoje, a sopa é uma amizade romanceada, é um amor platónico consumado, é tudo e o seu contrário, porque pode ser uma coisa hoje e amanhã outra completamente diferente — e isso é bom, como a sopa.

Note-se: a sopa, ainda que seja sempre sopa em qualquer lado, nunca se repete em cozinhas diferentes, daí vem também boa parte da magia do prato. E as cozinhas portuguesas têm mestria na hora de servir sopa, de a reproduzir, reimaginar, recuperar, de a tornar essencial na refeição (ou fora dela).

A açorda de bacalhau não pode faltar no currículo português das sopas
A açorda de bacalhau não pode faltar no currículo português das sopas

Ao mesmo tempo, os Soletes do Guia Repsol são um espelho polido da gastronomia quotidiana nacional, com todas as suas influências, referências e transformações. Juntámos tudo num caldinho e fomos à descoberta

Um Caldo Verde a galope num cachorrinho na Gazela

O menos avisado dos curiosos entra na Cervejaria Gazela e diz que só quer “ver”, diz que “já ouviu falar” e talvez faça “umas fotos”. Senta-se ao balcão, vê os cachorrinhos, sucumbe à gulodice e já está, já faz parte da história. Diz que não quer mais nada, mas há um empregado, tão matreiro quanto bom vendedor, que o leva a beber um fino, talvez passem a dois e no fim precisa de algo mais, precisa de arrumar a casa.

Cachorrinho e caldo verde: consegue avançar melhor menu? (foto Luís Ferraz)
Cachorrinho e caldo verde: consegue avançar melhor menu? (foto Luís Ferraz)

Dizem-lhe que nada é melhor do que um caldo verde. Corrigimos: nada é melhor do que “aquele” caldo verde, metáfora perfeita para o que ali se passa: a ruralidade no meio do granito urbano, a cidade que é eterno campo, no tom, no trato e no paladar. Abençoado caldo.

Cervejaria Gazela: Travessa do Cimo de Vila 4, 4000-434 Porto. Telefone: 221 124 981. De segunda a sábado, das 12h às 22h30.

Na Bogotá, a canja pode vir antes ou depois

Já toda a gente ouviu falar na Bogotá, quem nunca lá foi jura-se surpreendido quando alguém lhe diz que “é na Amadora”. Quem não conhece, pergunta-se: como assim, ir até à Amadora para comer seja o que for. Qual bifana? Qual prego? Como assim, fecha tarde, está disponível, é comunitário, é coisa de lenda urbana, é uma espécie de clubismo, mas com pão, muito molho, bom alho?

A lista de pecados é vasta, mas há sempre a canja perfumada de hortelã para dar saúde à refeição
A lista de pecados é vasta, mas há sempre a canja perfumada de hortelã para dar saúde à refeição

Ficam confusos, mas, mais tarde, seja no início ou no final, sem regras e sem oposições, passam a fazer aquele sinal de quem precisa da melhor das companhias para uma refeição entre fatias de trigo: uma canja. Quente, com alma, com vontade, com gordura, com história e a deixar memória. Ide. Assim que possam.

Cervejaria Bogotá: Avenida Santos Mattos 3, 2700-747 Amadora. Telefone: 214 930 342. De segunda a sábado, das 10h às 00h

E se no Zé do Pernil o rei fosse ao sopa de repolho?

Um dos aspetos mais extraordinários da existência dos restaurantes é a surpresa. Claro, em muitos casos sabemos ao que vamos. Aliás, vamos lá precisamente pelo que já conhecemos. Mas antes desse momentos, o desconhecido é sedutor. É como se fôssemos sujeitos a uma tentação, mas como não é pecado só temos de seguir em frente.

O Zé do Pernil entra nesta categoria: queremos experimentar, não sabemos ao que vamos mas sabemos que vamos por ali. E, quando além da carne que se desfia como mel, nos é apresentada uma rica, densa, perfumada e musculada sopa de repolho, o que podemos nós dizer a não ser “tudo isto valeu a pena e voltará a valer na próxima vez”.

Zé do Pernil: Avenida Alberto Sampaio, 3510-027 Viseu. Telefone: 232 397 941. Todos os dias, das 12h às 22h30.

Na Taberna do Cesário, o sábado é dia de sopa de cação

A Taberna do Cesário fecha à segunda-feira. Não podia ser de outra forma. O domingo costuma ser a jornada habitual do ensopado de borrego e do cozido de grão. É trabalho pesado que merece descanso no dia seguinte.

Ao sábado, a sopa de cação é estrela na Taberna do Cesário
Ao sábado, a sopa de cação é estrela na Taberna do Cesário

Ao dito domingo, esta Taberna de letra maiúscula só abre ao almoço, talvez porque no dia anterior é a vez do cação. Este primo do tubarão é aqui a estrela das melhores sopas do Alentejo, plenas de corpo e alma. Se podia ir de visita ao Cesário em qualquer outro dia? Claro que podia. Mas porque havia de não passar por lá ao sábado? Pense nisso.

Taberna do Cesário: Rua Venâncio Rosa Gabriel 5, 7800-654 Beja. Telefone: 969 103 680. De terça a sábado, das 07h30 às 00h. Ao sábado, das 07h30 às 14h45.

O Luiz serve açorda, nós agradecemos

A açorda de que aqui se fala é a alentejana, e não aquela que tantas vezes é servida assim que se deixam os distritos do sul do país. É uma sopa, ponto. Uma sopa que não é cozinhada no tacho, é antes uma sopa que é montada no prato, com o sal, as ervas e o alho, a água fervida da cozedura do bacalhau ou outro peixe, por exemplo, o ovo, o pão alentejano, o azeite, a glória, a beleza, o espanto de cada vez que se prova mais uma colherada desta maravilha (de facto classificada como Maravilha Gastronómica, não é invenção nossa, ainda que pareça). E se tiver dúvidas porque o Luiz da Rocha entra na categoria “café/pastelaria”, nada tema. Avance.

ngredientes simples, prazer máximo: assim é a açorda do Luiz da Rocha
Ingredientes simples, prazer máximo: assim é a açorda do Luiz da Rocha

Luiz da Rocha: Rua Capitão João Francisco de Sousa 63, 7800-475 Beja. Telefone: 284 323 179. Todos os dias, das 08h às 23h.

No Túlio, em honra à sopa de peixe de rio

Há qualquer coisa de especial num estabelecimento cuja firma é um nome próprio. Mesmo quem nunca lá entrou vai querer conhecer a pessoa em causa. Quem é o Túlio? De onde vem o Túlio? Qual é a história do Túlio? Que comida é esta que se come em casa do Túlio? Falamos de Monte Arneiro, perto de Nisa, distrito de Portalegre, de vontades viradas para o Tejo, a explorar o rio nas suas melhores formas.

É desta atitude que surge a sopa de peixe, clássica, lendária, que se espalhou por tudo o que é latitude. Prestam vénias ao barbo. Fazem a adoração do sável. E nós, a prestar vassalagem com o Túlio. De tal forma entregues ao encanto da iguaria que nos esquecemos da pergunta original: afinal, quem é o Túlio? Vá à descoberta, merece esclarecer todas as dúvidas à mesa.

O Túlio: Rua Francisco Diogo Pinto 1, Monte do Arneiro, 6050-452 Nisa. Telefone: 245 469 129. Todos os dias, das 12h às 16h e das 19h às 22h.

O México num caldo guisado no Potzália

A boa comida tem destas coisas: nem sempre está no sítio mais óbvio. Ao mesmo tempo, as aparências iludem. Isto para avisar os menos preparados e que podem duvidar que num centro comercial meio escondido é possível encontrar um pozole de referência.

Em Lisboa há uma só rainha do pozole: Sandra Ruiz do Potzália
Em Lisboa há uma só rainha do pozole: Sandra Ruiz do Potzália

Recordemos o que importa: pozole é um guisado em forma de sopa, que tem o milho como base e que inclui carne, vegetais, queijo e malaguetas. É quente como a sopa deve ser — pelo menos esta — e é quente como a filosofia do Potzália exige, seguindo a tradição mexicana e servindo como um dos melhores exemplos desta gastronomia em Lisboa. Agradeçamos a Sandra Ruiz, a mexicana que abriu esta cantinho de calor latino-americano.

Potzalia: Centro Comercial Entrecampos, Avenida Álvaro Pais 13, 1600-316 Lisboa. Telefone: 916 962 509. De terça a sexta, das 12h às 15h e das 19h às 22h. Sábado, das 12h às 16h e das 19h às 23h. Fecha ao domingo e à segunda.