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A visão é formidável: tonéis de cinco mil e de dez mil litros alinhados, à direita e à esquerda, num corredor longo, amplo e sombrio. A sensação é a de entrar num templo desenterrado por arqueólogos e estar diante de um imenso tesouro. Só que, neste caso, deparamo-nos com um tesouro do futuro. Estes tonéis que vemos guardam separadamente as castas que compõem o Pêra Manca - Trincadeira e Aragonês -, que ali repousam durante 18 meses após a respetiva colheita.
Tecnicamente, o vinho que se encontra dentro dos gigantes depósitos de madeira de carvalho francês ainda não é Pêra Manca. Existe a possibilidade de não vir a sê-lo, caso não se comprove a expectativa maior: a de ser uma grande colheita. Quando tal sucede, cada tonel dessa colheita é distribuído por lotes de outros vinhos, enriquecendo-os, dando-lhes mais nobreza.
Porém, quando a expectativa ideal se confirma, Trincadeira e Aragonês constituírão o lote do ano numa proporção muito próxima dos 50% para cada casta. E então, sim: teremos nova edição de Pêra Manca. Será engarrafado e guardado na escuridão húmida e fria da cave, debaixo dos nossos pés, onde permanecerá durante 48 meses.
Estamos na adega histórica da Cartuxa, na Quinta de Valbom, nos arredores imediatos de Évora. Este é o sítio ideal para uma introdução ao universo Cartuxa, que possui alguns dos ex-líbris culturais, vínicos e gastronómicos de Évora. Propriedade da Fundação Eugénio de Almeida, a história da Cartuxa é vasta. O Pêra Manca é o vinho mais emblemático deste universo, e até do Alentejo e do Sul de Portugal.
Quase se pode falar de omnipresença: em Évora, a Cartuxa está por toda a parte. Além da Quinta de Valbom, existem a Adega Cartuxa do Monte de Pinheiros, o Lagar da Cartuxa, o Páteo de São Miguel e a Enoteca. Cada espaço tem o seu enquadramento e a sua função dentro da Fundação Eugénio de Almeida, que é, desde a segunda metade do séc. XX, a entidade que detém e gere a Cartuxa.
É na Quinta de Valbom que se encontra a adega histórica. Ali se pode fazer a visita guiada, absorvendo a história da Cartuxa, passando por diversos espaços, assistindo ao vídeo explicativo num ambiente imersivo, em 3D, ou ainda fazer as provas de vinhos e de azeite. Antes de chegarmos ao arquivo, uma das zonas mais nobres do espaço, passamos por diversos espaços, tais como a nova adega das talhas, onde umas poucas dezenas de recipientes de barro de grande dimensões albergam o vinho, à maneira ancestral deixada pelos romanos, ou os corredores dos depósitos de cimento, que hoje têm função pouco mais que ornamental, mas que no passado serviam para armazenar diversos vinhos, nomeadamente aqueles que faziam da Adega destino de romaria.
Falamos dos vinhos a granel que, uma vez por ano, eram vendidos ao povo que, carregado de garrafões, viajava até às franjas de Évora para se abastecer com vinho da Cartuxa a preços reduzidos. A tradição, tal como ela era, perdeu-se e hoje o espírito da festa e da romaria foi substituído pelo agendamento online. Mas ainda continua a haver quem venha de longe, carregado com garrafões, para levar daqui vinho como quem vai à fonte abastecer-se de água de nascente.
O Páteo de São Miguel, no Centro Histórico de Évora, é a ponte deste universo com a cidade. A antiga casa da família Eugénio de Almeida é agora uma extensão complementar à Adega Histórica, com um conceito que assenta no vinho e na cultura, fundindo os dois. Também aqui podem ser realizadas provas de vinhos, mas num ambiente mais familiar e com a cidade como pano de fundo.
O Lagar da Cartuxa e a Adega de Monte de Pinheiros são, como os nomes sugerem, espaços funcionais e de produção. É possível visitá-los, até para aferir da dimensão e da sofisticação de ambos, mas o propósito, tanto do lagar como da adega, é a produção daquilo a que foram destinados desde início: fazer azeite e fazer vinho, respetivamente. Existe ainda Enoteca, cuja experiência merece uma nota separada.
Além dos espaços que compõem este universo, a Cartuxa promove, na Quinta de Valbom, junto à Adega Histórica, o Festival EA Live, que junta todos os anos, em concertos ao vivo num ambiente recatado e num cenário de especial beleza, alguns dos principais nomes da música popular portuguesa.
Uma nota importante: nas provas de vinhos, não vamos provar o Pêra Manca, o que se lamenta, claro. Porém, em compensação, temos à disposição alguns grandes vinhos que, de outra forma, passariam discretos na prova. Às vezes, os rótulos deturpam a percepção dos vinhos. Sem o rótulo maior em prova, soltam-se os aromas e os sabores de todos os outros, prontos para serem degustados em todo o seu esplendor.
Nesta prova, destacam-se, sem grande surpresa, o Cartuxa Reserva e, especialmente, o Scala Coeli, um topo de gama que não é habitual ver-se por cá, em Portugal, mas com muita procura em mercados estrangeiros - o que acontece amiúde com as gamas altas da Cartuxa, diga-se. As edições comemorativas dos 60 anos da marca também deixam boa impressão.
Menos marcantes serão os vinhos de talha, em especial para quem conhece com alguma profundidade essa vertente do mundo do vinho. No cardápio da prova, consta ainda o Tapada do Chaves Reserva Tinto, que já não surpreende ninguém porque é sempre um vinho que dá gosto.
Em paralelo com os vinhos e acompanhando os petiscos, o visitante pode provar os azeites EA e Cartuxa. Com perfis - e preços - substancialmente diferentes, são ambos azeite de excelente qualidade, que ficam muito bem numa mesa repleta de petiscos, do paio de lombo, aos queijos, das azeitonas ao presunto.
Bem no centro da cidade, junto à Catedral e a não mais de 200 passos do Templo de Diana, podemos encontrar a Enoteca Cartuxa. Aqui, temos à disposição todo o portefólio vínico da Cartuxa para degustação a copo - exceto, uma vez mais, os vinhos Pêra Manca, tanto o branco como o tinto. Mas mesmo esses podem ser bebidos, só não a copo, é preciso pedir garrafa.
Do menu, que aponta claramente na direção da comida para partilhar, constam algumas especialidades que merecem atenção. Lascas de bacalhau com batata palha e ovo - uma espécie de “à Brás”, mas mais suave -, o tártaro de novilho ou os ovos com espargos, entre muitas outras sugestões de elevado gabarito, compõem uma carta que é, ao mesmo tempo, sofisticada e profundamente alentejana. É uma sugestão segura para o final de uma visita a Évora.
Enoturismo. Quinta de Valbom, Estrada da Soeira, Évora. Todos os dias, das 10h às 19h. 266 748 383
Enoteca Cartuxa. R. de Vasco da Gama nº15, Évora. Todos os dias, das 12h30 às 22h. 266 748 348
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