Desculpe, não há resultados para a sua pesquisa. Tente novamente!
Adicionar evento ao calendário
Março é sinónimo de Sável em Vila Franca de Xira e o território não se faz de rogado. Para homenagear uma tradição gastronómica assente na comunidade de pescadores avieiros, que se fixou nas margens do Tejo entre o final do século XIX e início do século XX, o concelho anda a desafiar há mais de 30 anos os restaurantes da região a trazerem este peixe migratório para a mesa. “A ideia passa por confecionar o sável da forma tradicional”, refere Maria João Carraça, chefe da Divisão do Turismo e Dinamização do Comércio da Câmara Municipal.
Assim, durante o mês de março – quando as aves da primavera começam a aparecer na Lezíria, podendo ser observadas no EVOA (Espaço de Visitação e Observação de Aves) – quem visitar Vila Franca de Xira pode escolher um dos 31 restaurantes aderentes para comer sável comme il faut: frito em postas e acompanhado por açorda de ovas.
“Procuramos não inventar muito”, diz desta feita António Vardasco, gerente do Morgado Taberna 2017, em Alverca, enquanto segura aquilo a que chama “uma fêmea exemplar”: um peixe com cerca de dois quilos e meio, repleto de ovas, e com o tamanho certo para dar postas abertas e bonitas. “As fêmeas são mais saborosas do que os machos, porque têm uma barriga mais gorda, para proteger as ovas”.
Escolher um bom peixe é, portanto, um dos segredos para confecionar bem este prato. Os outros passam por saber prepará-lo e no Morgado, casa onde a proteína do mar e da terra é protagonista, bem como todo o tipo de “conchinhas” – das ostras da Ria Formosa às zamburiñas galegas –, o sável fica a marinar de um dia para o outro em “muito limão”, para eliminar as espinhas.
Depois, é filetá-lo muito fininho, como se de rosbife se tratasse, envolve-lo em farinha de milho, fritá-lo e absorver o excesso de óleo, para não pesar na barriga do comensal. “Há pessoas que vêm de Santarém, Palmela ou Setúbal todos os anos, para comer o sável”, diz António que, num bom março, vende cerca de 500 doses de sável (€24).
A acompanhar o peixe, é servida a açorda de ovas, que também requer precisão e técnica. Na base está um caldo feito com as cabeças e rabos do peixe, que é acrescentado ao refugado de alho, coentros e outros “amanhos do sável”, incluindo as ovas, pois claro. Por fim e não menos importante, há que escolher o pão certo.
Para António Vardasca, não há pão melhor do que o saloio de Rio Maior: não é excessivamente avinagrado, como o alentejano, e tem o dom de se desfazer no caldo sem nunca chegar ao ponto de parecer uma argamassa. O aspeto denso é logo desmentido na primeira garfada, onde sobressai a leveza do caldo e a frescura dos coentros. Perante tamanha simplicidade e deleite à mesa, de facto, para quê inventar?
Terminada a refeição, é bem provável que tenha a barriga como a de um abade – principalmente se se atirar ao pão de ló do Morgado, coisa bela que não poupa nos ovos e que ainda por cima tem a desfaçatez de chegar à mesa com uma bola de gelado de baunilha.
Mas atenção, que este não é o único restaurante a ter debaixo de mira: no Voltar ao Cais, em Alhandra, as enguias são, a par do sável, prato forte da época e representativo das tradições avieiras; na Taberna dos Pianos, em Vialonga, boa sorte a lidar com as farófias, encharcada, sericaia ou qualquer outra gulodice alentejana que lhe saltar aos olhos; e no Labruja, da Póvoa de Santa Iria, restaurante estreante do Mês do Sável, há um aconchego de Ponte de Lima que se estende da mesa para a simpatia dos donos, com raízes minhotas.
Enfim, não faltam opções para provar o Sável e não faltam programas bons para digerir o repasto, seja uma simples caminhada pelo Caminho Pedonal Ribeirinho, um passeio a cavalo no Centro Hípico Quinta da Boa Vista, uma visita à Quinta Municipal Subserra, onde é produzido o vinho Encostas de Xira, parceiro da campanha de março, ou uma ida ao Celeiro da Patriarcal para visitar a 27ª edição da Cartoon Xira.
“Isto é uma carolice minha e da Câmara Municipal, que acho ser bem desejada pelo público. É um evento forte que tem sido bom para a terra”, refere António Antunes, nome maior da caricatura editorial portuguesa, cujo trabalho já foi publicado e distinguido em vários meios internacionais, e mentor deste evento que é um dos ex-libris culturais de Vila Franca de Xira.
Para esta 27ª edição do Cartoon Xira, foram selecionadas 216 caricaturas, metade das quais assinadas por autores portugueses: António Antunes, André Carrilho, António Maia, Cristina Sampaio, Henrique Monteiro, João Fazenda, Nuno Saraiva, Pedro Ribeiro Ferreira, Pedro Silva, Rodrigo de Matos e Vasco Gargalo são os nomes que ilustram os principais acontecimentos de 2025.
O ano foi fortemente marcado pelo início da segunda presidência de Donald Trump. “Não vale a pena darmos a volta”, diz António sobre uma personalidade cuja obsessão com o Nobel da Paz retratada em vários cartoons sumariza na perfeição o carácter “doentio e paranóico” do atual Presidente dos Estados Unidos da América.
A Guerra em Gaza e o genocídio do povo palestiniano pelo Estado de Israel, a morte do Papa Francisco, os retrocessos nas leis climáticas, a ascensão do Chega em Portugal ou até o processo movido pelos Anjos contra Joana Marques são outros dos temas em destaque nesta exposição, que se atreve a fazer uma analogia do estado do mundo com a famosa banana-obra-de-arte do artista italiano Maurizio Cattelan: um mundo frágil, desalmado, exposto ao saque, perecível e à beira do apodrecimento.
Tudo retratado com muito humor, porque o humor está para o cartoon como o limão para o sável: amolece as espinhas da realidade para que as saibamos mastigar melhor, sem nunca lhes ignorarmos a presença.
Para além dos Cartoons do Ano, a exposição traz ao Celeiro da Patriarcal uma retrospetiva da obra da catalã Maria Picassó, através de 106 ilustrações. “Admiro muito o trabalho da Maria e na primeira oportunidade que tive, convidei-a a vir a Vila Franca de Xira”, partilha António. A estética da artista, ancorada na ilustração digital geométrica, com fortes gradações de cor e desdobramento de formas é, para o curador da Cartoon Xira, traço distintivo de Picassó e razão para o seu “percurso de reconhecimento internacional”.
“É bom mostrar às pessoas que se pode fazer caricaturas de qualidade em vários estilos”. Com ou sem Sável, pode comprovar-se isso mesmo até dia 31 de maio. A Cartoon Xira está de portas abertas para as receber e a entrada, tal como o riso e a reflexão, é livre.
Março, Mês do Sável. Até 31 de março em 31 restaurantes do concelho de Vila Franca de Xira.
Em geral… como classificaria o site do Guia Repsol?
Dê-nos a sua opinião para que possamos oferecer-lhe uma melhor experiência
Agradecemos a sua ajuda!
Teremos em conta a sua opinião para fazer do Guia Repsol um espaço que mereça um brinde. Saúde!