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Escondido numa aldeia, o Forno de Jales é cozinha regional alternativa

Restaurantes em Trás-os-Montes

Escondido numa aldeia, o Forno de Jales é cozinha regional alternativa

Atualizada: 12/03/2026

Texto: Austin Bush

Fotografia: Austin Bush

Depois dos fine dinings na Europa, João Coutinho Pires e Rita Gomes voltaram ao Norte de Portugal e abriram um restaurante numa antiga taberna. Em Vreia de Jales, pequena aldeia, os produtos limitados desbloqueiam a criatividade.

Assim que nos aproximamos de Vreia de Jales, uma pequena aldeia de Vila Pouca de Aguiar, no cimo de uma montanha a norte de Vila Real, Trás-os-Montes, as duas faixas da estrada passam subitamente a uma só, graças às pilhas de neve que se acumulam de ambos os lados.

Durante quinze minutos, avançamos por este estreito caminho de gelo até chegarmos a um conjunto de casas de granito, aparentemente vazias: uma placa que assinala a chegada da electricidade em 1965, espigueiros sem uso e algumas vacas a mastigar fardos de palha, mas poucas pessoas. O nosso destino é O Forno de Jales, um restaurante aberto há dois anos por um casal jovem, nesta remota, diríamos quase abandonada, aldeia. O que levaria alguém a escolher este lugar para um projeto tão ambicioso?

No Inverno, a época por excelência do fumeiro transmontano, Vreia de Jales enche-se de neve
No Inverno, a época por excelência do fumeiro transmontano, Vreia de Jales enche-se de neve

De volta à Terra: a história do Forno de Jales

João Coutinho Pires e Rita Gomes conheceram-se enquanto estudantes de cozinha no Porto. Ambos nortenhos, formaram-se e estagiaram na região, tendo, posteriormente, passado por restaurantes de renome na Suíça e em Espanha.

Enquanto trabalhavam no Culler de Pau, um restaurante 3 Sóis Guia Repsol numa zona rural da Galiza, rebentou a pandemia de COVID-19, e o casal deu por si num momento de viragem das suas carreiras. “Nós adorávamos trabalhar neste tipo de restaurante, mas não podíamos trabalhar nesse ritmo para o resto das nossas vidas. Era de mais”, confessa-nos Rita.

O casal optou por regressar a Portugal e começar a procurar locais perto de Vila Real, a terra de João. O objetivo era encontrar um terreno numa zona rural e aí construir um espaço seu. “A nossa experiência em Espanha mostrou-nos que era possível fazer alguma coisa que não fosse numa cidade grande,” conta-nos João sobre o seu trabalho no Culler de Pau.

A lareira é uma zona importante da casa transmontana e é aqui que poderá terminar a refeição n’O Forno de Jales
A lareira é uma zona importante da casa transmontana e é aqui que poderá terminar a refeição n’O Forno de Jales

Durante esta busca, um amigo sugeriu que considerassem um restaurante que tivesse fechado por causa da pandemia. Não muito depois disto, encontraram o Forno de Jales.

Apaixonaram-se pelo espaço, o seu tecto forrado a madeira e, claro, o forno a lenha. Viram o potencial desta cozinha semi-aberta na pequena aldeia perdida.

Decidiram então tomar conta do espaço, mantendo o nome original: e assim começou um segundo capítulo nas vidas de João e Rita - e d’O Forno de Jales.

Criar Raizes e uma comunidade em Vreia de Jales

O Forno de Jales, em tempos parte da Rede de Tabernas do Alto Tâmega, precisava de pouca intervenção e o casal instalou-se depois de uma pequena remodelação. “Essa foi a parte mais bonita”, diz-nos João. Retiraram alguma da mobília, mantiveram o teto em madeira, abriram a cozinha, instalaram iluminação mais sofisticada e criaram espaço para 20 lugares.

Com 40 habitantes, esta aldeia mantém-se bastante tradicional: o espigueiro é um ícone os ritmos antigos no norte de Portugal e Galiza
Com 40 habitantes, esta aldeia mantém-se bastante tradicional: o espigueiro é um ícone os ritmos antigos no norte de Portugal e Galiza

O restaurante, como o nome indica, já estava equipado com um forno de pão, bem como com uma lareira e um fogão a lenha, e se chegarmos numa tarde fria, escura e nevada a atmosfera é de calor e aconchego. O casal mudou-se para uma casa mesmo em frente ao restaurante, passando a integrar os cerca de 40 habitantes permanentes de Vreia de Jales, e, no final de 2024, o projeto arrancou.

Uma das primeiras tarefas era a de encontrar ingredientes locais. “As pessoas da aldeia vendem-nos muitos dos produtos”, diz-nos Rita, enquanto enumera castanhas, maçãs, pêras, gado – e até azeite produzido por um casal francês que vive também em Vreia de Jales – como parte da riqueza imediata da região. Mais do que apenas os ingredientes, o casal trabalha ainda com um talho local, bem como com fumeiros da região alargada. “Neste momento, o nosso trabalho é criar uma comunidade e apoiá-la”, afirma João, enquanto Rita acrescenta: “E eles apoiam-nos a nós.”

João Coutinho Pires e Rita Gomes mudaram de vida para abrir o Forno de Jales, onde o inverno é época alta
Escondido numa aldeia, o Forno de Jales é cozinha regional alternativa

Contudo, os produtores locais só conseguem disponibilizar um leque limitado de ingredientes, sendo uma das desvantagens de estarem instalados numa zona remota a de perderem “um dia por semana”, nas palavras de João, em deslocações a aldeias próximas para se abastecerem de produtos que não existem aqui. Ainda assim, o casal garante que a ausência da azáfama das grandes cidades é recompensa suficiente.

“É óptimo ter um sítio tão perto quando a tempestade acaba; não temos de lidar com o trânsito nem apanhar o autocarro”, diz João, referindo-se ao facto de viverem mesmo em frente ao trabalho. “Abrimos a porta e estamos em casa”, acrescenta Rita.

As entradinhas podem incluir clássicos do conforto como bola de carnes ou salgadinhos, como o croquete de Maronesa
As entradinhas podem incluir clássicos do conforto como bola de carnes ou salgadinhos, como o croquete de Maronesa

Para quem vive fora da pequena aldeia, a localização d’O Forno de Jales — a quase 25 km de Vila Real, a maior cidade da região — faz dele um restaurante-destino. Facto que, segundo o casal, não se revelou um obstáculo. Pelo contrário, o final do Inverno, tradicionalmente o período mais difícil para a maioria dos restaurantes, tem sido a sua época mais movimentada, já que a cozinha regional, robusta e reconfortante com as suas carnes fumadas, a carne de vaca, couves, e tubérculos, atrai muitos comensais.

Não são reintrepretações, é cozinha regional alternativa

Embora o menu do restaurante assente na gastronomia da região, também é verdade que a abordagem se afasta da tradição. Esta é uma filosofia culinária que João descreve, em jeito de brincadeira, como “cozinha regional alternativa”.

O chuletón de Maronesa com arroz de forno e vegetais é um dos destaques no menu
O chuletón de Maronesa com arroz de forno e vegetais é um dos destaques no menu

“Para nós, é importante mostrar às pessoas que Trás-os-Montes não significa apenas uma forma de comer”, conta-nos Rita. “Temos muitos bons produtos que podem ser reinventados de diversas formas; nem sempre tem de ser um grande cozido para se ficar horas à mesa.”

Não se encontrará cozido no menu d’O Forno de Jales, mas, estamos afinal em Trás-os-Montes, e a carne não poderia deixar de ser um dos destaques. A refeição começa com petiscos de alguns dos que são, provavelmente, os melhores enchidos de Portugal: uma bola de carne, um salpicão absolutamente delicioso da Campeã, uma fatia de presunto de Montalegre, um ovo verde recheado com alheira. E, claro, carne de vaca.

Foi precisa apenas uma pequena obra de remodelação para transformar uma antiga taberna do Alto Tâmega num restaurante cuidado
Foi precisa apenas uma pequena obra de remodelação para transformar uma antiga taberna do Alto Tâmega num restaurante cuidado

O gado é outro dos produtos de excelência de Trás-os-Montes, e o casal defende a vaca maronesa, uma raça autóctone. “Não foram nunca destinadas a ser carne de consumo,” explica-nos João sobre a raça, esclarecendo que eram usadas para o trabalho e que, nas últimas décadas, quando já não eram precisas para isso, estiveram quase em risco de desaparecer.

O casal trabalha com um talho local, e a carne de vaca entra em vários pratos, como num delicioso croquete ou num costeletão grelhado de uma vaca de quatro anos — este último, uma combinação simples, mas absolutamente deliciosa, de carne, sal e fogo. “Não queremos interferir muito,” afirma João sobre o bife, “Queremos que as pessoas experienciem um produto muito bom e que é daqui.”

Os pratos de vegetais estão entre os mais surpreendentes. Um exemplo é esta couve grelhada, recheada com feijão e servida com caldo de porco
Os pratos de vegetais estão entre os mais surpreendentes. Um exemplo é esta couve grelhada, recheada com feijão e servida com caldo de porco

Contudo é preciso dizer que muito provavelmente as melhores garfadas da refeição — e também aquelas que mais se distanciam da tradição — são as (quase) vegetarianas: uma porção de couve da região braseada e levemente grelhada, recheada com uma pasta de feijão e servida num caldo encorpado, feito de pé de porco (como acompanhamento do Chuletón) ou uns saborosos e fragrantes cogumelos selvagens com molho de barbecue à base de beterraba.

“É outro nível de criatividade quando se dispõe de um produto muito limitado, como temos aqui — mesmo, mesmo limitado,” confessa Rita, explicando que têm mais liberdade para experimentar na Primavera e no Verão, estações menos associadas à cozinha de inverno da região, conhecida, apreciada, mas geralmente pesada, robusta e centrada na carne.

O casal João e Rita divide-se entre a cozinha e o serviço de sala
O casal João e Rita divide-se entre a cozinha e o serviço de sala

O jantar pode acabar com a interpretação que o casal faz da típica Crista de Galo, um pastel frito da região, neste caso recheado com toucinho-do-céu e servido com molho inglês e gelado de dióspiro. Antes de sair, passamos para perto da lareira, onde, numa mesa de apoio, encontramos uma cópia da Cozinha Tradicional Portuguesa, da autoria de Maria Lourdes Modesto. A uns passos de distância, encontra-se o que parece ser o conjunto completo, em vários volumes, de Modernist Cooking, um manual enciclopédico, com uma abordagem científica, sobre gastronomia avant-garde. Neste restaurante, onde o passado e o futuro se equilibram, é a biblioteca perfeita.

Tradução por Raquel Dias