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No Tasco da Ilda, da história ao prato, tudo é verdade e sabor

Um tasco que junta Ribatejo ao Médio Oriente e ao Japão

No Tasco da Ilda, da história ao prato, tudo é verdade e sabor

Atualizada: 07/05/2026

Texto: Filipa Vaz Teixeira

Fotografia: Marisa Cardoso

Madalena Dias levou para o seu primeiro restaurante o coração e as raízes ribatejanas e a aprendizagem de muitas horas de leitura sobre a comida do mundo. O resultado? Um tasco que não precisa da palavra “conceito” para se perceber que é de partilha, do prato à conversa.
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São 11h da manhã e o rabo de boi já está ao lume. “Precisa de duas horas para ficar bem cozido e depois a carne é despegada do osso à mão”, diz uma das duas cozinheiras que auxilia a chef Madalena Dias no seu Tasco da Ilda.

Ali, não há atalhos fáceis nem desperdícios: as aparas do chambão, usado no croquete, são reaproveitadas para o molho do bife; o caldo do arroz de espargos e da cozedura do bacalhau, protagonista do torricado, são incorporados na marmanja, já para não falar nos talos de tudo quanto é ervas aromáticas e nas espinhas e cabeças dos peixes e mariscos, matérias-primas de um jus que se preste.

Madalena Dias preparando o marmanja d’Azambuja, espécie de açorda local. À esquerda, a sobremesa Ai limão, amor do meu coração , esferas de pani puri recheadas com lemon curd e merengue italiano no topo
Madalena Dias preparando o marmanja d’Azambuja, espécie de açorda local. À esquerda, a sobremesa Ai limão, amor do meu coração , esferas de pani puri recheadas com lemon curd e merengue italiano no topo

“Tudo o que faço, faço com muito gosto”, diz Madalena, abrindo o congelador com vários pré-preparados em vácuo, meticulosamente doseados e organizados, como se tivesse sido Marie Kondo a fazê-lo. O método, aliado à paixão, é o segredo do Tasco da Ilda, restaurante que apresenta uma carta extensa e com várias etapas de preparação, sem nunca ter quebras de stock. “Tenho uma capacidade de resposta como se servisse bifes ou hambúrgueres”.

“Eu estive lá. Eu mexi e aprendi com coisas verdadeiras”

Assim de repente, diríamos que Madalena Dias, 45 anos feitos, pertence àquela extirpe de chefs que aprendeu nas academias de culinária mais conceituadas, ao mesmo tempo que tirava pós-graduações em gestão para saber montar um negócio.

Porém, ao invés de vermos diplomas pendurados nas paredes ou um portfólio engordado com nomes de restaurantes finos, vemos sabedoria prática, daquela que só se aprimora metendo a mão na massa e cultivando a curiosidade.

Rabo de boi com puré de ervilhas
Rabo de boi com puré de ervilhas
O Tasco da Ilda abriu portas em setembro de 2021
O Tasco da Ilda abriu portas em setembro de 2021

“Eu estive lá. Eu mexi e aprendi com coisas verdadeiras”, diz, lembrando a infância passada entre a quinta onde os pais eram caseiros e o barco do avô João Regateiro, um dos muitos avieiros que se fixaram nas margens do Tejo. “Andava sempre colada ao meu avô e ia com ele à pesca”, conta. As enguias, lagostins, sabogas, tainhas e outros peixes do rio que João apanhava, eram depois vendidos pela tia Carmo, na praça da Azambuja. Já os tios caçadores ensinaram-lhe a amanhar aves. Por sua vez, Rui Jesus, padeiro da família e ainda hoje fornecedor do Tasco da Ilda, explicou-lhe a diferença entre o fermento químico e o natural.

O resto, aprendeu com os livros e com os contrarrótulos das embalagens. “Adorava ler aquelas coleções do Círculo de Leitores sobre cozinha e bricolage. E quando ia ao supermercado, virava as embalagens ao contrário e apontava os ingredientes num caderninho”. Recorrendo aos seus apontamentos, fez a primeira pizza lá de casa, aos 13 anos, para deleite dos irmãos, ela que aos 6 já tinha deixado a mãe boquiaberta ao amanhar dois quilos de carapaus “num instante”.

Na casa da bisavó, nasce o Tasco da Ilda

O percurso de Madalena Dias foi-se amanhando assim, com muito desenrasque e gosto pela cozinha. Trabalhou em call centres, armazéns, quintas, eventos e sempre que podia, arranjava forma de se mandar para os tachos. Em 2018, depois de muitos caterings, formalizou a sua empresa de eventos, a Cook Wine, com a qual atravessou a pandemia. Iniciativas como a Tacheiros, na qual levava comida de tacho a casa das pessoas, ajudaram-na a manter-se à tona.

Os jaquinzinhos fritos com a marmanja d’Azambuja (uma espécie de açorda local)
Os jaquinzinhos fritos com a marmanja d’Azambuja (uma espécie de açorda local)

Mas depois veio a morte da mãe e tudo se tornou incerto. “Não sabia o que fazer à minha vida”. O companheiro Rui, que aos fins de semana dá uma mãozinha a servir às mesas, mostrou-lhe o caminho. “Tens de ter um restaurante”, e assim foi: quando andavam os dois à procura de um espaço na Azambuja, terra natal de Madalena e da mãe Fátima Regateiro, (fadista com honras de mural na Rua Trás da Igreja), deram de caras com a casa onde viveu a bisavó Ilda.

Estava encontrado o espaço e, sem mais delongas, o Tasco da Ilda abriu portas em setembro de 2021. O nome tem um duplo significado: tanto remete para a tradição tasqueira, onde o petisco é soberano, como para a arte de espadelar o linho e à qual a bisavó, minhota de nascença, se entregou em vida (o tasco refere-se às fibras grosseiras do linho que eram separadas usando uma espadela).

Raízes ribatejanas, com um toque do Médio Oriente e Ásia

Decorado com as cores quentes do Ribatejo, sem televisão ou password de internet, para que as pessoas conversem sem se distraírem com coisas fúteis, o Tasco da Ilda é uma montra da gastronomia local, interpretada com técnica e leveza e com critério na escolha de produto de qualidade.

A seleção de vinhos, com referências de todas as regiões vitivinícolas portuguesas, é especialmente pensada para acompanhar os pratos, sejam eles “meras” manteigas de alho assado e de tinta de choco ou uma borregada à alentejana.

O Tasco da Ilda está decorado com as cores quentes do Ribatejo
O Tasco da Ilda está decorado com as cores quentes do Ribatejo

Entre as principais propostas, há aquelas que são arraigadamente ribatejanas, como o torricado de bacalhau assado, os jaquinzinhos fritos com a marmanja d’Azambuja (uma espécie de açorda local) ou o rabo de boi com puré de ervilhas; e outros que se colam às memórias de Madalena, como o Foie do Mar, uma lembrança da caldeirada do avô feita com fígados de tamboril, vindos diretamente da lota, e aqui servida com pão frito e hortelã.

São igualmente notórias influências de outras geografias, ou não fosse Madalena Dias uma apaixonada por especiarias, picantes, contrastes, texturas, umamis e tudo o que se cozinha entre o Médio Oriente e o Japão.

O Tum Tum, um tártaro de atum, chega à mesa sobre cubos de arroz sushi e tobiko (ovas de peixe voador) e o Olhó Passarinho, feito com codorniz, tem um equilíbrio espantoso entre acidez e doçura, dado pelo vinagrete, pela laranja e pelos pickles caseiros.

Nas sobremesas, difícil resistir ao Ai limão, amor do meu coração. São umas esferas de pani puri recheadas com lemon curd e com merengue italiano no topo. Das duas uma: ou comemos tudo de uma vez, ou corremos o risco de ter lemon curd a correr-nos pelo queixo.

Mas também há mousse de chocolate 70%, com avelãs caramelizadas, azeite virgem extra de baixa acidez e sal tinto (um sal patenteado pela chef e Medalha de Ouro no Concurso Nacional de Temperos e Especiarias); Café com cheirinho, um pudim de pão que lembra o sticky toffee pudding inglês, feito com as borras do café; ou o Bem-Me-Quer, combinação de massa folhada, frutos vermelhos frescos, brisa do Lis e merengue italiano.

O torricado de bacalhau assado
O torricado de bacalhau assado

Com a chegada do bom tempo, haverá sessões de música, vinhos e tapas na esplanada, de quinta a sábado. Mas isso será mais perto do verão. Por ora, a primavera trará algumas mudanças na carta. Quiçá não veremos em breve umas favas com entrecosto no Tasco da Ilda, o prato favorito da mãe de Madalena. Afinal, este tasco, nascido de “muita luta”, é a própria história de várias gerações de grandes mulheres regateiras.

Tasco da Ilda. Rua Jaime da Mota, 34, Azambuja. 926 304 053. 12h-14h30 e 19h-22h30. Fecha dom. ao jantar e 2a. Preço médio: €30