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Nos anos 70 e 80, fazia-se fila à porta da pastelaria Condestável, em Almada, a funcionar desde 1969, para comprar garibaldis. “Ainda não existiam os Bollycaos e a malta da escola, à hora da saída, por volta das cinco, ia a comer os garibaldis pelo caminho”, conta Pedro Pereira, 63 anos, filho de um dos sócios-fundadores da casa, Álvaro Pereira.
Nessa altura, num bom fim-de-semana, chegavam a vender-se 12 tabuleiros de garibaldis por dia – perto de 600 bolos. “Agora vendemos duas dúzias por dia”, continua Pedro. “As pessoas dessa geração ainda vêm à procura, mas os filhos já não gostam. É um bolo um bocadinho para o doce, pode ser enjoativo.”
Batizado em homenagem ao general italiano Giuseppe Garibaldi, o bolo (1,60 euros) tem uma base de pão de ló, claras em castelo com cacau e vai ao frio, num grande tabuleiro, durante 24 horas. “Existe o mito que foi o meu pai que inventou o garibaldi, mas isso não é verdade”, diz Pedro. “Foi um colega do meu pai da [pastelaria] Mexicana que lhe passou a receita. Mas iguais a estes não há em lado nenhum”, garante.
Pedro começou a trabalhar na Condestável quando tinha 12 anos, nas férias da escola. “O meu pai achou que já chegava de malandragem”, ri-se. “Mas aos 15 anos fui burro e deixei mesmo a escola. Queria ter dinheiro para comprar uma mota.”
Começou por gerir a pastelaria Repucho, também em Almada, que era dos mesmos sócios, até que a sociedade se dividiu, em 1981, e o seu pai ficou só com a Condestável. “Estou aqui com a minha irmã [Leonor] desde os 18 anos.” Hoje, os dois irmãos estão à frente da casa.
Na altura, a casa era popular para casamentos, sobretudo no salão de bilhar. “Punha-se uns estrados em cima das mesas de bilhar [a fazer de mesa]. Também chegámos a fazer casamentos na cave, onde havia uns matraquilhos, o que hoje seria impensável. Eram outros tempos e as exigências eram outras,” recorda Pedro Pereira.
O salão foi, entretanto, transformado em cozinha a pensar nos almoços da pastelaria, servidos nas mesas ou num balcão de madeira, que também faz lembrar outros tempos. Tal como a vitrine repleta de bonecos para enfeitar bolos de anos, a balança antiga numa prateleira, ou o quadro com uma cena da Batalha de Aljubarrota com Nuno Álvares Pereira, que dá nome à rua, e também à pastelaria – o santo Condestável.
Depois, há também uma pequena mercearia com fruta, enlatados, legumes e pão, que ainda satisfaz os clientes mais antigos da casa.
Já o fundador e chef pasteleiro, Álvaro Pereira, está afastado da pastelaria desde a pandemia, mas faz uma visita diária para ver como corre o negócio.
Natural de Oliveira de Frades, em Viseu, chegou a Lisboa aos 18 anos. “Foi a primeira vez que calçou uns sapatos”, recorda o filho. “Eles eram oito irmãos.” Trabalhou numa padaria até “ouvir dizer que os chefs pasteleiros ganhavam bem”, continua Pedro. Foi aí que entrou na Mexicana, na altura uma das melhores pastelarias de Lisboa. “Começou como aprendiz e foi evoluindo.”
Em Almada, foi chef pasteleiro da Dragão Vermelho, uma das poucas pastelarias de Almada dos anos 60, até abrir a Condestável, onde popularizou os garibaldis e também os setubalenses, esses sim uma invenção sua.
“Foram criados pelo meu pai com o intuito de contornar os preços fixos dos bolos [durante a ditadura]”, explica Pedro. “Nos anos 70, havia um grémio que tabelava o preço dos bolos e tinha de se respeitar. O meu pai, para vender um bolo por mais cinco tostões, inventou este setubalense.”
O bolo, a 1,35 euros, continua a ser popular nos dias de hoje e leva massa folhada e creme pasteleiro. O nome foi inspirado numa cliente de Setúbal que os costumava pedir porque não gostava de mais nenhum bolo. “O meu pai sabia criar bolos, mas não sabia dar nomes”, brinca Pedro. “Ela perguntou-lhe: ‘Como é que se chama este bolo?’ Como a senhora era de Setúbal, ficou setubalense. Mas em Setúbal não existe, só aqui.”
Também outro bolo criado por Álvaro, o Jacob, com massa folhada, pão-de-ló e doce de ovos, é um dos mais pedidos nos dias de hoje. “Vendemos muito bem à fatia e como bolo de aniversário”, diz Pedro. “É um bolo que a comunidade muçulmana aprecia muito, encomendam muito para casamentos. É muito idêntico a um bolo de Moçambique.”
A caminho dos 60 anos de vida, a Condestável continua a apostar em fabrico próprio e creme pasteleiro artesanal. Mas as filas ficaram no passado, até porque Almada mudou. Com mais concorrência, com o metro de superfície e as alterações de trânsito na avenida, foram perdendo clientes de passagem e também lugares na esplanada, lamenta Pedro. “Deixámos de ser uma pastelaria de cidade para ser uma pastelaria de bairro.”
Pastelaria Condestável. Avenida Dom Nuno Álvares Pereira, 37-B, Almada. De terça-feira a domingo, 7h-20h. Encerra à segunda-feira. T. 212 765 926
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