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Do fumo, do fogo e da região de Leiria se faz o Foco

Restaurante em Leiria

Do fumo, do fogo e da região de Leiria se faz o Foco

Atualizada: 08/05/2026

Texto: Filipa Vaz Teixeira

Fotografia: Marisa Cardoso

Abriu em 2020 e agita desde então o panorama gastronómico de Leiria. César Vitorino e Sarah Didry são as caras do Foco, restaurante onde o fogo e tempero criativo são soberanos.
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Todos os dias, por volta das 10h30, César Vitorino lança a lenha de oliveira para o foyer e acende o lume. É no crepitar das brasas e no domínio da chama que reside a essência do Foco (1 Sol Guia Repsol), restaurante que o chef leiriense abriu em 2020 ao lado de Sarah Didry.

“Leiria tem muita restauração, mas está mais virada para o tradicional. Quando abrimos, tentámos trazer uma coisa nova”, conta Sarah, que, para além de ser responsável de sala, também trata da carta de vinhos, combinando vinhos naturais com outras escolhas mais consensuais de todo o país.

As plantas suspensas, bar recheado e música eclética fazem o ambiente do Foco
As plantas suspensas, bar recheado e música eclética fazem o ambiente do Foco

César e Sarah, de 38 e 36 anos, respetivamente, conheceram-se quando trabalhavam no Cavalariça, na Comporta. Ele vinha da escola de hotelaria de Penacova e de uma passagem por Londres que o pôs em contacto com Nuno Mendes, chef de restaurantes como o Santa Joana ou a Cozinha das Flores (ambos com 1 Sol Guia Repsol) e que marcou a predizagem de César: “Tive a sorte de trabalhar com ele no Chiltern Firehouse, abriu-me horizontes. Adorei esse estilo de cozinha”. Ela, designer de formação, apaixonou-se pela restauração em França, a sua pátria, a par do Brasil: “Gosto muito do contacto com o cliente”.

Do território para a mesa

Juntos, são uma dupla empática e com vertigem pela criatividade, atenta ao detalhe sem ser exuberante, perfecionista sem ser obstinada. O Foco, com as suas mesas de madeira e tampos de mármore alentejano, cozinha aberta e um balcão cheio de tacinhas com especiarias, ervas, algas e cor, uma mise em place que apetece comer com os olhos, plantas suspensas e uma banda sonora cheia de personalidade, de Nibolas Jaar a dubstep, é o resultado de muita técnica, bom gosto e carinho. Um lugar no qual sentimos o corpo a relaxar mal cruzamos a porta de entrada e do qual não temos pressa para ir embora.

A cavala fumada é um bom exemplo de como se usa o fogo neste restaurante — aqui servida com puré de berinjela, pickle de nabo e alga kombu
A cavala fumada é um bom exemplo de como se usa o fogo neste restaurante — aqui servida com puré de berinjela, pickle de nabo e alga kombu
O tártaro de novilho com temperos asiáticos, cebola frita, alga nori e pepino expressa um pouco do percurso profissional do chef
O tártaro de novilho com temperos asiáticos, cebola frita, alga nori e pepino expressa um pouco do percurso profissional do chef

É em Leiria e na região Oeste que César Vitorino vai buscar inspiração para os seus pratos, seja quando vai colher salsa-de-cavalo junto ao Castelo, no inverno, flor de Sabugueiro nos arbustos que habitam a cidade, durante a primavera, ou comprar o peixe fresco que chega todas as terças, quintas e sábados ao Mercado. “Gosto de comprar o produto bruto, de preferência daqui da zona, e transformá-lo cá”.

A gamba rosa do Algarve e os morangos frescos e grelhados com creme de sabugueiro e merengue são dois exemplos de simplicidade na carta do Foco
A gamba rosa do Algarve e os morangos frescos e grelhados com creme de sabugueiro e merengue são dois exemplos de simplicidade na carta do Foco

Do pão à manteiga de vaca (da qual ainda aproveita o leitelho para desidratar), dos gelados aos pickles, dos bisques e molhos às sobremesas, tudo é feito na cozinha do Foco. “Gosto de dizer que faço comida caseira”. Para além do fogo e do fumo, muito presente em pratos como a cavala fumada com puré de berinjela, pickle de nabo e alga kombu (€13) ou na gamba rosa do Algarve fumada e grelhada e acompanhada por brioche, óleo de manjericão e togorashi (€18,50), é notória a influência asiática na cozinha de César Vitorino.

Inspiração asiática para temperar o produto da região

“Em Londres, trabalhei com o chef chinês Zijun Meng, no TaTa Eatery, que me ensinou muitas coisas”, diz, puxando dos galões para o seu tártaro de novilho (€12,50). O molho, explica, é à base de hondashi, soja e mirin, um tipo de vinho de arroz muito usado na culinária japonesa. O prato é finalizado com cebola frita, alga nori e pepino e é de uma subtileza e equilíbrio capaz de seduzir mesmo aqueles que se dizem avessos a carne crua. “Nunca vi esta combinação de sabores noutros sítios”.

César Vitorino usa o fogo e o fumo como métodos primordiais de confeção no Foco
César Vitorino usa o fogo e o fumo como métodos primordiais de confeção no Foco

Sendo um restaurante que incentiva a partilha, Sarah Didry sugere uma entrada e dois pratos, para duas pessoas, a conta certa para deixar um espacinho para as sobremesas. Aqui, a escolha é difícil: entre o pão de ló cremoso com gelado de azeite e flor de sal e os morangos frescos e grelhados com creme de sabugueiro e merengue, venha o pedra-papel-tesoura para decidir este imbróglio. Ou então venham as duas, porque é um crime deixar qualquer uma de fora.

Sarah Didry ocupa-se da sala e da seleção de vinhos, que vai dos mais especiais naturais às referências mais unanimes
Sarah Didry ocupa-se da sala e da seleção de vinhos, que vai dos mais especiais naturais às referências mais unanimes

Para além do menu fixo, há sempre sugestões de almoço de segunda a sexta-feira e um pequeno anexo “Do Mar”, a informar qual o peixe do dia. Não tenhamos dúvidas: no Foco, a frescura é obrigatória e o fogo, o melhor amigo do produto. Tudo o resto - incluindo as folhas e os lápis de cor para as crianças - é deleite puro.

Foco: R. Lino António, lote 40, Leiria. 914 545 155. 12h-14h30 e 19h30-22h. Fecha sáb. e dom.