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Alguém não gosta de gelado? Será que foi à volta desta encantadora criação que gerou a ideia de unanimidade? Haverá coisa mais consensual do que esta? Ao longe, dizemos que não. Quando a provamos, eliminamos qualquer resto de dúvida. E regressamos vezes sem conta, mais ainda quando faz calor, a ligação é automática, a relação é inevitável e, depois, a felicidade é imediata.
Se é verdade que não há época para o gelado, a verdade é que quando o verão bate à porta, mesmo antes de começar, todos nos assumimos devotos seguidores, apreciadores, apaixonados.
Por isso aqui estamos, prestando o devido serviço, recuperando os Soletes do Guia Repsol que, na região de Lisboa, se dedicam a esta arte. Seguem-se 12 geladarias, ou gelatarias, se quiserem, já que ambos os formatos são aceites pelas regras da língua portuguesa, com prioridade para a formulação saída da palavra “gelado”. O importante é que escolha e se delicie.
É difícil ter uma história mais completa do que A Veneziana. A primeira geladaria em Lisboa, provavelmente uma das primeiras esplanadas da cidade. Começou tudo nos anos 30, com bicicletas que giravam pela cidade com arcas em forma de gôndola.
Foi Giovanni de Luca que abriu o negócio, passou-o para a família até que no ano passado a situação ficou tremida. Resolvidas as questões, a loja icónica dos Restauradores reabriu, com o apelido de sempre e as receitas com décadas, que incluem um spaghetti especial e as cassatas, derivadas do clássico bolo siciliano com o mesmo nome. Mesmo para quem não aprecia gelado (característica inexplicável, mas avancemos), vale a pena a visita como experiência existencial.
A Veneziana: Praça dos Restauradores 8, 1250-187 Lisboa. Telefone: 960 359 690. De terça a domingo, das 13h às 20h. Fecha à segunda-feira.
Coisas necessárias para fazer de uma geladaria uma boa geladaria: bons gelados, claro, mas avancemos, porque isto é chover no molhado; um laboratório, para descobrir novos e desafiantes sabores, como quem brinca no paraíso (aqui há gelados de papos de anjo, natas do céu ou pudim Abade de Priscos); as opções copo, cone, crepe e caixa para levar e partilhar onde for caso disso; um balcão, já que o resto — das mesas às esplanadas — podemos dispensar (o gelado tem a virtude de provocar felicidade em qualquer situação); e um nome doce, guloso, não tem que dar fome mas pode muito (e bem) despertar o desejo, de cada vez que alguém o diz em voz alta. Ora a Brera — que é um bairro em Milão — cumpre todos os requisitos. Depois disto, é visitar e escolher.
Brera: Rua Áurea 258, 1100-581 Lisboa. Todos os dias, das 12h às 22h.
Como acontece em praticamente todas as situações semelhantes, o número que vemos no nome deste estabelecimento diz respeito ao ano de fundação da casa em questão. E “casa” aqui é a palavra certa porque esta é a do Gelado (com letra maiúscula porque se trata de doçaria de importância superior) — concedamos-lhe tal honra.
Aliás, é isso que tem acontecido nesta morada da Avenida de Roma, onde o gelado é tratado com carinho e gulodice. Atentem: o crepe é uma das especialidades da casa, bem tratado por dentro, bem cuidado por cima. É uma questão de aparência e de carinho açucarado. E é também um ótimo facto para apresentar a todos aqueles que dizem que gelado não alimenta. Experimentem fazer deste crepe a vossa refeição e depois repensem os argumentos.
Casa do Gelado — 1981: Avenida de Roma 28H, 1000-280 Lisboa. Telefone: 218 217 840. Das 12h às 20h. Fecha à segunda-feira.
Era uma vez um pai e um filho italianos, de apelido Tarlattini. Parece nome de massa mas é marca de família nas coisas dos gelados. Quintilho e Alfo instalaram-se num pequeno estabelecimento na Avenida da Igreja em Alvalade e, tantos anos depois, a Conchanata continua a ser palco de romaria assim que se lança a época da vontade insaciável pela cremosa tentação.
É o neto de Quintilho quem hoje toma conta do negócio. Michele, de seu nome, é vê-lo a aviar o desejo de sabores e fabricos artesanais que convoca fiéis do bairro de Alvalade, adeptos de toda a cidade e curiosos que tratam o local como monumento. Em copo, cone ou na famosa taça de vidro que dá nome a esta casa que é já quase coisa de lenda — mas verdadeira, o que torna tudo melhor.
Conchanata: Avenida da Igreja 28A, 1700-237 Lisboa. Telefone: 218 491 741. Todos os dias, das 12h às 22h.
As avenidas lisboetas apreciam um bom gelado. Mais do que isso; poderemos tratar a relação como coisa de vício? Assumamos tal realidade. Haverá alguém capaz de apontar o dedo? Só se for de inveja. As casas de referência multiplicam-se. A vontade de encontrar o novo melhor sabor, nem que seja com a semana corrente como prazo de validade, é cada vez maior.
Isto resulta em espaços como este, a geladaria FIB vai da bolacha maria ao amendoim — e vai bem. De tal maneira que assume, sem pudor, que é o “verdadeiro gelado italiano”. O título resulta de uma auto-distinção, mas ainda assim não evita a pergunta: será mesmo? E é também por isso que lá vamos. É preciso provar para comprovar.
FIB: Avenida Padre Manuel da Nóbrega 13E, 1000-223 Lisboa. Telefone: 211 324 311. De quinta a domingo, das 12h30 às 19h30.
É fácil de entender toda aquela boa pessoa que, do alto da sinceridade, mesmo que nascida entre algum desconhecimento, diz já não esperar mais notícias vindas da Ericeira. Porque já conhece tudo, porque já lá vai há anos, porque já quando era garoto lá ia e porque tinha uma tia cuja casa na vila ficava bem perto da praia e fazia tudo a pé e outros derivados deste assunto.
Pois bem, a estes prezados céticos é dedicado o corrente parágrafo sobre a Gelatommy. A primeira metade da palavra significa “gelado” a segunda vem do italiano “Tomás” que aqui abriu a casa contente por servir sabores desafiantes e aquele belíssimo brioche recheado com “vocês-sabem-o-quê”, uma iguaria que nos faz querer regressar mais uma vez. E outra. E talvez a próxima, claro.
Gelatommy: Rua 5 de Outubro 19, 2655-255 Ericeira. Telefone: 969 164 301. De terça a quinta, das 12h às 21h. De sexta a domingo, das 13h às 22h. Fecha à segunda-feira.
Parece uma competição e quem ganha somos nós, portanto vai daqui um sentido obrigado. Ficaria melhor com sotaque italiano, mas esses detalhes ficam para quem o domina, como é o caso de quem trata desta La Fabbrica. Gelado segundo as melhores das regras e com aprumo nas especialidades: o spaghetti, o tartufo — amêndoa por fora, gelado por dentro, calda de morango por cima — e, claro, a cassata.
Meia bola elaborada com carinho e às camadas. Baunilha, chocolate, morango e, chegando ao centro, nata batida com fruta. Em baixo, servindo de suporte para a nossa felicidade, uma base, mais nata batida (nunca é um exagero) e amêndoa torrada moída. É um desafio concentrado dentro do desafio maior: encontrar a melhor cassata de Lisboa. Pelo meio, é aproveitar e ser feliz.
La Fabbrica: Rua Dona Filipa de Vilhena 14 A B, 1000-136 Lisboa. Telefone: 217 590 360. De terça a domingo, das 13h às 20h. Fecha à segunda-feira.
Para todos os que pensavam que isto dos gelados na grande Lisboa era coisa para ficar concentrada nos locais de estabelecimentos com mais tradição ou nas áreas mais turísticas e veraneantes, eis que surge Benfica, bairro orgulhoso e devidamente convicto do seu direito à gulodice cremosa.
Na Lumi há gelados de leite e há sorvetes, há waffles, crepes e batidos. Tudo sempre no respeito daquilo que as bancas das frutas do mercado da zona têm para oferecer em cada dia. Ou seja: é um parque de diversões para os adeptos desta delícia que pode servir de lanche, de sobremesa ou daquilo que quiserem, mesmo que pareça mal. Pode até servir cães, garantem os responsáveis da casa: Luís e José Miguel.
Lumi: Estrada de Benfica 733C, 1500-089 Lisboa. Telefone: 933 530 253. De terça a domingo, das 12h30 às 20h. Fecha às segundas.
Era uma vez um tempo em que, para comer um gelado, a missão consistia simplesmente em passar pelo café mais próximo, também conhecido por “aquele que estiver aberto”, olhar para o cartaz à porta, ali colocado pela distribuidora da arca da satisfação e escolher o pré-feito favorito, com o sem pauzinho, com mais leite ou mais gelo, cone ou até com colher.
Os ditos permanecem disponíveis, mas Lisboa, por estes dias, tem gelados artesanais em tal quantidade que mais parece uma fábrica. O notável é a qualidade e esta Matoli confirma-o mais uma vez, mesmo que seja nas improváveis ruas paralelas à zona de Entrecampos. Sabores frutados e doces, com uma oferta complementada por um bolo de chocolate (e não só) que tem dado que falar.
Matoli: Rua de Entrecampos 56C, 1700-159 Lisboa. Telefone: 919 365 019. Todos os dias, das 13h às 19h.
É uma instituição na zona do Campo dos Mártires da Pátria. A fila pode parecer longa, mas não se apoquente que o serviço costuma ser ágil. Da mesma forma, não tema pelo espaço curto dentro de portas. É que do outro lado da estrada tem todo um jardim onde pode degustar o produto que acabou de adquirir. E de que se trata? Pois bem, é gelado, do bom, do saboroso, do frutado, do cremoso, que vem no copo ou no cone, com ou sem bolacha, que pode vir no waffle.
O gelado pode até ficar na montra porque, afinal, preferiu o brownie, que está na mesma montra. Na Mú também há sorvetes e frappés e smoothies. Ou então, deixe-se ficar pelo café, que apresenta várias hipóteses, como manda a tradição italiana, que também manda aqui. Já agora, detalhe de enorme importância: esta rapaziada tem também uma loja na Graça e outra no Príncipe Real. Anote.
Mú Gelato & Caffé: Campo dos Mártires da Pátria 50, 1150-225 Lisboa. Telefone: 218 861 041. Todos os dias, das 12h às 23h30.
É inevitável: vemos uma fila e queremos saber o que se passa. Porque é que está tanta gente em determinado sítio, o que é que leva tanta gente a esperar, neste mundo em que temos cada vez menos paciência para tudo o que não é imediato?
Ora bem, a Nannarella responde da melhor maneira: basta experimentar o gelado e fica tudo explicado, até à última colher. A mesma que não se usa para servir este clássico. Nem colher, nem concha. Faz-se como em Roma, é com espátula e assim é que tem de ser, com natas batidas por cima, como quem finaliza uma obra de arte.
A Nannarella não precisa que sejamos nós aqui a elogiar-lhe o produto final, o sucesso comercial explica tudo e não deixa margem para dúvidas. Mas se for preciso, aqui estamos, avançamos sem medos: este é um gelado feito com carinho e merece outro tanto.
Nannarella: Rua Nova da Piedade 64A, 1200-299 Lisboa. Telefone: 926 878 553. Todos os dias, das 12h às 22h.
Na última entrada deixamos aqui a confirmação: esta lista não está elaborada em jeito de ranking nem está organizada de acordo com qualquer tipo de preferência. O critério é o mais pragmático possível. Chama-se ordem alfabética e merece respeito. Tudo isto para explicar que esta casa surge em último lugar mas não é última em coisa alguma.
Aliás, para muitos apaixonados por gelado, e para tantos que o procuram na zona da grande Lisboa, este é “o” gelado. Attilio Santini fundou a Santini em 1949. Por estes dias, são várias as lojas na região (e também no Porto) mas continua a ser a de Cascais a que representa melhor a casa. É a primeira, a clássica, a referencial, a nave mãe. E os gelados são à prova de mácula. Fruta cuidadosamente selecionada, método apurado ao longo de décadas, não há como falhar, a não ser que nunca tenha provado. Não se faz.
Santini: Avenida Valbom 28F, 2750-508 Cascais. Telefone: 214 833 709. De domingo a quinta, das 12h às 21h. Sexta e sábado, das 12h às 22h.
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