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Se há coisa boa nesta cidade capital é ter reunido ao longo das décadas tanta gente vinda de tanto lado — do continente Africano e do Asiático, das Américas e do centro da Europa, do Norte e do Sul do país. Aqui foram fazendo as suas vidas e as vidas de muitos (muitas!) passam por cozinhar bem.
Coloquemos o foco na cozinha portuguesa que é tão vasta e que, em Lisboa, veio sendo construída por gente de todo o país. Aos minhotos, alentejanos, ilhéus e algarvios agradecemos por termos o receituário de qualquer zona do país à distância de uma viagem de metro.
Estes são 10 dos melhores restaurantes de cozinha tradicional portuguesa de Lisboa — todos com o selo de qualidade do Guia Repsol.
É provável que passe por ele e nem dê por nada. Ora, é para isso que aqui estamos, para assegurar que, em passando pel’O Galito (Restaurante Guia Repsol) faz a devida vénia à maravilhosa gastronomia alentejana. Uma vénia é o mínimo, o ideal é entrar.
A morada é a zona mais residencial de Carnide. Em três gerações, a casa tornou-se um clássico não só por causa os pratos rigorosamente tradicionais, mas também por uma garrafeira bem recheada das melhores referências do Alentejo.
Na cozinha, a responsável é a Gertrudes — é ela a autora do prato de perdiz com o seu nome. De resto, as mil entradinhas têm receitas que passam de geração em geração — sejam as favinhas, os torresmos, as sopas de tomate e cação. Remata-se tudo com uns pezinhos de coentrada ou com umas migas com carne de alguidar e seria sacrilégio não ir, no final, a uma daquelas potentes sobremesas de ovos.
O Galito. R. Adelaide Cabete 7, 1500-441 Lisboa. De segunda a sábado, das 12:30 às 15:00 e das 19:30 às 23:00. 217111088
O ideal é chegar cedo. O almoço n’A Courense (Restaurante Guia Repsol) é concorrido e a esplanada, sala de entrada e sala interior enchem-se num ápice. Na cozinha, Lina, e na sala, a queimar leite creme ou a fazer estéticos cortes nas fatias de melão, Manuel. O casal está à frente deste restaurante de bairro virado para a Estrada da luz, mas é o filho, Ricardo, o mestre de cerimónias que vai garantir que fica agarrado a esta casa, mesmo que chegue pelas 13h30 e tenha de fazer fila.
Logo começa por garantir que o seu lugar está a ser despachado e a despachar secretamente aqueles que ficam a fazer sala. Quando estiver a uns minutos de se sentar haverá um sinal: Ricardo começa a tirar o seu pedido. Poderá ser um dos peixes grelhados no ponto — o imperador, o linguado e os chocos são presenças habituais — ou um dos clássicos do restaurante quotidiano lisboeta — o bacalhau à Brás, a vitela estufada, a feijoada e o cozido ou o bacalhau à minhota à sexta. Tudo rematado com uma das sobremesas caseiras e envolvido nas publicidades vintage que forram as paredes — uma das coleções do nosso anfitrião.
A Courense. Estrada da Luz 193, 1500-348 Lisboa. De segunda a sábado, das 12:30 às 15:30.
Diogo Meneses e Luís Vieira, cozinheiros orgulhosamente saloios, de Torres Vedras, estão à frente desta tasca relativamente recente mas com muita história. O Petisco Saloio (Restaurante Guia Repsol) já foi O Buraquinho, uma casa familiar e popular para almoçar junto à Biblioteca das Galveias.
O casal de Paredes de Coura passou então o negócio a dois jovens cozinheiros com experiência de fine dining, mas com vontade de experimentar montar um negócio que lhes desse tempo para a família e alegria do dia-a-dia.
E quem não se enche de alegria de volta de petiscos como ovos rotos com farinheira, bochechas de porco, chocos com açorda de ovas e uns ilustres croquetes caseiros? Estes são alguns dos pratos do menu da noite, porque ao almoço toda a gente tem pressa — não a suficiente para se ficar com uma sandes, calma! Aqui há um prato do dia vegetariano, outro de carne ou peixe e há sempre bitoque. O menu fica por 14€ porque este continua a ser um restaurante popular.
Petisco Saloio. Av. Barbosa du Bocage 38, 1000-072 Lisboa. De segunda a sexta, das 12:00 às 15:00 e das 19:00 às 22:30. Sábados das 19:00 às 22:30. 217962989
Além de ter um hobbie, Américo tem orgulho no seu hobbie. É por isso que a apertadinha sala d’A Provinciana (Restaurante Guia Repsol) está coberta de alto a baixo de relógios feitos a partir de barris de madeira. Têm todos os feitios — redondos ou quadrados, do tamanho de uma pipa, em forma de pipa com mini-pipas dentro.
São uma excelente distração no caso de termos de esperar: esta é uma das mais concorridas tascas da Baixa lisboeta e já foi descoberta pelos turistas. Carla, na sala, felizmente é um Às a despachar serviço.
A sua mãe, Judite, está na cozinha e faz sair as especialidades: cabidela, chanfana, iscas, bacalhau e todas as maneiras e, na sua época, as indispensáveis sardinhas assadas. As pipas de Américo não são só feng shui — algumas deitam mesmo vinho, sobretudo o da zona de Castro Daire, a sua terra.
Finalize com uma belíssima torta de laranja e congratule-se por se ter sentado à mesa de um legítimo e resistente restaurante familiar desta cidade.
A Provinciana. Tv. do Forno 23, 1150-193 Lisboa. De segunda a sexta, das 12:00 às 15:30 e das 19:00 às 22:00. 213464704
Nas Laranjeiras, este é só para os sabedores. O Bom de Veras (Restaurante Guia Repsol) tem a sua clientela fixa e constante, muito levada por uma garrafeira completa, sempre em evolução. Nos pratos, apresenta-se com aquele requinte típico das reduções que decoram uma carne perfeitamente cozinhada repousada ao centro de um grande prato.
E que grandes pratos. A cozinha tradicional portuguesa é o ponto de partida e o de chegada não é longe — não há grandes invenções. Por isso temos um bacalhau à Brás, de batata cremosamente envolvida e com uma posta do peixe servida por cima — é a especialidade da casa.
De resto, há cozido em buffet, polvo à lagareiro e irrepreensíveis filetes de peixe galo ou os bifes com várias opções diferentes de molhos. No final, uma das melhores mousses de chocolate de Lisboa.
Bom de Veras. R. Abranches Ferrão 17A, 1600-296 Lisboa. De segunda a sexta das 12:30 às 15:00 e das 19:30 às 22:30. Sábado, das 13:00 às 15:00. 217266203.
Quantos segredos dos governos, futebol e negócios deste país estão para sempre encerrados na descrição do Sr. Nobre? Não sabemos e a sua elegância não lhe permite gabar-se desse número. António Nobre e Justa Nobre são um dos casais icónicos da restauração lisboeta (e nacional). Com O Nobre (1 Sol Guia Repsol) deram dignidade à cozinha portuguesa de sustância quando ela ainda não estava na moda. São, além disto, uma escola de hospitalidade.
Atualmente com morada no Campo Pequeno, no Nobre prova-se o prato estrela de Justa Nobre, a sopa de santola, algumas das suas criações mais inesperadas — como os canelones de sapateira com manga — e os pratos mais tradicionais de Trás-os-Montes, de onde a chef é natural. Na sua época há butelos com casulas e, volta e meia, uma feijoada à transmontana.
O Nobre. Av. Sacadura Cabral 53B, 1000-080 Lisboa. De domingo a sexta, das 12:00 às15:00 e das 19:15 às 23:00. Sábado, das 19:15 às 23:00.
Bertílio Gomes tornou-se um embaixador da cozinha do Algarve — por ter lá as suas origens e por ter colaborado com Maria Manuel Valagão em Algarve Mediterrânico (Tinta-da-China), um livro de investigação sobre tradições gastronómicas nesta região do país que o levou a descobrir produtos e formas de fazer.
É um pouco deste património que está à mesa da Taberna Albricoque (Restaurante Guia Repsol), em Santa Apolónia. Aqui há pratos tradicionais feitos com extremo cuidado na execução, como a cataplana de peixe, a canja de lingueirão, a abrótea arrepiada ou o xerém, mas também há uma cozinha de produto, inspirada pelo sul do país — prove-se a gulosa frigideira de polvo e batata doce.
O chef e proprietário mostra também como se criam novidades a partir da tradição ou leituras contemporâneas dos produtos de sempre — o tártaro de carapau com figos secos e amêndoas na folha de shiso é já um clássico desta casa.
Taberna Albricoque. Rua dos Caminhos de Ferro nº98, 1100-395 Lisboa. De quarta a sábado, das 12:00 às 15:00 e das 19:00 às 23:00. Terça, das 19:00 às 23:00. 927559359.
É difícil comer bem no Chiado? É. É ainda mais complicado se falarmos de uma cozinha portuguesa bem feita e temperada? Pois. E a um preço razoável? Nem se fala. É difícil mas, enquanto o Das Flores (Restaurante Guia Repsol) se mantiver na rua que lhe dá nome, a equação está resolvida.
É uma casa de mesa diária, talvez um pouco mais aprumada do que uma tasca, mas que não deixa de sê-lo, já que aqui a hospitalidade e o receituário são os mais característicos deste tipo de restaurante.
O bitoque é bom e os croquetes e pastelinhos de bacalhau são ainda melhores: mais do que uma entradinha, são uma excelente refeição, quando acompanhados de um arroz de tomate, por exemplo. A ementa vai naturalmente variando com os seus pratos do dia e esperam-se os clássicos - as grãozadas, as iscas, os arrozes. No final, as sobremesas caseiras: um pudim Abade de Priscos vistoso e um arroz doce que garante que na cozinha está uma mãe portuguesa.
Das Flores. Rua das Flores 76 78, 1200-195 Lisboa. De segunda a sexta, das 12:00 às 15:30. 213428828
Assim está explicada a especialidade da casa, as espetadas à madeirense em pau de loureiro — saem todos os dias. Os menus do dia não são, no entanto, de se descartar. Das pataniscas ao rancho, da vitela estufada ao polvo à lagareiro. Nesta casa simples, um pratinho tão corriqueiro como uma salada mista, pode deixar o comensal reconfortado.
O Soajeiro. R. do Merca-Tudo 16, 1200-267 Lisboa. De segunda a sábado das 12:00 às 15:00. 213975316,.
Evaristo e Graça vieram de Monção e abriram uma pequena casa para servir a melhor cozinha do Minho. Isto foi em 1974 e passados mais de 50 anos está construído o império. É Pedro Cardoso, o filho, que dá a cara (e todo o restante corpo, que ele é gestor, chefe de sala, relações públicas e mais) ao Solar dos Presuntos (1 Sol Guia Repsol).
Falamos de império porque, entretanto, o pequeno restaurante ocupa três andares e tem uma obra de arte do artista Vhils no terraço — uma homenagem ao casal fundador. Nas paredes, as recordações de uma vida: fotos de ilustres clientes ou simplesmente de clientes que se tornaram amigos; no serviço, simpatia e bons conselhos; nos pratos, a mesma cabidela e arroz de lampreia de sempre, um excelente cabrito ou pataniscas de bacalhau. Acrescentaram-se, com o tempo, receitas menos económicas e que assentam bem numa casa deste gabarito, como o arroz de lavagante ou um belíssimo tártaro de novilho.
Solar dos Presuntos. Junto ao Elevador do Lavra, R. das Portas de Santo Antão 150, 1150-269 Lisboa. De segunda a sábado, das 12:00 às 15:30 e das 18:30 às 23:00. 213424253
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