Desculpe, não há resultados para a sua pesquisa. Tente novamente!
Adicionar evento ao calendário
“Quase todos os dias no limite do risco.” É assim que Paulo Barata, de 57 anos, descreve a sua rotina nas rochas da Costa Vicentina, entre Sagres e a Carrapateira, onde apanha percebes desde os 9 anos. “Sou o único descendente de marisqueiros que ainda resiste aqui”, conta enquanto se equipa com um fato de mergulho, luvas e boné no cimo da falésia, antes de descer para mais uma manhã de trabalho.
No caminho, o seu carro, um Renault antigo que usa “mesmo para isto”, já tinha enfrentado a estrada esburacada para chegar à casa abandonada e cheia de graffiti nas imediações da Praia do Castelejo – um segredo de alguns que não vem nos guias – que é o seu ponto de paragem para ver a costa a Norte e a Sul. “A maré ainda está muito cheia, temos de esperar.”
O seu pai, também “nascido e criado em Vila do Bispo”, na ponta Oeste do Algarve, já apanhava percebes e o seu avô fazia o mesmo. “Até o meu bisavô e o meu tetravô”, continua. “Mas agora mais ninguém faz isto na minha família.”
Ainda assim, não se pode dizer que seja uma profissão em risco de extinção. “Dentro do Parque Natural são 80 licenças [profissionais] para a Costa Vicentina e estão todas preenchidas”, explica Paulo. “Mas a fazer vida disto é muito pouca gente, uns são polícias, outros bombeiros.”
Todos os anos, o ICNF e a Polícia Marítima fazem ações de fiscalização para garantir o cumprimento das regras na costa: a apanha está limitada a dois quilos por dia com licença lúdica e a 15 quilos no caso de uma licença profissional, com um tamanho mínimo obrigatório de dois centímetros por percebe, pelo menos em 75% do peso bruto da captura.
Depois há o período do defeso, quando a apanha na Costa Vicentina e na área do Porto Sines está proibida entre 15 de setembro e 15 de dezembro, para que a espécie se possa renovar – nas Berlengas o defeso é mais prolongado. “É muito tempo para quem faz vida disto”, diz Paulo, que nesse tempo se dedica à sua outra paixão, o ciclismo. “Três meses de férias e não recebemos nenhum subsídio.”
A descida até às rochas onde Paulo guarda as cordas e um escadote é complicada, mais ainda com a arrilhada, a ferramenta com uma lâmina na ponta usada para arrancar percebes. Paulo quase faz o caminho de olhos fechados e até já conseguiu levar consigo – e depois içar de volta – uma equipa de filmagens da China. “Já estou farto de reportagens”, suspira.
Mesmo assim, aceita levar-nos até um ponto onde o conseguimos ver dentro de água, no meio das rochas, em ação. “Este é o melhor percebe que há no mundo”, garante. “Tem a ver com a oxigenação.”
Os percebes encontram-se em zonas altamente oxigenadas, onde o mar bate com mais força e mais frequência, daí que a apanha seja “arriscada”, diz Paulo, que já apanhou vários sustos. O maior foi em março de 1988, quando o seu barco naufragou perto de Sagres e teve de subir a uma arriba para se salvar.
“A qualidade [do percebe] vem do mar, das correntes, de estarmos nesta zona do Cabo de São Vicente, do plâncton”, explica. “Mas também da qualidade da pedra. As pedras aqui são muito criadeiras, criam muitos percebes.”
Normalmente, Paulo costuma vender os percebes na lota ou ao restaurante Ribeira do Poço (Solete Guia Repsol), no centro de Vila do Bispo, com quem trabalha quase em exclusividade.
A funcionar há 24 anos, é quase um ponto obrigatório para petiscar naquela que pode ser considerada a capital do percebe – aliás, todos os anos, antes do defeso, a Associação dos Marisqueiros de Vila do Bispo e a Câmara Municipal juntam-se para organizar o Festival do Percebe (ou Perceve, como se diz por aqui, ambas estão corretas), com bancas de petiscos e música.
“Desde que era miúdo que me lembro de virem pessoas de todo o lado – de Lisboa, de Faro, do Porto – comer aqui percebes”, conta Álvaro Soares, o dono do Ribeira do Poço, onde os percebes rondam os 45 euros/quilo e também a moreia frita é popular.
Se noutras zonas do país, servem-se frios, aqui vêm quentes, quase a escaldar. “Aliás, se servir percebes frios a alguém daqui, levo um pontapé”, brinca Álvaro. São cozidos na hora e há clientes que chegam a pedir quatro quilos. “Como um grupo de espanhóis que comeu um quilo cada um e pediu-me para ir trazendo”, conta.
Álvaro está habituado a dizer percebes em várias línguas – goose barnacles em inglês – e a explicar como se come: “Há uns que roem a casca e outros que querem comer de faca e garfo”, conta. “Mas assim não se sente o verdadeiro sabor a mar.”
Ribeira do Poço. Rua da Ribeira do Poço, 11, Vila do Bispo. De terça-feira a domingo, 13h-22h. Encerra à segunda-feira. T. 282 639 075
Em geral… como classificaria o site do Guia Repsol?
Dê-nos a sua opinião para que possamos oferecer-lhe uma melhor experiência
Agradecemos a sua ajuda!
Teremos em conta a sua opinião para fazer do Guia Repsol um espaço que mereça um brinde. Saúde!