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Entre Vilamoura e o barrocal, onde agora estão campos relvados para golf a perder de vista, já estiveram alguns dos terrenos mais férteis do Algarve. “Era onde as pessoas plantavam as melancias, o tomate, o feijão. Os meus avós desciam aquilo tudo, atravessavam a Nacional 125 para irem a Vilamoura vender o excedente na praça e trocavam por peixe. As pessoas no Algarve, mesmo no barrocal, sempre viveram com muito peixe”, conta Bertílio Gomes.
As suas raízes estão no Algarve e estas histórias e vivências antigas não o largam. Depois de ser co-autor do importante livro Algarve Mediterranico — Tradição, Produtos e Cozinhas, de Maria Manuel Valagão, abriu a Taberna Albricoque em Lisboa, onde a “identidade do Sul” espoleta uma cozinha elegante e de produto.
A rua junto à estação de Santa Apolónia é pródiga em restaurantes há pelo menos uns 100 anos. Talvez seja um exagero chamar-lhe restaurantes, mas ali havia umas quantas tabernas onde petiscar qualquer coisa, aproveitando o movimento dos caminhos de ferro. Neste espaço com duas salas e arcadas de pedra, já funcionou uma dessas casas populares. “Achei que, com esta história, era um bom sítio para mostrar esta cozinha”, diz Bertílio sobre este restaurante que abriu em 2019 e que ganhou a distinção de Restaurante Guia Repsol em 2025.
“Este restaurante nasceu da necessidade de fazer um espaço despretensioso, sem procurar reconhecimento; apenas para fazer uma cozinha autêntica”, diz, marcando assim uma viragem na sua carreira, depois de trabalhar em casas com uma cozinha com intenções mais requintadas, como o VírGula (no Cais Sodré, entretanto encerrado) ou o Casa da Comida. Nesse percurso por Lisboa, Bertílio Gomes conquistou alguns clientes que o seguiram até aqui, e também por causa deles e dos seus pedidos, este não é um restaurante do Algarve.
“Tenho lampreia!”, avisa — coisa que não se come pelos Algarves. E na sua época tem também o cabrito estonado, outra iguaria bem regional, da zona de Oleiros, no centro do país. No entanto, nesta Taberna Albricoque, a influência mãe e indisputável é o Sul. “Está em tudo: na forma como se come, como se colocam os alimentos na mesa; na simplicidade dos produtos e na forma elegante como são tratados, com cozeduras ligeiras, por exemplo. E no petisco”, resume.
No Sul, o petisco pode ser uma religião, trazida à mesa desta casa com pratos de entrada que convidam a partilhar, antes de se avançar para outros mais portentosos que evocam os nossos conhecimentos sobre a cozinha algarvia e alentejana, como um xerém ou um jantarinho de grão.
Antes, então, o petisco acompanhado por uma curadoria de vinhos bem interessante, de todo o país, ou pelas cervejas algarvias Marafada e Abaladiça. Entre pratinhos se recria afinal o prazer alongado da mesa, como se faz ao balcão das tabernas do Sul. Para isso, há os impecáveis rissóis de berbigão, a moreia frita (a que Bertílio chama torresmo do mar), uma canja de lingueirão ou uns espargos verdes cozinhados em várias texturas na sua época.
Nos petiscos da carta se mostra também esta ideia de uma identidade que é transportada para o aqui e agora e não necessariamente uma repetição de um receituário regional. “O tártaro de carapau é um exemplo dessa mistura entre o que é passado e o que é agora”, considera o chef, “leva uma salga, é temperado com figos e amêndoas, mas depois vem numa folha de shiso, que parece completamente estranha a todos estes ingredientes”.
Um peixe abundante e popular, servido com outros produtos da região, numa confeção mais ao gosto contemporâneo e com um toque oriental. Tornou-se um ex-líbris da casa e é um exemplo de como a investigação do chef sobre os produtos algarvios e as suas ligações culturais estão neste restaurante.
Com Maria Manuel Valagão, investigadora que assinou em 2015 o livro da Tinta-da-China sobre a cultura gastronómica algarvia, passou três anos em viagens, entrevistas, visitas a mercados. “Aproximou-me muito de alguns produtos. Por exemplo, o pau roxo, uma cenoura primitiva, era muito consumida de dezembro a março, mas deixou de se ver. Trouxe-a do mercado de Quarteira e mostrei à minha mãe como se estivesse a mostrar uma grande coisa e ela só me perguntou onde tinha arranjado o pau roxo. Era uma coisa que se dava aos miúdos nas festas para andarem a roer, comia-se nas tabernas e havia até a festa do pau roxo em Albufeira”, conta.
A cenoura roxa até pode beneficiar de uma certa popularidade, em sessões fotográficas com produtos biológicos, coloridos e viçosos, onde até pode parecer exótica. No entanto, depois de sete anos de experiência na Taberna Albricoque, Bertílio Gomes nota que estes produtos da cultura popular estão cada vez mais afastados da maioria das pessoas. “Há um nicho de pessoas que procuram estas coisas, mas muita gente tem uma alimentação padronizada e desconfia se vê moreia ou abrótea num menu”, afirma. Nesta casa, a abrótea serve-se arrepiada, de carne firme e sedosa, com tomatada alentejana. Medo para quê?
“Há um nicho de pessoas que procuram estas coisas, mas muita gente tem uma alimentação padronizada e desconfia se vê moreia ou abrótea num menu”, afirma. Nesta casa, a abrótea serve-se arrepiada, de carne firme e sedosa, com tomatada alentejana. Medo para quê?
Taberna Albricoque. Rua dos Caminhos de Ferro nº98, 1100-395 Lisboa. 927 559 359. Terça-feira, das 19h às 23h; de quarta a sábado, das 12h às 15h e das 19h às 23h.
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