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O cliché é que os Açores são a terra das vacas felizes. Slogan criado por uma empresa de publicidade, mas que a visita ao arquipélago parece confirmar. Aqui, as vacas vivem ao ar livre, muitas vezes à beira-mar, onde se alimentam praticamente apenas de pastagens verdejantes.
As ilhas representam 2,5% da superfície terrestre de Portugal mas produzem cerca de 30% do leite do país, muito do qual acaba por ser transformado em queijo. Visitámos três queijarias de escalas de produção diferentes, bem como um excelente afinador de queijos em São Miguel, para podermos ter uma imagem de como se faz aquele que será o produto mais famoso da região.
“Esta é a maior fábrica de São Jorge, a segunda maior dos Açores”, diz-nos Norberto Andrade, responsável pelo turismo da União de Cooperativas Agrícolas da Ilha de São Jorge, mais conhecida como Uniqueijo, enquanto entramos nas instalações de produção com tamanho para ser um hangar de aviões. A escala é impressionante, mas a cooperativa destaca-se também por produzir aquele que é, sem dúvida, o queijo de referência dos Açores: o Queijo São Jorge DOP.
Para obter a certificação DOP, os queijeiros da ilha são obrigados a cumprir, nas palavras de Andrade, “muitas regras”, que, entre muitos outros aspetos, determinam que o leite deve provir de vacas da raça Holstein-Frísia criadas em São Jorge e alimentadas com as pastagens herbáceas da ilha, que o leite não é pasteurizado e que os queijos curam durante, pelo menos, três meses.
Na Uniqueijo, este processo tem início com a entrega diária de 20 mil litros de leite na fábrica. Esta é uma verdadeira cooperativa, sendo os produtores que fornecem o leite os proprietários da marca.
O leite é transferido para sete cubas de 5000 litros, onde é aquecido e se adiciona o coalho. Algumas horas mais tarde, o soro é drenado e o sal é incorporado na coalhada, num processo que combina maquinaria e intervenção manual. A coalhada salgada é depois colocada em moldes plásticos redondos, sendo prensada durante dois dias para extrair ainda mais soro.
Os queijos, já com a sua forma arredondada, mas ainda macias e brancas são depois transferidos para uma câmara de secagem refrigerada, onde são revestidos manualmente com uma camada de cera para prevenir infecções bacterianas e, ao longo de duas a quatro semanas, virados diariamente.
Seguem então para uma das várias grandes salas de cura com temperatura controlada (a unidade, no seu conjunto, tem capacidade para curar 200 mil queijos), onde irão curar durante um mínimo de três meses e até um máximo de três anos. É também aqui que os queijos são provados para controlo de qualidade.
“Testamos para avaliar o sabor, o aroma, a textura, a crosta e a forma”, explica-nos Norberto, acrescentando que os provadores recorrem a um sistema de classificação numérica. “Se obtiver mais de 15 pontos, é considerado Queijo São Jorge DOP”, diz-nos, referindo ainda que os queijos que não cumprem os critérios são classificados como Queijo da Ilha ou, no caso da marca, como Beira, não sendo curados por mais de quatro meses.
Aquilo que começou por ser 120 litros de leite é agora um queijo redondo que pesa entre os 8 e os 12 kg. Os últimos passos incluem a remoção da camada de cera e a divisão e o empacotamento dos queijos para a distribuição.
Depois da nossa visita pela fábrica, somos levados para um café onde nos oferecem três variedades de queijo. O Beira, curado por três meses, é cremoso e relativamente suave; Norberto afirma que este queijo é especialmente popular entre os locais. O Queijo São Jorge DOP, com sete meses de cura, apresenta um equilíbrio perfeito, mas com uma acidez e concentração que começam a emergir, e uma textura mais firme. Já o Queijo São Jorge DOP curado durante 24 meses revela um sabor agradavelmente intenso e picante, com uma textura quebradiça e cristais de tirosina que, em parte, conferem ao queijo uma crocância subtil e um sabor salgado e complexo.
A Ilha Terceira alberga uma indústria leiteira em grande escala (as vacas da ilha produzem até 150 milhões de litros de leite por ano), mas neste caso, mais associada à produção de leite e manteiga do que de queijo. Contudo, existem produtores de queijo na ilha, sendo o mais conhecido, sem dúvida, a Queijo Vaquinha. Ao contrário das grandes fábricas leiteiras da ilha, que compram o leite a agricultores independentes, a Vaquinha mantém o seu próprio rebanho de 50 a 60 vacas. “Ainda seguimos métodos tradicionais de produção”, afirma Zita Cota, proprietária de segunda geração. “Fazemos tudo à mão, somos uma pequena fábrica.”
Para nos mostrar, Cota leva-nos para fora das instalações de produção, onde as vacas da marca andam livremente em pastagens de um verde quase esmeralda que se estendem até ao mar — como fazem durante cerca de dez meses por ano. “Queremos que comam o máximo de erva possível”, diz-nos Zita, “a prioridade é sempre a erva.” Apenas durante alguns meses no verão, as vacas são alimentadas com silagem, uma mistura de feno e milho, segundo nos explica.
Quase todas as vacas da Vaquinha são da raça Jersey, uma relativa raridade na ilha, escolhida pelo elevado teor de gordura do leite que produzem, mais adequado para a produção de queijo. Zita acrescenta que a capacidade máxima da Vaquinha é de 2500 litros de leite por dia: “Não queremos crescer para além disso.”
Na Vaquinha, todo esse leite é pasteurizado antes de se transformar em cinco queijos distintos. A queijeira afirma que o Tradicional da marca, um bloco retangular sem sal, curado durante um mês, é “o queijo mais antigo da ilha”. Apresenta uma textura macia e um sabor ligeiramente ácido que nos faz lembrar um cheddar ao estilo americano.
O Picante, por sua vez, é um pequeno queijo redondo, temperado com pimenta da terra, uma massa de malagueta omnipresente na Terceira. Já o Tipo Ilha, uma roda maior de 10 kg, curada durante três meses, é denso, subtilmente salgado e intenso — algo fora do comum na Terceira, aproximando-se mais de um queijo de São Jorge. “Na Terceira, temos muitos queijos leves e suaves”, explica Zita, quando lhe perguntamos o que distingue os queijos desta ilha.
Outro aspeto singular da Queijo Vaquinha é a sua ligação ao turismo. Antecipando, talvez, um aumento de visitantes à ilha, em 2002, o pai de Zita transformou uma antiga sala de ordenha num centro de visitantes com café e um restaurante simples. Hoje, a queijaria Vaquinha tornou-se uma paragem quase obrigatória para quem visita a Terceira. “Setenta por cento do queijo que produzimos é vendido aqui, na loja”, conta-nos.
Estamos nas Flores, a ilha mais ocidental dos Açores, a atravessar de carro uma paisagem quase irreal de falésias, caldeiras e cascatas. A ilha foi outrora um importante centro de produção de lacticínios, em particular de manteiga, mas hoje restam apenas duas queijarias e é para uma delas que nos dirigimos.
Na pequena aldeia da Fajãzinha, na costa oeste da ilha — tão distante de Lisboa quanto é possível estar em Portugal, chegamos ao nosso destino: a Queijaria Pico Redondo. Esta pequena unidade de produção caseira foi fundada há pouco mais de 20 anos por Ilda Henriques, natural da aldeia.
“A minha mãe e a minha sogra já faziam o queijo fresco para vender às pessoas, no comércio e de porta em porta”, conta-nos. “Depois comecei eu também a fazer e a vender.” Hoje, devido a problemas de saúde, Ilda conta com a ajuda de duas mulheres, que asseguram grande parte do trabalho.
Chegamos depois do almoço, o leite do dia — cerca de 175 litros — já foi pasteurizado e coagulado na oficina da queijaria, pouco maior do que um quarto. “Antigamente, tínhamos os nossos vacos”, conta-nos Ilda, utilizando um vocábulo já perdido no continente, quando perguntamos de onde vem o leite. “Era mesmo para a nossa produção. O meu marido já estava cansado de ir ordenhar, e optámos por passar a comprar o leite.”
Depois de drenado o soro, as duas trabalhadoras seguem os mesmos passos que vimos noutras queijarias, embora numa escala muito mais reduzida, e em cerca de meia hora aquele leite transforma-se em 20 pequenos queijos frescos. Depois de serem prensadas durante a noite, seguem para um dos poucos frigoríficos com prateleiras de arame, onde irão curar durante pelo menos 15 dias.
Quando saímos, por volta das duas da tarde, as funcionárias de Ilda Henriques já estão a limpar o espaço; o trabalho do dia está concluído. O resultado é um queijo macio, cremoso e suave, com um final subtilmente herbáceo — delicioso com o pão de milho açoriano, ligeiramente adocicado.
É pouco provável que a maioria das pessoas consiga saltar de ilha em ilha à procura de queijarias como nós fizemos, mas, se só pousarem em Ponta Delgada, São Miguel, a melhor alternativa é uma visita ao O Príncipe dos Queijos.
“Eu sempre tive o sonho de abrir uma loja de produtos originais”, diz Milton Bernardo, proprietário do espaço. “E, por acaso, já trabalhava com o meu pai.” O pai é Carlos Bernardo, fundador da lendária O Rei dos Queijos nos anos 1970. Após décadas a trabalharem juntos, em 2015, o mais novo concretizou o sonho e abriu a sua própria loja em Ponta Delgada.
O Príncipe dos Queijos oferece uma grande variedade de produtos açorianos. No dia da nossa visita, um grupo de turistas nacionais enche a loja, comprando conservas de peixe, ananases, doces, uma vasta seleção de vinhos e licores, e frascos de pimenta da terra. Mas o grande destaque é, naturalmente, o queijo — evidente não só no nome da loja, mas também nos enormes exemplares que revestem as paredes do interior.
O coração do espaço é um longo balcão igualmente repleto de queijos; basta mostrar interesse por um deles para que Bernardo pegue numa pequena faca e raspe a superfície exposta, oferecendo uma prova.
Provamos queijos de São Miguel, São Jorge (“Este fica ótimo com banana”, Bernardo diz-nos, “mesmo muito bom”), do Pico e da Graciosa, todos curados durante 24 meses num armazém de Bernardo, cada um com características distintas.
Não surpreende que, dada a tradição queijeira dos Açores, a grande maioria dos queijos da loja seja feita com leite de vaca. Ainda assim, Bernardo tem também queijos de leite de ovelha e de cabra provenientes de Santa Maria, bem como um queijo de cabra de São Miguel. Perguntamos quantos tipos diferentes de queijo tem e se cobrem as nove ilhas dos Açores. “Tem perto de 50, à vontade. Todas as ilhas, menos o Corvo. No Corvo, a fábrica está fechada, nunca mais fez.”
Antes de sairmos, perguntamos o que torna o queijo açoriano tão único. Bernardo responde sem hesitar: “Tem tudo a ver com o leite. E o segredo também, não é?”
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