Desculpe, não há resultados para a sua pesquisa. Tente novamente!
Adicionar evento ao calendário
Será que estamos num hotel que parece uma galeria de arte ou numa galeria de arte que parece um hotel? Ou estaremos, afinal, no coração de uma cave de Vinho do Porto com longas filas de pipas e toneis e uma garrafeira com referências do século XIX?
O Tivoli Kopke Porto Gaia é tudo o que o visitante quiser que ele seja, dentro deste cardápio de opções. Por trás do muro burgundy que o separa das ruas de pedra da zona histórica de Vila Nova de Gaia, convivem obras de Miró, Joana Vasconcelos, Tàpies, Basquiat com Portos centenários e 150 quartos de luxo.
O hotel, inaugurado em 2025 e cujo investimento rondou os 50 milhões de euros, demorou cinco anos a ficar pronto. Durante as obras foram respeitados alguns elementos antigos, como a casa da família de Nicolau Kopke, comerciante de Hamburgo que fundou a Kopke em 1638, ou as caves de Vinho do Porto, que ainda hoje estão em funcionamento. Há até duas visitas guiadas por dia, gratuitas para os hóspedes e sem necessidade de marcação (19h15 e 19h45). Os visitantes externos pagam €25, com um cálice incluído.
O Vinho do Porto liga toda a narrativa do hotel, quer na demarcação das áreas - White, Ruby e Tawny - quer nos tons escolhidos para os quartos e zonas comuns. As fotografias a preto e branco de Domingos Alvão (1869-1946), retratos vívidos do Douro e das gentes que conheciam os seus socalcos, reforçam esta ligação.
Mas há outras narrativas dentro do Tivoli Kopke Porto Gaia. O proprietário Juan Carlos Escotet, multimilionário espanhol presidente do Kopke Group e do ABANCA, é colecionador de arte, o que ajuda a explicar o mergulho nas artes visuais que é entrar neste hotel.
Das coleções privadas da Escotet Family Estates e do ABANCA, o curador Fernando Filgueiras selecionou um conjunto de obras modernistas e contemporâneas, essencialmente de autores ibéricos, que estão expostas nas áreas comuns do hotel.
No portão de entrada somos recebidos pela Infanta Margarita de Manolo Valdés; as escadas principais são tomadas por Valquírias de Joana Vasconcelos; o SPA, aberto das 8h às 19h30 e cuja marcação para a piscina interior, banho turco e sauna é obrigatória, está apadrinhado por Jean-Michel Basquiat (1960-1988); a caminho do pequeno-almoço, tropeçamos em duas obras da série Bookshelf de Xavier Mascaró, bem como em reproduções de Pablo Picasso (1881-1973) e Salvador Dalí (1904-1989).
Já se quisermos fazer uma prova de vinhos no Kopke Wine Jazz, aberto de terça a domingo e com música ao vivo a partir de quinta-feira, vamos ter a companhia de Joan Miró (1893-1983), Elías Crespin e novamente de Manolo Valdés. E do Pool Bar, que dá serventia à piscina exterior, conseguimos ver ao longe as esculturas Bríxida y Breogán de Cándido Pazos.
Umas obras estão mais evidenciadas, outras camufladas na paisagem, fazendo com que nunca nos cansemos de passear pelos corredores e varandins do Tivoli Kopke Porto Gaia. Não é todos os dias que convivemos com a presença de Vhils, Ron Arad, Manuela Pimentel ou Juan Genovés (1930-2020). O catálogo completo desta impressionante coleção pode ser consultado online, algo que aconselhamos vivamente, se não quiser perder nenhum dos tesouros escondidos.
Noutra corrente artística: é Nacho Manzano, que assina o menu do gastronómico 1683 Restaurant & Wine Bar e do Boa Vista Terrace, restaurante de receituário mais tradicional. A entrada do chef asturiano da icónica Casa Marcial (3 sóis Guia Repsol Espanha) no universo gastronómico português é uma tomada de posição ambiciosa do Tivoli Kopke Porto Gaia, para quem os prémios certamente serão uma meta.
Se eles chegam ou não, dependerá em muito no modo como a experiência de fine dining evoluirá e se consolidará com o tempo, ela que está assente no cruzamento da cozinha do Norte de Portugal com a das Astúrias e na harmonização dos pratos com os vinhos do Kopke Group. Tudo sob o olhar atento das cores vistosas de três quadros de Alexander Calder (1898-1976).
“A nossa cozinha é de humildade, de proximidade e de sabor, muito à imagem de Nacho Manzano”, diz Tony Salgado, chef executivo do hotel. Todos os pratos são pensados em conjunto e com viagens entre os dois lados da fronteira, para que os territórios e as tradições se mesclem à mesa.
O galo e a abóbora, servidos em caldo e numa crista de milho com parfait, tanto nos podem lembrar o capão de Famalicão como o Pitu de Caleya das Astúrias. O mesmo se passa com o lingueirão e as percebes, em água de tomate e creme de alga codium, que ora nos levam para o mar Cantábrico, ora para a nossa costa atlântica. Já o arroz doce, cremoso, é uma sobremesa tão digna de uma mesa minhota como o é o arroz con leche para os asturianos.
No decorrer da refeição, onde também nos é apresentada a vitela minhota-galega (ou maronesa ou barrosã, na escassez da primeira), a truta do Douro ou o pato com boletos, salicórnia e puré de cherovia, vamos constatando, prato a prato, a similaridade entre as gastronomias das Astúrias e do Norte de Portugal, lembrando-nos, talvez, que existe mais diálogo onde muitas vezes julgamos ver diferendos.
Essa raiz comum é-nos servida num menu de 10 ou 12 momentos, sem qualquer espalhafato (€110 e €140, respectivamente), à qual pode ser acrescentado um paring de vinhos (a partir de €45).
Neste capítulo, nota-se o dedo de Priscila Haddad, Wine Educador do Kopke Group, ao trazer o Vinho do Porto para a refeição, tal como já tinha feito no 1828, aquando da sua passagem como Wine Manager no World of Wine. O sommelier Albert Willyan é a expressão direta do trabalho de bastidores de Priscila, ao qual dá o seu cunho pessoal, mostrando-nos que um vinho com 30 anos não tem de ficar fatalmente preso a uma sobremesa ou que um branco envelhecido pode ser tão nobre quanto um tawny.
No fim das contas, contrastes, carácter e terroir sobressaem de toda a experiência, com muito mar e muita terra em justaposição e o rio Douro a correr ao fundo, como se fosse mais uma das obras de arte do hotel.
Tivoli Kopke Porto Gaia. R. Barão de Forrester, 69, Vila Nova de Gaia. 224 105 600. Preço: a partir €220 por noite.
Em geral… como classificaria o site do Guia Repsol?
Dê-nos a sua opinião para que possamos oferecer-lhe uma melhor experiência
Agradecemos a sua ajuda!
Teremos em conta a sua opinião para fazer do Guia Repsol um espaço que mereça um brinde. Saúde!