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Entre maio e outubro, os dias são mais bonitos, as dificuldades tornam-se mais fáceis, as horas são mais preciosas e a vida no geral é mais saborosa. Porque o tempo é melhor? Porque é neste período que vamos mais de férias? Porque há festas e feiras e festivais? Tudo isto são hipóteses, mas há uma certeza: porque é entre estes meses que é possível pescar sardinha. É a época dela, que é o mesmo que dizer que é a época do nosso contentamento.
É provável que se houvesse sardinha o ano inteiro, a nossa relação com a dama dos mares que nos rodeiam não fosse tão especial. Sendo esta a realidade, resta-nos aproveitar. É um dever. É uma obrigação. Ninguém come sardinha como nós, aqui neste terraço à beira do mar. A nossa costa está rodeada pela ilustre protagonista da grelha, uma guarda de honra que pede sal, lume e carinho.
Estamos prontos para isso e ajudamos na tarefa: eis dez locais de norte a sul onde a sardinha é rainha. Se rima é porque falamos de poesia.
“Quem é o Gomes”, perguntará o incauto visitante, julgando fazer graça com aquilo que acredita ser apenas uma personagem criada para dar charme ao nome de um restaurante — arte bem mais difícil de concretizar com sucesso do que pode parecer à primeira vista. Gomes é apelido, o primeiro nome é Senhor Gomes, o homem da grelha, o vulto, a individualidade, a personalidade da Tasca do Gomes (Solete no Guia Repsol). Bastava este laço nunca desatável entre criador e obra criada para nos levar a ocupar um lugar nesta mesa. Mas depois sabemo-la situada na praia da Amorosa, areal convidativo a caminho de Viana do Castelo. Sabemo-los mestres do peixe vasto no mar do norte do país. E sabemo-lo local de peregrinação, de reservas antecipadas e de satisfação garantida. Queremos ir. Venham as sardinhas.
Tasca do Gomes: Rua da Amorosa 1760, 4935-580 Viana do Castelo. Telefone: 963 444 892. De terça a sábado, das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h. Domingos, das 12h30 às 15h. Fecha à segunda.
Rossio é palavra antiga, substantivo comum, de tal forma habitual que são várias as localidades onde encontramos um destes espaços que em tempos ficavam para lá dos limites das das cidades. Áreas vastas e abertas, eram usadas por toda a população, muitas vezes para fins comunitários, de objetivos positivos e com resultados positivos para toda a gente. Aveiro também tem um rossio e de tal maneira o espaço é importante que O Augusto (Solete no Guia Repsol) tem o vocábulo no nome próprio. E o que também tem graça é que há coisas vindas da etimologia da palavra que se mantêm neste restaurante: o usufruto da comunidade e os bens maiores com finalidade — neste caso, das melhores sardinhas da região. Ora digam lá que não merece uma visita e talvez até uma degustação?
Rossio “O Augusto”: Largo do Rossio 8, 3800-246 Aveiro. Telefone: 234 424 576. De quinta a sábado, das 12h às 00h. Domingo, das 12h às 15h. Fechado de segunda a quarta.
Chega-se a esta terra e estamos noutro sítio. Diz a geografia e as medições de quilómetros que é já ali, que não fica assim tão longe neste país relativamente curto, mas tão vasto nas suas estreitas medidas. E de repente perdemo-nos… reencontremo-nos a caminho da Figueira da Foz, a caminho de Buarcos, terra de pescadores, com algumas das melhores sardinhas do país no Mar à Vista. Não é exagero, é factual. É a sardinha quem manda, com peixe do dia a acrescentar à carta e marisco para compor o quadro. Não faça contas desnecessárias: peça as sardinhas que as travessas sucedem-se. Coma enquanto conseguir e enquanto houver. A batata é de referência, a salada é de tempero decidido. Tudo o resto é um enorme logo se vê.
Mar à Vista: Rua 5 de Outubro 92-94-96, 3080-271 Figueira da Foz. Telefone: 233 107 271. De sexta a quarta, das 12h30 às 19h. Fecha às quintas.
Diz a tradição da humanidade que toda a gente sabe de um bom sítio para comer sardinhas em Peniche. Mesmo quem nunca as comeu na dita cidade (oh, sacrilégio) está certo de que há uma morada infalível, uma cozinha insuperável, uma grelha absoluta. Tudo isto acontece provavelmente porque poucos locais neste país são sinónimo de sardinha como Peniche. Terra de pescadores, foi colocada naquela península pelos deuses das coisas do mar para dele tirarem todas as riquezas. Sorte a de Peniche, sorte a nossa e sorte a de quem se senta nos bancos corridos da Toca do Texugo, ali de frente para o mar bravo, enquanto a sardinha sobre o lume vai rodando, vai revelando o seu molho, vai chegando à travessa e atravessado-se na nossa memória. Mesmo que tenham todas as certezas sobre a sardinha em Peniche, não deixem de visitar esta Toca.
Toca do Texugo: Caminho do Outeiro, Estrada Marginal Norte, 2520-217 Peniche. Telefone: 262 783 852. De terça a domingo, das 12h às 15h. Fecha à segunda.
A 30 de maio deste ano, o restaurante Viriato fez uma publicação no Facebook (todas as pistas indicam que estamos, de facto, perante um restaurante tradicional) que apresentava um poster que dizia “está aberta a época da sardinha!”, assim mesmo, com ponto de exclamação no final. Depois, firmava os outros dois elementos importantes: um número de telefone para reservas e o aviso de que o dia para descanso do pessoal é a terça-feira. Com estes dois dados na mão, só não se entrega quem não quer. E quem não quer é porque não conhece O Viriato, que em Cascais não complica, só desdobra as complicações em bom peixe fresco sobre o fogo, que foi para isso que o dito se fez ao mar e do mar nos chegou.
O Viriato: Avenida Vasco da Gama 34, Avenida Emídio Navarro 23b, 2750-509 Cascais. Telefone: 214 868 198. De quarta a segunda, das 12h30 às 19h às 23h. Fecha às terças.
Tem muita graça isto de associar determinado prato ou ingrediente a uma localidade tendo em conta as respectivas características geográficas ou o contexto socioeconómico que marca determinada população. Isto a propósito de Carnide, que não respeita nenhuma destas marcas identitárias: não fica junto ao mar nem é terra de pescadores. Pois bem, fiquem a saber que a sardinha é quando a pessoa proprietária de restaurante quiser e quando a época de defeso assim determinar. E o Paço de Carnide respeita as duas exigências, dedicando a atividade ao bem receber, com boas vindas que têm na grelha, seja a do peixe ou a da carne, a sua maior valência. É um mimo ver as travessas a passar o naco na pedra merece atenção e a vitela também. Mas não nos dispersemos: estamos aqui pelas sardinhas, boa gente.
Paço de Carnide: Rua do Norte 11, 1600-537 Lisboa. Telefone: 217 161 144. De segunda a sábado,das 12h às 15h e das 19h às 22h. Fecha ao domingo.
Nesta Casa Ideal (Restaurante Guia Repsol), com nome mais do que honesto e com morada numa ruela que, mais curva menos curva, desagua no Tejo, há um grande problema: escolher. O peixe segue da lota para a grelha e é tratado com carinho raro de encontrar. A comida de tacho, do arroz à caldeirada, faz-nos suspirar pela próxima visita. A frigideira é uma sabida, tanto no linguado como no bife (não se enganem, é dos melhores que podem provar). E até o momento da sobremesa se faz cerimonial, do bolo folhado ao mais clássicos dos pudins. Mas não deixe cair este truque: na dúvida, peça as sardinhas, generosas, suculentas, acompanhadas por uma salada de pimento que merece vénia. Tão fácil, para quê complicar — e se estiver fechado, ande uns metros e vá à Marítima, a equipa é a mesma.
Casa Ideal: Rua Tenente Maia 22, 2825-863 Trafaria. Telefone: 212 950 898. De quarta a domingo, das 12h às 15h30 e das 19h às 22h30. Segundas, das 12h às 15h30. Fecha às terças.
As duas coisas mais importantes da Tasca do Isaías estão no estabelecimento à vista de todos, na rua, mesmo antes de entrar: a churrasqueira, meio que enterrada na parede do restaurante, a querer dizer-nos o óbvio, que este sítio é feito disto e para isto; e uma placa com o nome “Isaías”, pendurada a meio da fachada, ali ao lado com uma ementa que volta a dizer “Isaías”. Agradecemos as apresentações, as dúvidas (quais dúvidas) estão esclarecidas e resta-nos a entrega total a uma das localidades em todo o país (e é uma verdade absoluta) onde a sardinha é melhor e é mais bem feita. O Isaías está entre as múltiplas esquinas desta terra de pesca, o cheiro espalha-se como felicidade ao vento e só ainda não foi lá aquela individualidade que tem estado distraída ou com falta de critério. Avançai.
Tasca do Isaías: 741, Rua Coronel Barreto 2, Sesimbra. Telefone: 914 574 373. De segunda a sábado, das 11h às 15h, das 19h às 22h30. Fecha ao domingo.
Uma casa de referência que nos ajuda a relembrar que as coisas simples são as mais importantes. E isto não é poesia. Há muito sentimento nesta afirmação, mas é verdadeiro, nunca duvidem. Voltando ao assunto prioritário: a Adega de Sines (Solete no Guia Repsol) é centenária (mais do que isso, vai a caminho dos 50 anos de vida) e alcançou tal feito muito por culpa da ambição singela de servir bem e alimentar os visitantes de espírito familiar. A tarefa cumpre-se sobretudo por culpa de duas iguarias. Uma delas, popular e servida ao longo do ano inteiro, é o frango, afamado e bem assado. A outra, quando chega a época dela, é a sardinha, saída do mar local e cuidada com mestria e tradição. Um sonho enorme concretizado num espaço pequeno mas inacabável.
Adega de Sines: Rua Gago Coutinho 40, 7520-155 Sines. Telefne: 269 632 595. De segunda a sábado, das 12h às 15h, Fecha ao domingo.
Portugal é um país recheado de idiossincrasias, de muitas virtudes, de algumas dificuldades, de traços de personalidade inescapáveis. E, já que estamos numa de assinalar evidências mais do que óbvias, é um país que parece construído para ser trono da sardinha, com algumas geografias mais dadas ao fenómeno do que outras. O Algarve nasceu para isto e Portimão é só mais uma das terras em que nos perguntamos “onde é que eu vou comer sardinhas nesta terra em que toda a gente parece ter sido feita para isto?”. Pois bem, vá à Taberna da Maré (Restaurante Guia Repsol). Três questões: o espaço é castiço e, em conseguindo lugar na esplanada, ficará a ganhar; as sardinhas são óptimas; e pode dar-se o caso de acabar a comer outra coisa, antes, durante ou depois das ditas protagonistas. Está a par daqueles sítios em que tudo é bom? Ora bem: este é um deles.
Taberna da Maré: Largo da Barca 9, 8500-755 Portimão. Telefone: 282 414 614. De terça a domingo, das 12h às 22h30.
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