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Inês Guerreiro alimentava há muito um sonho romântico: abrir uma geladaria. Daqueles sonhos distantes, quase inocentes, que não parecem caber na vida real. A rotina preenchida com três filhas, quatro cães e carreiras sólidas — ela como cirurgiã, e o marido, Tiago, como dentista — tornava essa possibilidade mais improvável.
Ainda assim, a cada viagem que faziam, lá se encontravam os dois numa geladaria, a provar e a imaginar como seria: “Nem sei bem onde nasceu essa vontade, mas sempre procurei provar os melhores gelados. E depois há o próprio ato de servir, o detalhe, a bolacha por cima. Há ali qualquer coisa que me fascina desde criança”, conta Inês, que em 2025 se atirou de cabeça e criou o Gelato-Ria, um Solete Guia Repsol.
O nascimento da terceira filha acabou por marcar um ponto de viragem na vida do casal: “Tive algumas complicações de saúde e, quando recuperei, era a altura certa para tentar algo novo”. O sonho da geladaria voltou então a ganhar força e, mais depressa do que imaginava, o improvável aconteceu. Fizeram uma proposta para uma loja para trespasse no Mercado de Olhão, sem grandes expectativas e dias depois, precisamente no aniversário de Inês, receberam a confirmação de que tinha sido aceite. Sem experiência na produção de gelados partiram para Itália para aprender.
Foi lá que conheceram Viviane Cirignano, especialista em gelados artesanais italianos, que rapidamente se tornou a grande mentora do projeto.
Com ela, Tiago fez o seu primeiro curso de geladaria e, já em Portugal, aprofundou conhecimento e prática na Casa Optima School, em Vilamoura. A aprendizagem revelou-se natural para quem já estava habituado ao rigor técnico e ao trabalho minucioso. “Seguimos as receitas com muita atenção às medidas e aos tempos. É um trabalho muito manual e de detalhe”, explica o dentista, enquanto acrescenta mais caramelo ao preparado do gelado de Dom Rodrigo.
O resultado é um gelado mais cremoso, intenso no sabor e com menos ar incorporado — como um verdadeiro gelado italiano. Desde o primeiro dia, há um ano, os gelados são produzidos no próprio espaço, numa pequena cozinha escondida no interior da loja, onde tudo está impecavelmente organizado e limpo, à semelhança de um consultório dentário. Só que aqui recomendam-se doces — em doses controladas.
Os sabores mudam todas as semanas, ao ritmo das estações. O pistácio — feito com matéria-prima vinda de Itália — é um dos sabores permanentes, ao lado da avelã, morango, maracujá, manga ou tangerina. Fazem testes e experiências, como o iogurte grego com framboesa e lima, que o Tiago anda a preparar para o Verão.
Outro detalhe importante para o casal é a utilização reduzida de lactose, presente apenas em dois ou três sabores. A opções deve-se, não só, a questões de saúde, mas também à textura final do gelado — cremoso, leve e fácil de digerir.
Para Inês, a experiência de comer gelado está também na bolacha: “O gelado termina no cone e, se a bolacha não for de qualidade, pode estragar tudo. Daí a minha loucura com os cones”, explica. As bolachas são produzidas em Itália e dividem-se entre as clássicas — baunilha e chocolate — e versões especiais, como chocolate com pistácio ou baunilha com bolacha. Também a forma de servir segue fielmente a tradição italiana: o gelado é trabalhado com espátula e batido antes de chegar ao cone.
No meio da loucura que a vida pode ser, a Inês e o Tiago encontraram o espaço e a coragem para concretizar um sonho. Agora, sempre que servem um gelado e observam a reação do outro lado do balcão, confirmam aquilo que já suspeitavam: um gelado vale sempre a pena.
Gelato-Ria. Av. 5 de Outubro 59, 8700-306 Olhão. Abertos todos os dias, das 11h às 22h.
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