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Restaurantes tradicionais em Lisboa

Não precisa de apanhar a A8 para chegar ao Petisco Saloio

Atualizada: 16/07/2026

Texto: Catarina Moura

Fotografia: Marisa Cardoso

Em Lisboa, dois jovens cozinheiros com experiência no fine dining decidiram dedicar-se a uma cozinha tradicional, para o cliente de todos os dias. Uma nova tasca à antiga com sabor a Oeste.
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Numa das estreitas transversais das Avenidas Novas, junto ao Campo Pequeno, Luís Vieira abre o porta-bagagens do seu carro para tirar duas frondosas couves tronchudas. São bem grandes e mal se vê Luís a atravessar a rua — parecem só folhagens flutuantes. Entrar no restaurante sem partir as folhas é outra logística: o Petisco Saloio tem uma porta pequena e espaço interior para menos de 20 pessoas.

As couves já ocupam metade da bancada da cozinha e ainda faltam as nêsperas — tudo um carregamento do Oeste, de onde vem boa parte dos produtos aqui usados, fornecidos por vizinhos, família ou conhecidos e que ajudam a dar propriedade ao nome do restaurante.

Desde o início, a identidade saloia do Oeste é importante para Diogo Meneses, fundador desta casa, e Luís Vieira, que se juntou mais tarde. São ambos de Torres Vedras e querem que a palavra saloio se use com orgulho por aqui, com toda ligação ao campo, às receitas populares e a um trato simpático. Assim pegaram numa antiga tasca com lastro de Paredes de Coura e fizeram outra, com influências do Oeste: o trabalho valeu-lhes a distinção de Restaurante Guia Repsol.

Ao jantar, uma mesa no Petisco Saloio faz-se com um rol de petiscos
Ao jantar, uma mesa no Petisco Saloio faz-se com um rol de petiscos

Em 2018, estava aqui O Buraquinho, de um casal minhoto. Diogo e o seu primeiro sócio procuravam um espaço como este, depois de anos a trabalhar em fine dinings: que servisse a população trabalhadora da zona, com uma comida honesta e saborosa; que lhes desse a oportunidade de um ritmo de trabalho mais controlado, com mais tempo para a família. É por isso que aqui toda a equipa de cinco pessoas tem duas folgas semanais, não trabalha ao domingo e se evitam os horários repartidos.

O conceito de restaurante para resolver todas destas exigências do negócio foi, afinal, a boa e velha tasca — com mais regras, é verdade, mas uma verdadeira tasca. Os pratos vêm de uma casa de velharias em Loures, um garrafão da cooperativa de Torres Vedras abençoa o espaço, e escreve-se a ementa nos azulejos da parede ou nas ardósias. A estética pode ser tradicional, mas aqui não há uma lista infinita de pratos e uma porta sempre aberta, como é mais habitual nestas casas: o horário e ementas controladas ajudam a equipa a ter a tal qualidade de vida procurada.

Ao almoço, reinam os pratos do dia, além do sempre presente bitoque
Ao almoço, reinam os pratos do dia, além do sempre presente bitoque

O que há para Petisco, saloio?

Na ementa, aos almoços, todos os dias há bitoque e dois pratos que vão rodando. Assim se garante um menu de 14 euros — imbatível na zona. “Já tentámos ter petiscos ao almoço, mas com uma equipa pequena não dá, e já percebemos que quem trabalha perto quer o menu de almoço, quer comer rápido”, conta Diogo Meneses.

Neste menu, anunciado na ardósia virada para a pequena esplanada, vão passando pratos os clássicos de uma tasca lisboeta e é à noite que sai a carta de petiscos, com alguns dos mais tradicionais elevados pela técnica — como o pica-pau ou o camarão ao alho — ou algumas criações feitas a partir do receituário tradicional e dos produtos que vão estando em época. Os chícharos, o tomate ou a chachola de porco podem andar pelo menu de jantar, juntamente com os sempre presentes polvo, estufado à lavrador (por exemplo, osso buco) e os bem recheados croquetes.

De Torres Vedras para Lisboa, Luís Vieira e Diogo Meneses são os saloios do Campo Pequeno
De Torres Vedras para Lisboa, Luís Vieira e Diogo Meneses são os saloios do Campo Pequeno

Os vinhos que acompanham são outra das exigências dos dois sócios — e uma paixão, quando se fala dos naturais, há sempre alguns pelo menu, além de uma seleção bem composta de referências de todo o território.

Neste capítulo, o objetivo é partilhar este interesse com o cliente, mais do que apenas vender garrafas. “Sou completamente contra haver pressões do serviço para o cliente gastar mais, sugerir-se um vinho só porque é mais caro”, diz Diogo. “Queremos ser honestos, generosos e receber bem, porque depois o cliente volta com um amigo e, a longo prazo, isto é mais vantajoso”, conclui.

O camarão ao alho não é completamente tradicional: servido no ponto, com uma salada de rúcula e laranja
O camarão ao alho não é completamente tradicional: servido no ponto, com uma salada de rúcula e laranja

À sobremesa, de um bolo de bolacha alucinado (envolve, por exemplo, Baileys) ao arroz doce feito pela sogra de Luís, a sugestão é acompanhar-se com uma das aguardentes ou outras espirituosas que nos levam até Torres Vedras. Ou, por falar em fazer essa viagem, com o A8, o cocktail da casa que lembra a autoestrada que estes dois saloios não se cansam de apanhar.

Petisco Saloio. Av. Barbosa du Bocage 38, 1000-072 Lisboa. De segunda a sexta, das 12h às 15h e das 19h 22h30; sábado, das 19h às 23h. 217962989.