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Numa moldura à janela do Sazanami está a foto do guru espiritual jamaicano Mooji, a razão pela qual o japonês Gautam Higashino descobriu São Martinho das Amoreiras, uma pequena freguesia rural no concelho de Odemira, no Baixo Alentejo. Há 16 anos, antes de Mooji comprar o Monte Sahaja e montar uma comunidade e centro de retiros, a terra estava condenada à desertificação, como tantas outras no interior do país. Agora, há pessoas de mais de 30 nacionalidades a viver na povoação, quase metade dos habitantes, contas de uma recente reportagem da RTP, “O Mundo na Aldeia”.
Gautam, natural de Osaka, no Japão, é uma delas. Começou por visitar a comunidade “nas férias” até que, em 2019, se mudou definitivamente com a família para ajudar na logística de abertura da Casa Nirvana, um café e restaurante entretanto adquirido pelo Monte Sahaja, também em São Martinho das Amoreiras.
Antes disso, viveu em Londres, onde tinha um “bom cargo” no Japan Center, uma empresa britânica com várias lojas, especializada na importação de produtos japoneses. “Era mais gestor: organizava projetos, criava novas receitas e kits de comida”, conta. “Trabalhava muito com chefs na cozinha e era responsável pela distribuição e importação de ingredientes e produtos japoneses.”
Vir para Portugal foi uma “grande decisão”, diz. “Mas nunca me arrependi. Sou muito mais feliz aqui.” Há quatro anos, abria o Sazanami, um pequeno restaurante no meio da aldeia, no espaço de uma antiga taberna que estava ao abandono. Antes disso, pouco antes da pandemia, o plano era abrir um restaurante japonês no Rossio, no centro de Lisboa, que sofreu sucessivos atrasos com licenças. “Foi o pior timing”, recorda. “Mas acabou por acontecer aqui, numa escala muito mais pequena.”
Pequena é a palavra. No Sazanami cabem, no máximo, 15 pessoas, a maioria ao balcão onde Gautam prepara o sushi em frente dos clientes. Muitos são locais ou pertencem à comunidade. Outros são curiosos que fazem vários quilómetros para conhecer o improvável restaurante japonês no meio do Alentejo. “Fico surpreendido. Há pessoas que vêm de Lisboa, outras de Coimbra, fazem quatro horas de viagem”, continua.
Gautam começou a preparar sushi a pedido de amigos em Itália, onde também viveu. “Muita gente pensa que a maioria dos japoneses faz sushi. Mas não é verdade. Então, pensei: porque não?” A brincadeira tornou-se mais séria e, em Portugal, começou por fazer entregas de sushi. Primeiro, para “servir a comunidade”, e depois, já com o restaurante a funcionar, chegar a mais gente. “A única coisa que fiz foi pôr a localização no Google Maps.”
O menu é pequeno e o sushi, entre os 4 euros (o menu solo, de 6 peças) e os 14,50 euros (o menu quarteto) é a razão de visita da maioria dos clientes. Recomendam-se também as gyozas, vegetarianas ou de camarão, e o prato do dia, que vai variando. “Não é nada muito elaborado”, explica Gautam.
“As pessoas acham que a comida japonesa é só sushi, o que eu percebo, mas queria mostrar aqui uma coisa mais comum, mais do dia-a-dia. Comida normal, aquilo que gosto, basicamente. Como soba [um tipo de massa] ou, por exemplo, okonomiyaki [uma panqueca salgada japonesa, o prato desse dia].”
O grande trunfo são os produtos japoneses, do miso à soja, sem esquecer a cerveja, alguns também disponíveis para venda. Já o peixe fresco é um desafio, garantido através de um vendedor de peixe local. “Estamos a uma hora da costa e isso acaba por ser uma limitação”, confessa Gautam. “Se fosse um restaurante de sushi junto ao mar, onde há sempre peixe fresco, seria mais lógico.”
Quando as entregas se atrasam também pode ser mais difícil. “Não temos grande capacidade de armazenamento e se, por acaso, falta alguma coisa, tenho de ir ao Algarve buscar”, continua o japonês. Conseguir pessoas para trabalhar – em dias mais movimentados são três – também pode ser um problema. “A comunidade é pequena. É difícil manter pessoas a longo prazo porque não há muito volume de trabalho.”
Ainda assim, o número de clientes do Sazanami – a funcionar de quarta a sexta ao almoço e ao jantar e ao sábado apenas ao almoço – tem aumentado. De tal forma que convém reservar com antecedência, através de mensagem no WhatsApp – há pouca rede na aldeia. “Enquanto o restaurante for sustentável já é suficiente para mim. Não estou à espera de um grande negócio.”
Sazanami. Rua do Mercado, 3-5, São Martinho das Amoreiras, Odemira. Quarta-feira a sexta-feira, 12h-15h30 e 18h-21h30, sábado 18h-21h30. T. 932 270 272
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