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A lata tem pinta, a lata reclama por dignidade. Que o diga a centenária conserveira Pinhais, de Matosinhos, uma das fábricas onde o método tradicional de produção ainda é respeitado em toda a linha. A colocação do peixe é feita à mão, mantendo os filetes íntegros, os molhos são tão caseiros quanto os de um tacho em lume brando lá de casa e as latas, seja da marca Pinhais, seja da Nuri, desenvolvida para os mercados internacionais, são embrulhadas à mão.
Não bastando todo este cuidado, a conserveira surpreendeu os consumidores no final de 2024 ao lançar um Garfo de Sardinha Nuri em parceria com a marca portuguesa Herdmar, de Guimarães. O garfo, qual tridente de Neptuno, é vendido separadamente ou numa bonita caixa com dois exemplares e uma lata de Sardinha em Azeite Picante (€21,50).
Parece um capricho burguês falarmos de cutelaria para conservas - e talvez seja, até certo ponto. Mas a verdade é que o garfo, para lá da sua função prática, estética e de marketing, traz uma mensagem muito mais relevante com ele: a de que as conservas são um produto de elevada qualidade e que merecem ser olhadas por nós com outra atenção.
Atualmente, já há mais de 30 espécies de peixe colocados em lata em Portugal - embora o atum continue a ser dominante. Nos dias 29 de julho, 5 e 12 de agosto, entre as 17h e as 21h, na Mercearia Criativa, em Lisboa, celebra-se esta indústria, a sua variedade e qualidade no CLÃ — Clube de Literacia Alimentar.
Estas sessões dedicadas às conservas portuguesas serão a primeira iniciativa do CLÃ, um projeto da empresa de Edgardo Pacheco e Joana Pratas, especializada na consultoria e organização de eventos gastronómicos. Nestes dias haverá muita lata para abrir e degustar: atum com batata-doce, bacalhau em azeite com alho e salsa, biqueirões, carapau em azeite picante, cavala com caril, fígado de bacalhau, polvo em azeite com temperos, ovas de sardinha, peixe-espada, ventresca e por aí fora.
“Tem havido uma preocupação das empresas conserveiras em mudar um bocadinho os procedimentos técnicos de trabalho, em selecionar as matérias-primas e capturá-las no momento certo, em escolher as gorduras usadas e aquilo que colocam em lata”, refere Edgardo Pacheco, crítico de gastronomia e de vinhos e uma das caras da Ideias A/O Lume, empresa versada na cultura alimentar.
No que diz respeito à inovação e à excelência da matéria-prima, Edgardo aponta exemplos como o da Casa do Portinho, da Terceira, que trabalha várias espécies açorianas - chicharro, atum patudo, veja, bicuda - todas elas fumadas. Ou então a Fausto, marca “de um rigor e exigência fabulosa no que coloca dentro da lata”, seja sardinha ou petinga da costa portuguesa, capturada entre setembro e outubro, ou o atum skipjack dos Açores.
Mas uma coisa é falar, outra é provar. Por isso, Edgardo, juntamente com a consultora Joana Pratas, a sua cara metade na Ideias A/O Lume, decidiu passar das palavras à ação, lançando o CLÃ - Clube de Literacia Alimentar. “Quero criar uma comunidade de pessoas que tenham vontade de provar o que quer que seja. Não se trata de impor um gosto, mas de abrir e educar o gosto e de criar experiências sensoriais”.
Nos encontros do CLÃ, as conservas estarão muito bem acompanhadas por espumantes e vinhos brancos da região Távora-Varosa, “a única região do mercado em Portugal cujos vinhos espumantes são 100% certificados com DO (Denominação de Origem), sublinha Edgardo Pacheco. À primeira vista, pode parecer estranho harmonizar conservas com espumantes, mas o crítico gastronómico explica que “os espumantes funcionam muito bem com as conservas, porque têm uma acidez e frescura interessantes para equilibrar a intensidade do peixe, do azeite e dos molhos e aromáticas”. Isso nota-se, especialmente, nas conservas com tomate, que são “sempre um desafio na questão da harmonização”.
Com esta iniciativa, o CLÃ quer deixar uma mensagem bem clara: nem as conservas devem apenas ser despejadas numa massa para desenrascar, nem os espumantes devem só borbulhar quando há um brinde a fazer e podem ser consumidos sem ser preciso gastar uma fortuna: “Vamos mostrar espumantes de diferentes perfis, que podem custar €10 ou €50”. Nas conservas, idem-aspas. No final do dia, o que nós queremos é que toda a gente se vá divertir e aprender”.
Os elogios que se têm multiplicado em torno das conservas portuguesas estão a mexer com a indústria e as inovações e avanços não estão apenas na diversificação de matérias-primas e na preferência pela qualidade. Podem estar também na forma como este produto antigo se comunica hoje. Veja-se o caso da ESIP (European Seafood Investments Portugal), conserveira de Peniche, fundada em 1915 pelo indústrial Júdice Fialho. A empresa tem no seu portfólio marcas com história e reconhecidas internacionalmente, como a Marie Elisabeth, mas só em 2013 começou a vender para o mercado português.
A estratégia passou por abrir uma loja junto à fábrica, com uma arquitetura inspirada nos barcos de madeira, e por lançar uma marca de sardinha em azeite picante “100% penicheira”, a Peniche Can (€6, o par de latas).
“Quisemo-nos abrir à comunidade e mostrar às pessoas o que fazemos”, diz João Santos, diretor da ESIP, enquanto nos guia numa visita à zona de produção. Aqui, sob a proteção de um azulejo de Santa Justina, trabalham cerca de 1000 pessoas. “Dizem que enquanto a Santa aqui estiver, a fábrica não fecha”. E convém que assim seja, dado que estamos a falar de um dos três maiores produtores de conservas do país, responsável por 122 milhões de latas anuais.
A Peniche Can é, por assim dizer, um simples grão de areia nesta praia gigante que é a ESIP. Porém, a marca quer continuar a louvar a sardinha de Peniche, seja em conserva, seja na integração em saladas e noutros produtos prontos a consumir.
Antes da ESIP, já outras grandes empresas do ramo, como a Ramirez (a mais antiga conserveira portuguesa e uma das mais antigas do mundo), elevavam a parada. Criam submarcas a partir de diferentes espécies, desenvolvem novos modos de conservação, apuram receitas de molhos, mostrando, assim, a versatilidade e a delícia que é o nosso peixe em conserva. Abra uma destas 10 latas e prove a indústria portuguesa de sempre com qualidade para as mais exigentes mesas de hoje.
1. Nuri: Sardinha em azeite picante (€4,95, 125g)
Abrir esta lata é simplesmente um deleite. A sardinha é conservada em azeite, pepino, pimenta, cenoura, sal, cravinho, pimenta preta e louro. Delicada e cheia de sabor, faz um brilharete à refeição, sem custar os olhos da cara.
2. Cocagne: Filetes de Cavala em azeite (€19,73, 125g)
A Cocagne, marca fundada em 1906 e pertencente ao grupo Ramirez, é conhecida pelas suas conservas premium de filetes de sardinha, petinga e de cavala.
3. Conservas Nero: Filetes Peixe Espada Preto de Sesimbra em azeite (€5,85, 120g)
As Conservas Nero têm um dos portfólios de conservas mais interessantes do país: filetes de robalo em azeite, enguias de escabeche ou salmão em azeite com tomilho bela-luz da Arrábida são bons exemplos disso. Comece por provar estes filetes de peixe espada preto e diga-nos se não são uma delícia.
4. José Gourmet: Filete de Truta Fumada a Frio com Endro e Funcho (€12,90, 90g)
A escolha de produtos de qualidade, de produções controladas e artesanais, associada a um designer de autor, posiciona esta marca no mercado premium. O preço de uma lata pode atingir valores extravagantes, mas vale a pena perder a cabeça quando o rei faz anos.
5. Casa do Portinho: Bicuda Fumada com Açaflor (€10,50, 227g)
A Casa do Portinho, da ilha Terceira, é a primeira marca que produz pescado defumado de forma artesanal nos Açores. Trabalha com espécies locais, como a bicuda, conservada com açaflor (planta parecida com o cardo).
6. Minerva: Filetes de Cavala com Azeite Picante e pickles (€5,25, 120g)
A Minerva, fundada em 1942, é a marca premium da conserveira A Poveira. Entre as suas principais referências, estão estes filetes de cavala atlântica, conservados em azeite picante, malagueta fresca e cenoura e pepino em pickle.
7. Santa Catarina: Filete de Atum em azeite biológico (€3,30, 120g)
A pesca do atum é feita através do método salto e vara (pesca artesanal com cana). É uma das conservas portuguesas em destaque no World's 101 Best Canned Fish, do guia TasteAtlas.
8. Fausto: Petingas em Azeite virgem extra biológico (€8,60, 120g)
As petingas em conserva são deixadas em lata durante pelo menos seis meses antes de serem colocadas à venda, para enriquecer o sabor e a textura. São capturadas entre o final de setembro e outubro, época em que apresentam um teor de gordura mais elevado.
9. Briosa Gourmet: Biqueirão em Azeite Picante (€4,15, 120g)
Intensa, esta conserva pode ser consumida num simples canapé ou usada para intensificar um molho, uma salada ou uma pasta. Faz parte da linha gourmet da Briosa, conserveira da Figueira da Foz fundada em 1991.
10. Pinhais: Sardinhas temperadas em molho de tomate picante (€6,95, 125g)
Sardinhas, molho de tomate feito à base de polpa, azeite, cravinho, pimenta preta e louro, pepino, malagueta, cenoura e sal. Esta é a receita da Pinhais para uma conserva que foi idealizada para marcar a inauguração do museu da conserveira.
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