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Baixa de Lisboa, 2026. Como num futuro distópico, as ruas que toda a vida conhecemos continuam lá, no mesmo sítio onde, em tempos longínquos, existiam tascas e cafés, retrosarias, joalharias e pastelarias, as sedes dos maiores bancos, mais cafés e leitarias. Só que as ruas já não se compõem assim.
Os estabelecimentos perderam diversidade, as tourist-traps conquistaram terreno, as grandes cadeias internacionais instalaram-se em cada quarteirão com opulência, descaracterizando o coração de Lisboa e reduzindo-o à vulgaridade de uma cidade europeia banal. Então, porque é que aqui estamos? Porque, por qualquer razão, ainda temos esperança de encontrar um sítio redentor. Porque existe o Aurea. E o Aurea promete devolver-nos a felicidade da saudosa Lisboa, empratada com modernidade e imaginação.
Outrora, foi aqui o Café Cafouro, mais tarde Café Tofa, naquele rés-do-chão amplo de um prédio vistoso que, nas décadas mais recentes, esteve votado ao descuido, quase ao abandono.
Hoje recuperado, o edifício apresenta-se belíssimo, com todo o seu esplendor restaurado. O Aurea, que agora ocupa o espaço desse mesmo rés-do-chão cheio de história, está integrado no Art Legacy, um hotel tão refrescante quanto sumptuoso de que daremos conta mais adiante.
Para já, vamos sentar-nos à mesa e deixar que o chef André Serra nos conduza pela sua aventura de lisboeta em Lisboa. Tem um percurso muito curioso: André Serra passou por inúmeros lugares, trabalhou com diferentes chefs, correu mundo, viu, provou e aprendeu muita coisa. E, no seguimento dessa demanda, deu consigo de volta ao ponto de partida, a sua Lisboa de sempre, embora seja hoje uma cidade diferente daquela que o viu crescer.
Em maio deste ano, André Serra representou Portugal na final internacional do prestigiado Global Chef’s Challenge, em Newport, País de Gales. Independentemente da classificação, que valeu à equipa portuguesa uma medalha de bronze, só o facto de se ter apurado para a final do concurso - depois de uma prestação brilhante na etapa anterior, em Rimini, Itália, onde conseguiu um 2.º lugar -, é atestado suficiente para merecer o interesse e a curiosidade pela sua cozinha.
Quando conversamos acerca dos pratos, das técnicas e da própria conceção, o jovem chef de 28 anos descreve as suas criações como uma combinação da identidade culinária nacional, concentrada especialmente na tradição lisboeta, com a interpretação e a aplicação de técnicas importadas de outras paragens e de outras culturas. No fundo, pratica uma apropriação culinária saudável para nos satisfazer o palato com os sabores que sempre conhecemos. E fá-lo recorrendo ao produto local, fazendo a carta depender da estação.
Na ementa do Aurea, deparamo-nos com muito mar. Compreende-se: a identidade lisboeta passa também por aí. Tal como passa pelo leitão e pelas ervilhas com ovos escalfados e pelos enchidos, que André Serra faz questão de incluir na carta - numa nota à parte: o menu executivo do Aurea, disponível ao almoço, oferece sempre pratos tradicionais e “sem desvios”, do bacalhau à Brás à feijoada de choco.
Abordamos o chef. Começa a fazer calor, está um sol daqueles que, por mais voltas que se deem à Baixa Pombalina, só Lisboa pode ter. Portanto isto pede mar. E, de repente, entramos numa dimensão apoteótica da gastronomia nacional. Se há momentos que guardamos na memória, dois deles ocorreram a esta mesa: aquele em que provámos o Carabineiro e Raviolo, com sabores da caldeirada à portuguesa; e o outro, pouco depois, em que tivemos a felicidade de degustar o Salmonete com Escabeche.
Podíamos destacar o lírio, ou até os Rissóis de entrada, seria totalmente merecido - especialmente para o lírio. Ao longo da degustação, constatamos uma característica presente nos pratos chef que, por vezes, é discreta ou mesmo omissa a este nível gastronómico: o bom tempero e a ausência de receio de que os pratos sejam temperados e tenham sabores fortes. Portugal precisa de sal. Uma caldeirada não pode ser neutra! E André Serra sabe-o perfeitamente.
Se há casos em que a renovação da Baixa de Lisboa resultou num pedacinho de cidade melhor do que era dantes, este hotel é um deles. O projeto, da autoria do arquiteto Luís Rebelo de Andrade, consegue a proeza de devolver a imponência clássica e elegante do edifício a uma zona de Lisboa onde a tendência, hoje em dia, é enveredar pelo pechisbeque. Com acabamentos e decoração surpreendentes, coloridos e, contudo, adequadamente elegantes, o Art Legacy disponibiliza 53 quartos, sendo 7 deles suítes, distribuídas por diferentes categorias.
Entrar no Art Legacy é aceder de imediato a uma promessa de estadia feliz. Conforto, bom-gosto e atenção ao detalhe acompanham muito bem com a simpatia da equipa, que de imediato nos encaminha ao bar-lounge-restaurante - o Aurea, precisamente - para nos mimar com um cocktail ou um mocktail. É nesse momento que percebemos que isto pode ser o princípio de uma bela amizade. Afinal, vir à Baixa ainda vale a pena.
Aurea by Art Legacy. R. Áurea 183, 1100-063 Lisboa. Todos os dias, das 12h às 00h. Tel. 92 475 2244
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