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Aurora Goy senta-se connosco à mesa. É-nos servido um pequeno dashi (caldo muito utilizado na culinária japonesa) perfumado com katsubuchi (atum seco e fumado) para preparar os sentidos para a refeição. “Tenho tempo”, esclarece a chef de 37 anos, fazendo, quiçá, o seu antigo eu soltar um riso nervoso.
Há oito anos, quando abriu o Apego, hoje com 1 Sol Guia Repsol, tempo era coisa que lhe faltava. “Durante quatro anos, fui apenas eu e mais uma pessoa na sala”. Fazia almoços, jantares, brunches também, agarrando-se com unhas e dentes àquele que é o seu primeiro restaurante em nome próprio.
O tempo, qual mestre paciente, veio-lhe mostrar que desacelerar era o caminho. Que menos era mais e que em equipa podia extrair o melhor de si, como na natureza. Foi assim que, ao soprar as velas do oitavo aniversário, o Apego se mostrou no seu ponto caramelo: um restaurante que honra os produtos da terra e o tempo deles; que honra as pessoas e o tempo delas.
Aurora, Joana, Daniela, Milena e Marinente na cozinha. Victor e Bruno na sala. Carla como manager. Os nomes da equipa são apresentados ao cliente assim que ele passa a porta de entrada e vêm escritos no menu, junto com o dos fornecedores. São o reflexo de um ecossistema equilibrado, jovem, multicultural e cuja paixão pela cozinha transparece no trato e no prato.
O restaurante foca-se agora em dois menus de degustação, de cinco e de sete momentos, mais ou menos desapegados consoante o espírito aventureiro do comensal. Isso permite a Aurora fazer o que mais gosta: criar com o que a estação dá. “A cada dois meses, mudo o menu. Não gosto de repetir pratos”.
A exceção é o churro de parmesão, puré de cenoura e cenoura fermentada, que a acompanha há mais de um ano e que, por esta altura, vem com uma tartelete de ervilhas, favas e menta. Se a tartelete é “um jardim de primavera pela manhã”, o churro será, por sua vez, o sol do meio dia a ruborescer-nos as faces.
Aqui, exalta-se a matéria-prima entre a mínima intervenção e a técnica refinada, transparecendo a sensibilidade da equipa em conjugar frescura, profundidade de sabor e conforto. Em parte, isso reflete o percurso da chef luso-francesa, que estagiou com Guy Savoy e Alain Ducasse, dois dos grandes mentores do fine dining francês, e com José Avillez, no Belcanto, em Lisboa.
No Porto, apesar da aspereza dos primeiros anos, Aurora Goy encontrou o conforto das raízes nortenhas da parte da mãe e dos verões entre o Minho e Trás-os-Montes, sem esquecer a infância passada em Galliac, na região de Toulouse, e as memórias da cozinha do pai, também ele cozinheiro.
“Era muito comum comermos vegetais crus”, conta, para introduzir os rabanetes e couve de rábano com a maionese de cominhos negros e mostarda fermentada em cerveja. Minimalismo e sabor em estado puro, tal como na tarte tatin de tomate, cerejas do Fundão, sementes de abóbora, cerefólio, oregãos e granita de pepino e aipo.
De França trouxe também os patés, elemento sagrado da gastronomia gaulesa. No seu Apego, apresenta um cannoli de massa fresca de paté de fígado e frango, terminado com shisô, puré de cebola e um caldo anisado de inspiração vietnamita. O caldo, explica, vem de uma viagem que fez ao Vietname, mas ao longo da refeição encontramos referências de outras paragens.
O Japão, destino que ainda está fresco na sua memória, deu a Aurora o umami, os fermentados, o yakitori onde é cozinhado o prato do porco, ou o caldo de peixe, massa udon de trigo barbela, chili oil e alho frito que acompanha o sarrajão curado e braseado, uma das propostas mais musculadas de um menu avesso a lugares comuns.
Passeando-se pelas Rías Baixas, Minho, Douro, Dão, Colares e Açores, a harmonização com vinhos bebe desse mesmo espírito exploratório e da descontração de quem tira prazer do que gosta, sem querer agradar pelo óbvio. Cada vinho é um convite a adivinhar o prato que se segue e isso torna a refeição muito mais divertida e completa.
Chegados às sobremesas, o coscorão com mel de flor de laranjeira e granizado de flor de sabugueiro é belo e tenso sem ser austero; e o moshi de farinha de arroz e feijão azuki é tão ou mais interessante do que os moshis tradicionais japoneses, pela textura que o crumble de flor de sal lhe dá. Vem servido com gelado de morango fermentado, morangos frescos e uma calda de morango com vinho tinto.
Na despedida, é deixado um caderninho em cima da mesa, para cada comensal verter o que lhe vai no coração. Há línguas fáceis de identificar, outras desconhecidas, há abraços e beijinhos e até poemas criados no momento. De pessoas para pessoas, com tempero, terra e carinho. Assim é o Apego e que assim continue a celebrar muitos aniversários.
Apego. Rua de Santa Catarina, 1198, Porto. 937 172 342. 19h-22h (abre às 18h aos sábados); fecha domingo e segunda. Menu Apego - 5 tempos: €70 (€50 harmonização); Menu Desapego - 7 tempos: €90 (€60 harmonização)
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