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Fato, máscara, garrafa de oxigénio, cinto de pesos e barbatanas. Joaquim Parrinha, agrónomo e responsável pela escola de mergulho Ecoalga, confirma que ninguém se esqueceu de equipamento para visitar a Adega do Mar, a adega subaquática com perto de 17 mil garrafas a estagiar debaixo do mar, junto ao porto de Sines.
Os vinhos estão lacrados e guardados em caixas a diferentes profundidades, consoante as vontades dos produtores, que já são 27, de várias partes do país e até do estrangeiro. “As adegas mandam-me amostras dos vinhos, coloco-as debaixo de água a várias profundidades e vamos tirando”, explica Joaquim, que abriu o centro de mergulho em 2000, ainda sem vinhos. “No fim do tempo de teste, o dono do vinho diz-me qual é que gosta mais, a casta que quer pôr debaixo de água e avançamos.”
O projeto de uma adega subaquática começou a ganhar forma em 2013, quando Sines se preparava para receber a Tall Ships, uma regata com veleiros históricos de todo o mundo que em 2017 atravessaram o Atlântico. “Pensei que seria interessante pôr garrafas de um [vinho do] Alentejo, da nossa costa, debaixo do mar e depois oferecer aos comandantes dos navios para abrirem quando chegassem ao Canadá”, continua.
A experiência começou com alguns produtores da zona, como o Brejinho da Costa, em Pinheiro da Cruz, ou a Herdade do Cebolal, a dez quilómetros do mar, entre a Serra do Cercal e a Serra de Santiago, diz. “Fizemos um teste com duas garrafas, depois com dez e depois com 20. Quando, mais tarde, nos deram 800, percebemos que o resultado era positivo.”
De tal maneira que a Adega do Mar, como lhe chamou, passou a ser um projeto a full-time. "Tentávamos trabalhar [com a escola de mergulho] o ano inteiro, mas era difícil com o estado do mar, os portos, etc. Por isso, decidimos arranjar uma coisa que fosse menos sazonal, diferenciadora e inovadora e transformámos isto num negócio”, continua Joaquim.
Hoje, além das 17 mil garrafas que tem debaixo de água, tem outras “duas mil à espera de entrar” na zona entre o porto e a marina de Sines, onde funciona a sua adega.
Aos poucos, o projeto foi conquistando outros produtores, mesmo aqueles mais afastados da costa. É o caso da Torre de Palma, em Monforte, no Alto Alentejo, a 240 quilómetros de Sines, que decidiu o ano passado submergir 70 garrafas, incluindo dez garrafas Magnum, para ver o resultado.
“Parece que a evolução debaixo de água é mais lenta, que o vinho aguenta a frescura durante mais tempo, parece mais novo”, explica o enólogo Pedro Sanches de Baêna, de Torre de Palma. A diferença entre o mesmo vinho que estagiou em terra ou no mar é, aliás, percetível mesmo para quem não é especialista na matéria. “Não é preciso ser enólogo para perceber a diferença e esse era também o nosso objetivo, criar uma experiência para o enoturismo e para as nossas provas de vinhos.”
Este ano, o vinho do mar de Torre de Palma foi vendido num pack só para membros do clube da herdade e o objetivo é que se mantenha assim, um produto de nicho. “Todos os anos queremos mandar pelo menos 50 ou 100 garrafas para debaixo de água, não mais do que isso, porque o nosso objetivo não é a quantidade”, continua o enólogo. “É para um público muito específico.”
Num futuro próximo, querem também que os seus clientes de Torre de Palma possam ter a experiência de mergulho que Joaquim Parrinha organiza com a escola junto à ilha do Pessegueiro, em Porto Covo. “Fazer o batismo de mergulho, ir buscar uma garrafa nossa ao fundo do mar e depois, numa parceria com um restaurante local, prová-la.”
Na Adega do Mar, há produtores que apostam mais no perfil do vinho, influenciado pela profundidade, pressão e temperatura da água, e outros mais preocupados com o aspeto que a garrafa vai ganhando, “a caracterização”, diz Joaquim Parrinha, com conchas e vida marinha.
Será apenas marketing ou é também uma mais-valia para os vinhos? Essa foi uma das perguntas levantadas durante a Subaquatic Wine Experience, um encontro com produtores nacionais e internacionais de vinhos que estagiam debaixo de água, que em junho teve a sua segunda edição em Sines, organizado pela APENO – Associação Portuguesa de Enoturismo.
Num dos momentos do encontro, o sommelier Rodolfo Tristão pôs lado a lado vinhos envelhecidos no mar e em terra para que vários produtores e jornalistas dessem a sua opinião sobre qual funcionaria melhor.
Manuela Macedo, do Monte da Carochinha, junto à Sonega, trouxe para o evento análises que fez a alguns dos seus vinhos do mar e que sugerem que a evolução dos vinhos debaixo de água seja mais lenta. “O álcool baixa ligeiramente e a cor fica menos intensa no mar”, explica. “Tudo características de uma evolução lenta, com uma concentração grande das características de nascença do vinho. O que quer isso dizer? Se o vinho tiver características atlânticas, como o nosso, tudo isso fica mais acentuado.”
Tal como o Monte da Carochinha, também A Serenada, enoturismo em Grândola, não trabalha com a Adega do Mar. Em vez disso, aluga o seu próprio espaço subaquático à Administração dos Portos de Sines e do Algarve, através da Associação de Produtores de Vinhos da Costa Alentejana.
Foi um dos primeiros produtores a pôr vinhos debaixo de água, desde a experiência-piloto antes da regata Tall Ships. Quase dez anos depois, continua a fazê-lo de seis em seis meses, com castas como Verdelho, Gouveio, Jaen e Touriga Nacional. "Os vinhos ficam indiscutivelmente diferentes", diz Jacinta Sobral da Silva. "As condições de envelhecimento são ótimas. Cá em cima há muito mais variações. Um vinho mau não se vai tornar bom, mas há outros que podem tornar-se melhores."
Além da evolução do vinho, há outro fator que pesa. "As garrafas ficam bonitas e estamos a promover o território", acrescenta a responsável. Joaquim Parrinha, da Adega do Mar, diz que a aposta compensa. Até no valor das garrafas. "Há algumas que já chegam aos quatro dígitos."
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