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É fácil encontrar um restaurante que mude o seu menu com as estações, a sazonalidade tornou-se, afinal, um conceito. Virado para o Tejo, mesmo em cima da Marginal em Paço de Arcos, o Intemporal leva, no entanto, esta ideia ao extremo: aqui os menus mudam nos dias dos equinócios ou dos solstícios, como um evento de celebração destes fenómenos. E por muito que surjam outros produtos a meio das primaveras ou dos outonos, cada menu inaugurado a dia 21 mantém-se até ao fim da época. Como resultado, “vê-se a evolução de cada produto dentro da estação”, considera António Simões, chef.
A Casa do Fiscal, que há uns anos estava em ruínas, tornou-se em 2025 numa casa do fine dining. Se em tempos vinham aqui os pescadores para darem entrada da sua pescaria, antes de irem para a lota, agora o peixe e outros produtos chegam para ficar e para serem transformados num menu entre a criatividade e a técnica.
Foi Miguel Laffan que iniciou este percurso como chef consultor e assim se manteve durante um ano. Agora, António Simões, seu discípulo e nesta equipa desde o início, assume a dianteira da cozinha — “uma passagem super natural”, diz. Depois de passar por outros projetos com direção de Miguel Laffan, como o L’AND Vineyards, António Simões acompanhou o Intemporal desde o projeto, quando “ainda era só tijolo” e ambições.
O grupo português Wellow Network, com empresas nas áreas de recursos humanos, outsourcing, energia, telecomunicações, mediação imobiliária e seguros entrou com esta obra na área da restauração e a ambição foi, desde o início, ganhar as maiores distinções da área, confirma António Simões.
A arquiteta Paula Arez pegou então na velha Casa do Fiscal para fazer “uma caixa de jóias”. O edifício de dois andares parece, de facto, uma caixa, visto de fora; no entanto, visto de dentro, é uma sala luminosa e acolhedora de horizontes expandidos, graças à janela sobre o Tejo, do comprimento do restaurante. Esta grande atração, capaz de nos fazer perder horas — toda a sala de organiza em torno desta janela — fica no segundo andar, sentados nas meses, nem damos pela estrada; no rés-do-chão entramos pela cozinha, onde uma experiência ao balcão fica acessível a quatro pessoas.
Na sala superior, com lugar para cerca de 20 pessoas, percebe-se melhor a ideia do nome. Esta vista é uma definição intemporal de luxo e convida a ficar aqui sem limites de tempo.
Por outro lado, o menu: a tal demonstração dos tempos da natureza, mas também os tempos da cozinha e das suas produções. Ou das adegas. António Guerreiro é o sommelier responsável pelas harmonizações e a sua proposta de espumante para abrir a refeição carrega estas ideias de tempo. É um baga e arinto afinado pelo próprio na Bairrada, desde 2017, com a marca G.
A sua ideia é “proporcionar uma experiência diferente”, explica António Guerreiro, longe dos nomes mais badalados: surpreender com pequenos produtores e a maior variedade de castas possível — ou até bebidas inesperadas, como acontece na harmonização do prato “flat iron”, um corte de vaca fumado e grelhado no carvão, servido com uma referência ao milho frito, ananás dos Açores e miso. No copo, Gloriana, uma cerveja de Glória do Alentejo.
Todo o menu de verão — de seis ou 11 momentos — é pontuado por pequenas memórias e predileções do chef — seja uma remistura de um gaspacho, servido com uma intensa e gorda colherada de queijo de cabra, ou uma terrina de alho francês, com percebes e lingueirão, que é para António Simões uma definição de férias na costa — mineral, salino e luminoso.
Tudo isto aparece sem que haja referências biográficas à sua infância ribatejana, em Vila Franca de Xira ou às hortas dos pais. As memórias parecem funcionar apenas como pretextos, pontos de partida de ideias que vai juntando num exel. Para a estação fria já lá está a cabidela de pato da avó.
Com a mesma intenção aparecem ideias internacionais. O prato “khao soi” apareceu-lhe numa viagem, provou-o pela primeira vez numa roulote na Tailândia. Por causa dos seus sabores frescos e inesperados nos seus menus — o leite de côco quase exótico, as especiarias — resolveu introduzi-lo como um desvio no percurso da refeição. Já o tinha no menu de primavera e agora, neste menu de verão, com lula em vez de massa, frango e couve fermentada, mostra-se um potencial prato de assinatura, pronto para ser infinitamente alterado a cada estação.
Este percurso que termina com uma ode ao funcho e meloa e outra aos ingredientes da Amazónia, duas sobremesas da chef pasteleira Letícia Silva, promete manter-se até à entrada astral do outono, lá para Setembro.
Até lá, haverá tempo de pôr na mesa as 80 variedades de tomate dos produtores com que trabalham, ou outras tantas de meloa. Mesmo que os pratos se mantenham por três meses, António Simões promete que os produtos se vão revelar caleidoscópicos ao longo deste tempo e trazer sabores diferentes à mesa.
Intemporal. R. Vista Alegre, Nº 6, 2770-046 Paço de Arcos. Terça e quarta-feira, das 20h00 às 23h00; quinta a sábado, das 13h00 às 15h00 e das 20h00 às 23h00. Tel. 968 432 288. Menus 75€ a 120€ (sem bebidas incluídas)
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