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Boa notícias, chegámos à Madeira. Aterrámos e tínhamos à espera um motorista com um carro sumptuoso e champanhe fresco. É uma sensação difícil de superar, esta de aterrar na ilha maravilhosa e ser faustosamente recebido. O momento desperta na ideia o início de um velho disco dos anos 90, que começava assim: “ah, it’s time to relax”, e que depois continuava, “you know what that means, a glass of wine”, e prosseguia, “so go on, indulge yourself”. Vamos seguir a sugestão dos Offspring: tiramos os sapatos e deixamos que nos guiem.
O primeiro destino é o Belmond Reid’s Palace, no Funchal. O que nos traz aqui é, sobretudo, a comida - mais precisamente, o festival anual The Art of Flavours do Reid’s Palace, durante o qual vários chefs portugueses consagrados e distinguidos desfilam a sua arte e a dão a degustar aos convidados.
Este é o mais antigo e porventura mais emblemático dos hotéis da Madeira, célebre por, desde a sua fundação, ter acolhido grandes figuras da aristocracia, da política e da finança mundiais, e, em especial, do Reino Unido. É famosa, entre outras, a paixão de Winston Churchill, antigo primeiro-ministro britânico, pelo sítio. Churchill mantinha uma suíte reservada no Reid’s.
Percebemos de imediato o encanto, entendemos num instante a paixão, não carecem de explicação: um sítio assim arrebata-nos por simplesmente existir e ali estarmos. A elegância conservadora, os soalhos, o papel de parede, as tapeçarias, as fotografias antigas, os recantos, as salas de leitura e de jogos, o piano de cauda perdido numa curva do corredor e, claro, as vistas sobre a Baía do Funchal, tudo conjugado com o objetivo único de nos proporionar deleite. Formidável.
O pequeno almoço junto à piscina só vem confirmar as primeiras impressões registadas à chegada, no dia anterior. A serenidade da vista e do ambiente é sublimada pela sensação de habitarmos um gigantesco nenúfar que se ergue sobre o mar e a cidade, com o seu porto, lá ao fundo. Agradecemos o efeito balsâmico, que ajuda a sarar eventuais mazelas trazidas da noite anterior, por causa de um ou outro excesso etílico ou gastronómico durante a festa de receção do The Art of Flavours.
Antes do anunciado desfile de fine dining, há uma proposta que nos é feita em jeito de desafio, mas também de revelação: viajar até à costa norte da ilha, subir as encostas ao redor de Porto Moniz, e enfim descobrir o recanto encantado de Eugénia. Vamos.
A experiência culinária que o Reid’s anunciada como “exclusiva” chama-se Grandma Piedade’s Culinary Secrets e, apesar de a designação poder suscitar alguns sobrolhos levantados, a verdade é que se trata de um momento de regresso ao passado. A avó Piedade que dá nome à experiência é, de certo modo, a avó que todos tivemos - todos ou, pelo menos, os afortunados com avós que tinham forno de lenha para cozer o pão.
Eugénia, a cozinheira que também amassa o pão e mantém a horta e o jardim impecáveis para de lá extrair os legumes e as aromáticas de que necessita, é a guardiã dos segredos culinários dessa avó ideal que povoa a memória de uma infância comum, feita de pratos pedurados nas paredes da cozinha e da sala de jantar, de talheres desemparelhados, oriundos de conjuntos diferentes, de uma mesa farta e cheia de lugares, em redor da qual os convivas se apertam, mas onde cabe sempre mais alguém.
Os aromas e os sabores são inconfundíveis e inigualáveis: “É a cozinha da minha avó, tal e qual”, concordaram todos os presentes, cada um com seu país de origem, cada qual com sua avó primordial. Mais do que culinária, a experiência revela-nos humanidade e deixa à mostra tudo o que temos em comum quando nos sentamos a uma mesa autêntica. Somos muito mais semelhantes do que poderíamos supor.
De regresso ao Reid’s, teremos um jantar que contrasta com a experiência do almoço. Na sala privada do William, o restaurante principal do hotel com dois Sóis Guia Repsol, os convidados acedem em primeira mão, numa espécie de ante-estreia, ao The Art of Flavorus Stars Dinner. Esta sessão, que antecede o festival, permite-nos conhecer com mais detalhe e maior atenção o trabalho de cada um dos chefs presentes no festival.
Amanhã, quando as portas do Reid’s se abrirem para acolher toda a gente, o ambiente será mais conturbado, eventualmente confuso. Pelo contrário, ali, no recato da sala privada, poderemos apreciar o desfile, por ordem, com o pairing adequado (salvo uma ou outra exceção) e o menu por extenso, devidamente identificado.
O alinhamento foi razoavelmente longo, mas de qualidade muito elevada. O chef “da casa”, Francisco Avalada, abdicou do protagonismo e jogou pelo seguro, com um prato de wagyu, aipo e tutanto - mas o resultado foi, ainda assim, esplêndido. Ricardo Silva, do Onor, Paris (lírio, rabanete e caviar imperial), Tiago Bonito, do Éon, Porto (robalo selvagem, tupinambor, jus assado), e Lara Figueiredo, chef pasteleira do Contemporâneo, Lisboa (caranguejo, iogurte e bergamota), foram os que mais se destacaram, mas é muito difícil escolher os melhores num jantar onde todos são, sem exceção, excelentes.
Os vinhos da Vinedouro acompanharam o desfile, mas nem sempre estiveram à altura da qualidade dos pratos. Contudo, o Heritage Grande Reserva 2021 é absolutamente digno de nota, assim como o Special Edition 2021.
No último dia de experiências pela ilha, somos levados a passear de barco. Vamos de iate até à Ponta de São Lourenço, aquela peculiar formação geológica que, por norma, só conseguimos ver ao longe, lá do alto, antes da aterragem ou após a descolagem do Aeroporto Cristiano Ronaldo. Desta vez, porém, o programa fez-nos sentir ainda mais afortunados com um almoço de marisco e petiscos regionais a bordo, e ainda com direito a mergulhos livres nas águas límpidas da ponta da ilha, onde o mar do norte se junta às marés do sul.
Foi um momento precioso de relaxamento e lazer, de modo a repormos energia e apetite para a noite - a grande noite do festival. Chamam-lhe “food party”, mas podiam simplesmente chamar-lhe “feast”. Porque é isso mesmo, um festim de chefs de topo: são 20 bancas com propostas gastronómicas criativas e artísticas, acompanhadas por música e luzes, e até fogo de artifício ao fundo, no porto do Funchal - dizem-nos que são as sessões de seleção dos fogos para a passagem de ano. Pelo meio, é ainda lançado o livro Madeira: Recipes & Wonderings on the Atlantic Island of Eternal Spring.
O festim prolonga-se noite adentro. Os chefs que nos foram apresentados no jantar da noite anterior apresentam-se em versões mais práticas, em pratos de comer em andamento. Àqueles, juntam-se outros chefs com outros pratos, também prontos a comer enquanto se convive e celebra - não importa o quê; estar ali, naquele sítio, naquele instante, é motivo mais do que suficiente para festejar. Comemos pela vida e brindamos porque é bom viver.
Reid’s Palace. Estrada Monumental 139, São Martinho, 9000-098 Funchal. Tel. 291717171
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