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Há um antes e depois de Henrique Torres na história da gastronomia de Matosinhos. Foi Henrique, já falecido e conhecido como “O Rei das Marisqueiras”, que abriu as primeiras marisqueiras de Matosinhos, já lá vai mais de meio século. Por essa altura, a cidade estava cheia de tascas de pescadores. As marisqueiras vieram revolucionar a oferta.
Foi o primeiro passo para aquilo em que Matosinhos se tornou: um santuário de bom peixe e marisco, onde os peregrinos chegam de vários pontos do país e do mundo. O reconhecimento da UNESCO, em 2025, como Cidade Criativa na área da Gastronomia é o corolário desta longa história, que junta várias gerações da mesma família, a consumir e a servir.
Neste ecossistema rico, é necessário dar o mérito a quem está no início da linha: os pescadores que se fazem ao mar com valentia e as peixeiras que vendem a sua safra no Mercado de Matosinhos. Quem vai ao mercado, não só pode comprar e levar o peixe para casa, como pedir a um dos restaurantes que ali moram que o prepare, mediante o pagamento de uma taxa a rondar os €7 por pessoa. Todos ficam a ganhar.
Fora do mercado, a Rua Heróis de França é o coração da restauração. Porta-sim, porta-sim, ali estão eles prontos a mostrar os seus trunfos. Uns mantêm o aspecto tradicional de casa de pasto, como o Salta O Muro de António Moreira e Maria Palmira, lugar de muita simpatia e simplicidade e de especialidades como a caldeirada de peixe, o arroz de polvo no forno com filetes do mesmo e o peixe grelhado, sempre no ponto. Outros, como O Valentim, cuja sopa de peixe é ex-libris e a carta de vinhos criteriosa, fazem da exclusividade um mandamento.
No género e no trato, há restaurantes para todos os gostos e bolsos. Os três que lhes damos a conhecer são um aperitivo do melhor que irá encontrar em Matosinhos. De uma coisa pode ter a certeza: sairá satisfeito e com vontade de regressar a qualquer um deles.
Pouco antes de abrir portas, Fernando - assim só, como o nome do restaurante - roda pela equipa de sala e de cozinha para garantir que está tudo pronto para mais um dia de trabalho. Os peixes do dia são dispostos no gelo, à vista do cliente, porque não há maior atestado de frescura do que este. “Está a ver este rodovalho?”, aponta, levantando o dorso branco do peixe, “é verdadeiro, da nossa costa”. Se o dorso fosse às pintinhas, “como muitos que se vêm por aí”, significa que vinha de outras águas
Com 35 anos de casa e 60 de vida, poucas são as suas hesitações. É assertivo, sem ser vaidoso, cordial, sem ser submisso, qualidades que transparecem para o seu restaurante. Não existe um grande letreiro à porta nem esplanada, pelo que a fachada passa despercebida a quem estiver com a cabeça na lua. Quem lá vai, é mesmo porque quer ir e a melhor publicidade, diz, é o passa a palavra.
Sobre pratos emblemáticos, Fernando dá-nos outra resposta certeira: “Não temos especialidades, é tudo bom”. E de facto, das entradas às sobremesas caseiras, passando pelo azeite DOP Trás-os-Montes e por uma carta de vinha atenta, não nos podemos queixar de nada.
O peixe é grelhado pelo Sr. Carlos, brioso no métier como poucos - ao ponto de inventar geringonças para ajudar a descabeçar o peixe, entre outras traquitanas de alto gabarito . O bicho vem com a pele estaladiça para a mesa e a carne suculenta. O arroz de legumes e chouriço que o acompanha, marca de assinatura da cozinheira Alice, é guloso até dizer chega. E a mariscada, com percebes, sapateira recheada, bivalves vários e outros miminhos, um deleite.
Tudo isto pontuado por um serviço lesto e atento de uma equipa que se mantém junta há muitos anos e que tem um gosto genuíno no contacto com o cliente. Caso para dizer: para quê inventar a roda, se os ingredientes estão todos lá?
Fernando. Rua Heróis de França, 527, Matosinhos. 229 375 905. 12h-16h e 19h-23h (fecha domingo ao jantar). Preço médio: €35
Comecemos pelo arroz de marisco: cozinhado com carolino, como um caldoso que se preze, leva camarão da costa, gamba, sapateira desfiada, amêijoa-boa e lavagante. É cremoso ao ponto de os lábios brilharem e sabe a marisco genuíno, sem truques. “É um dos nossos pratos mais icónicos”, nota José Manuel, gerente e filho do fundador Manuel Pinheiro, o senhor a quem a peixeira Sãozinha apontou o lugar do gaveto (topografia que dá nome ao estabelecimento) para que ele pudesse abrir o seu tão desejado restaurante em Matosinhos, já lá vão 42 anos.
Manuel, 79 anos, sempre foi um restaurador incomum: curioso e perfeccionista por natureza, nunca se contentou com o ramerrame. Gostava de inovar, sem descaracterizar, traço que trouxe para o Gaveto e que contribuiu para tornar o restaurante numa referência, não só em Matosinhos como em toda a zona norte e país.
A maior prova disso é a lampreia, pitéu dos meses de inverno que chegou a Matosinhos precisamente pela mão de Manuel e que encontrou no Gaveto um tratamento exímio. “No início, o meu pai não vendia a lampreia. Dava-a a provar aos clientes”, conta José Manuel. Hoje, as reservas são mais que as mesas para apreciar a clássica lampreia à bordalesa ou derivas mais criativas, como em escabeche.
O Gaveto está aberto durante o dia todo, característica que preserva desde a sua fundação. Sentar-se ao balcão a meio da tarde para pedir uma açorda de marisco, um arroz de lagosta, umas ostras da Ria Formosa, um peixe grelhado ou um bacalhau à moda de Braga é uma extravagância que sabe pela vida. Se vier acompanhado por um dos vinhos da casa, parceria com a Niepoort, melhor ainda.
A garrafeira é preciosa e extensa, valendo sempre a pena dar uma olhadela às garrafas que por lá moram. Ideia, desta feita, de José Manuel e do irmão. A inovação corre na família e que passa entre gerações. Ainda bem que assim é.
O Gaveto. Rua Roberto Ivens, 896, Matosinhos. 229 378 796. 12h-23h30 (fecha terça). Preço médio: €45
De paredes de pedra antiga, forradas com mais de 400 referências de vinhos, aguardentes e champanhe e com 28 lugares à mesa, o Toupeirinho é um pequeno restaurante cuja qualidade não se mede aos palmos. Em tudo o que José Silva toca, há gosto e elegância. “Estou há 47 anos nesta profissão”, diz, apoiado atrás do balcão, onde se destacam as navalheiras, a amêijoa, o camarão da costa e umas queijadinhas de leite que, por tradição, são servidas com o café.
O segredo d’O Toupeirinho, que vai buscar a alcunha ao avô de José, é trabalhar com uma carta curta e com o melhor que há. “Temos marisco e cinco a seis variedades de peixe selvagem por dia”, explica o gerente que esteve na origem da Marisqueira A Antiga, uma das primeiras e mais conceituadas de Matosinhos.
Há pratos que só faz por encomenda, como o goraz assado no forno ou o peixe galo frito com açorda. Outros, como a salada de lavagante, ícone da casa, são servidos todos os dias. E ainda há aqueles que não vai encontrar em mais lado nenhum, como as sardinhas cozinhadas ao sal.
Atente também às entradas que, por si só, já valem a visita. As lulinhas salteadas em azeite, alho e piripiri são inspiradas nas puntillas galegas e o presunto de pata negra de Barrancos bate-se de igual para igual com as melhores referências de Espanha. Nas sobremesas, a bitola continua alta: sericaia alentejana, papos de anjo e pudim Abade de Priscos são referências a ter em conta. Se as pedir com uma Aguardente XO (Extra Old) da Lourinhã, melhor ainda. O difícil será levantar-se da mesa.
O Toupeirinho. Rua Godinho, 27, Matosinhos. 229 387 016. 12h-15h30 e 19h-23h (fecha domingo e segunda ao almoço). Preço médio: €50
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