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Peixe e marisco são os apelidos de Matosinhos

Peixe grelhado em Matosinhos

Peixe e marisco são os apelidos de Matosinhos

Atualizada: 11/08/2026

Texto: Filipa Vaz Teixeira

Fotografia: Luís Ferraz

Entrou em 2025 para a Rede de Cidades Criativas da UNESCO na área da Gastronomia e quem conhece Matosinhos sabe a razão: esta é terra de bom peixe e marisco. Os restaurantes falam por si.
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Há um antes e depois de Henrique Torres na história da gastronomia de Matosinhos. Foi Henrique, já falecido e conhecido como “O Rei das Marisqueiras”, que abriu as primeiras marisqueiras de Matosinhos, já lá vai mais de meio século. Por essa altura, a cidade estava cheia de tascas de pescadores. As marisqueiras vieram revolucionar a oferta.

Foi o primeiro passo para aquilo em que Matosinhos se tornou: um santuário de bom peixe e marisco, onde os peregrinos chegam de vários pontos do país e do mundo. O reconhecimento da UNESCO, em 2025, como Cidade Criativa na área da Gastronomia é o corolário desta longa história, que junta várias gerações da mesma família, a consumir e a servir.

Além das ótimas bancas de peixe e marisco, o Mercado de Matosinhos é um símbolo do modernismo português a norte
Além das ótimas bancas de peixe e marisco, o Mercado de Matosinhos é um símbolo do modernismo português a norte

Onde comer peixe grelhado em Matosinhos?

Neste ecossistema rico, é necessário dar o mérito a quem está no início da linha: os pescadores que se fazem ao mar com valentia e as peixeiras que vendem a sua safra no Mercado de Matosinhos. Quem vai ao mercado, não só pode comprar e levar o peixe para casa, como pedir a um dos restaurantes que ali moram que o prepare, mediante o pagamento de uma taxa a rondar os €7 por pessoa. Todos ficam a ganhar.

Fora do mercado, a Rua Heróis de França é o coração da restauração. Porta-sim, porta-sim, ali estão eles prontos a mostrar os seus trunfos. Uns mantêm o aspecto tradicional de casa de pasto, como o Salta O Muro de António Moreira e Maria Palmira, lugar de muita simpatia e simplicidade e de especialidades como a caldeirada de peixe, o arroz de polvo no forno com filetes do mesmo e o peixe grelhado, sempre no ponto. Outros, como O Valentim, cuja sopa de peixe é ex-libris e a carta de vinhos criteriosa, fazem da exclusividade um mandamento.

É possível comprar peixe nas bancas e pedir para cozinhá-lo num dos restaurantes do Mercado
É possível comprar peixe nas bancas e pedir para cozinhá-lo num dos restaurantes do Mercado

No género e no trato, há restaurantes para todos os gostos e bolsos. Os três que lhes damos a conhecer são um aperitivo do melhor que irá encontrar em Matosinhos. De uma coisa pode ter a certeza: sairá satisfeito e com vontade de regressar a qualquer um deles.

Fernando

Pouco antes de abrir portas, Fernando - assim só, como o nome do restaurante - roda pela equipa de sala e de cozinha para garantir que está tudo pronto para mais um dia de trabalho. Os peixes do dia são dispostos no gelo, à vista do cliente, porque não há maior atestado de frescura do que este. “Está a ver este rodovalho?”, aponta, levantando o dorso branco do peixe, “é verdadeiro, da nossa costa”. Se o dorso fosse às pintinhas, “como muitos que se vêm por aí”, significa que vinha de outras águas

Com 35 anos de casa e 60 de vida, poucas são as suas hesitações. É assertivo, sem ser vaidoso, cordial, sem ser submisso, qualidades que transparecem para o seu restaurante. Não existe um grande letreiro à porta nem esplanada, pelo que a fachada passa despercebida a quem estiver com a cabeça na lua. Quem lá vai, é mesmo porque quer ir e a melhor publicidade, diz, é o passa a palavra.

Carlos é o mestre da grelha
Carlos é o mestre da grelha
Todo o peixe é selvagem e, na sua época, não faltam as rainhas deste mar, as sardinhas
Todo o peixe é selvagem e, na sua época, não faltam as rainhas deste mar, as sardinhas

Sobre pratos emblemáticos, Fernando dá-nos outra resposta certeira: “Não temos especialidades, é tudo bom”. E de facto, das entradas às sobremesas caseiras, passando pelo azeite DOP Trás-os-Montes e por uma carta de vinha atenta, não nos podemos queixar de nada.

O peixe é grelhado pelo Sr. Carlos, brioso no métier como poucos - ao ponto de inventar geringonças para ajudar a descabeçar o peixe, entre outras traquitanas de alto gabarito . O bicho vem com a pele estaladiça para a mesa e a carne suculenta. O arroz de legumes e chouriço que o acompanha, marca de assinatura da cozinheira Alice, é guloso até dizer chega. E a mariscada, com percebes, sapateira recheada, bivalves vários e outros miminhos, um deleite.

No Fernando também são conhecidas as mariscadas
No Fernando também são conhecidas as mariscadas

Tudo isto pontuado por um serviço lesto e atento de uma equipa que se mantém junta há muitos anos e que tem um gosto genuíno no contacto com o cliente. Caso para dizer: para quê inventar a roda, se os ingredientes estão todos lá?

Fernando. Rua Heróis de França, 527, Matosinhos. 229 375 905. 12h-16h e 19h-23h (fecha domingo ao jantar). Preço médio: €35

O Gaveto

Comecemos pelo arroz de marisco: cozinhado com carolino, como um caldoso que se preze, leva camarão da costa, gamba, sapateira desfiada, amêijoa-boa e lavagante. É cremoso ao ponto de os lábios brilharem e sabe a marisco genuíno, sem truques. “É um dos nossos pratos mais icónicos”, nota José Manuel, gerente e filho do fundador Manuel Pinheiro, o senhor a quem a peixeira Sãozinha apontou o lugar do gaveto (topografia que dá nome ao estabelecimento) para que ele pudesse abrir o seu tão desejado restaurante em Matosinhos, já lá vão 42 anos.

José Manuel (à direita) é um dos herdeiros e chefs de sala d’O Gaveto
José Manuel (à direita) é um dos herdeiros e chefs de sala d’O Gaveto

Manuel, 79 anos, sempre foi um restaurador incomum: curioso e perfeccionista por natureza, nunca se contentou com o ramerrame. Gostava de inovar, sem descaracterizar, traço que trouxe para o Gaveto e que contribuiu para tornar o restaurante numa referência, não só em Matosinhos como em toda a zona norte e país.

A maior prova disso é a lampreia, pitéu dos meses de inverno que chegou a Matosinhos precisamente pela mão de Manuel e que encontrou no Gaveto um tratamento exímio. “No início, o meu pai não vendia a lampreia. Dava-a a provar aos clientes”, conta José Manuel. Hoje, as reservas são mais que as mesas para apreciar a clássica lampreia à bordalesa ou derivas mais criativas, como em escabeche.

O arroz de marisco (e as torradas altas) é uma das estrelas da carta
O arroz de marisco (e as torradas altas) é uma das estrelas da carta

O Gaveto está aberto durante o dia todo, característica que preserva desde a sua fundação. Sentar-se ao balcão a meio da tarde para pedir uma açorda de marisco, um arroz de lagosta, umas ostras da Ria Formosa, um peixe grelhado ou um bacalhau à moda de Braga é uma extravagância que sabe pela vida. Se vier acompanhado por um dos vinhos da casa, parceria com a Niepoort, melhor ainda.

A garrafeira é preciosa e extensa, valendo sempre a pena dar uma olhadela às garrafas que por lá moram. Ideia, desta feita, de José Manuel e do irmão. A inovação corre na família e que passa entre gerações. Ainda bem que assim é.

O Gaveto. Rua Roberto Ivens, 896, Matosinhos. 229 378 796. 12h-23h30 (fecha terça). Preço médio: €45

O Toupeirinho

De paredes de pedra antiga, forradas com mais de 400 referências de vinhos, aguardentes e champanhe e com 28 lugares à mesa, o Toupeirinho é um pequeno restaurante cuja qualidade não se mede aos palmos. Em tudo o que José Silva toca, há gosto e elegância. “Estou há 47 anos nesta profissão”, diz, apoiado atrás do balcão, onde se destacam as navalheiras, a amêijoa, o camarão da costa e umas queijadinhas de leite que, por tradição, são servidas com o café.

José Silva é o anfitrião d’O Toupeirinho
José Silva é o anfitrião d’O Toupeirinho

O segredo d’O Toupeirinho, que vai buscar a alcunha ao avô de José, é trabalhar com uma carta curta e com o melhor que há. “Temos marisco e cinco a seis variedades de peixe selvagem por dia”, explica o gerente que esteve na origem da Marisqueira A Antiga, uma das primeiras e mais conceituadas de Matosinhos.

Há pratos que só faz por encomenda, como o goraz assado no forno ou o peixe galo frito com açorda. Outros, como a salada de lavagante, ícone da casa, são servidos todos os dias. E ainda há aqueles que não vai encontrar em mais lado nenhum, como as sardinhas cozinhadas ao sal.

No final de uma refeição de peixe grelhado ou de uma mariscada, as queijadinhas com o café são tradição
No final de uma refeição de peixe grelhado ou de uma mariscada, as queijadinhas com o café são tradição

Atente também às entradas que, por si só, já valem a visita. As lulinhas salteadas em azeite, alho e piripiri são inspiradas nas puntillas galegas e o presunto de pata negra de Barrancos bate-se de igual para igual com as melhores referências de Espanha. Nas sobremesas, a bitola continua alta: sericaia alentejana, papos de anjo e pudim Abade de Priscos são referências a ter em conta. Se as pedir com uma Aguardente XO (Extra Old) da Lourinhã, melhor ainda. O difícil será levantar-se da mesa.

O Toupeirinho. Rua Godinho, 27, Matosinhos. 229 387 016. 12h-15h30 e 19h-23h (fecha domingo e segunda ao almoço). Preço médio: €50