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“É o edifício mais alto da vila, não há como enganar.” A indicação é tão simples e concreta que uma pessoa até sente vergonha de recorrer ao GPS para encontrar o hotel. Depois, quando lá chega, olha e compara com a paisagem em redor. Por fim, conclui: “É isso, confere. O edifício mais alto de Viana do Alentejo.”
Falamos do Moagem Industrial Lodge, um hotel inaugurado em 2025, concebido e desenvolvido dentro das paredes de uma antiga moagem industrial, cuja atividade cessou em 1986. Os traços da indústria foram conservados com orgulho e detalhe. Entrando ali, é possível perceber como funcionava a fábrica antigamente: em cima, entravam os cereais, depois havia máquinas, gravidade, etc., tudo a funcionar. Enfim, um sem número de passos num processo demorado e descendente que culminava, no piso térreo, com a introdução da farinha em sacas. Et voilá, assim funcionava a moagem.
Hoje já nada se mói ali. Quanto muito, mói-se o tempo enquanto se desfruta da calmaria que a paisagem alentejana (quantos tipos de paisagem alentejana existem? Fica a questão) sempre suscita, ou permite, ou sugere, ou encontra. O edifício está conservado com bom gosto e recuperado com requinte, e vice-versa. Os traços industriais foram preservados, aplicou-se o toque kitsch quando fez sentido, esticou-se o pós-modernismo onde havia espaço.
Néons, metais, plásticos e móveis com grelhas; sanitas de ferro, cortinas de pano e sofás com estofos de pele e de napa; tapetes felpudos, adornos industriais e tijolo de betão à mostra, sem reboco nem pintura. O espaço é bruto, retilíneo e luminoso. Surpreendentemente, o ambiente é confortável, aconchegante, acolhedor.
“Tem de experimentar a piscina e os jatos de massagem. Se quiser, pode ainda usar a sauna e o banho turco.” Confesso: eu vim cá mais pela cozinha, quero experimentar o que o chef Pedro Dias tem para mostrar (já ouvi dizer que deita fogo a tudo, debaixo daquela chaminé monumental, com seis metros de altura), mas não digo que não a um mergulho. Seguindo a indicação generosa e justa do cicerone, passaremos a próxima hora e meia em ambiente aquático - que maravilha, que descanso. Uma pessoa assim até janta melhor.
Entrar no Moagem Kitchen pode causar, à falta de melhor descrição, um estranhamento sedutor. Ao centro, uma chaminé colossal, sobre grelhas e braseiros, onde a lenha crepita e as brasas aquecem. A toda a volta, balcões, que tanto servem para o chef e restante equipa trabalharem, como para os comensais, sentados em bancos altos, degustarem a refeição. Não é a isto que estamos habituados quando nos desafiam para refeições premium - e, no entanto, há um apelo extraordinariamente forte em todo aquele aparato: queremos decididamente estar ali.
O chef Pedro Dias veio do Porto, em 2025, logo que o hotel abriu. Desde então, tem vindo a desenvolver a sua peculiar cozinha em torno do fogo - ou a partir dele. E com brasas e labaredas que cozinha o que nos serve, seja na grelha, na chapa ou em panelas de ferro forjado (sim, aquelas antigas, tradicionais, com três pés).
Quando se apresenta e explica o conceito por detrás da sua cozinha, vinca várias vezes a preocupação com o produto local, não enfatizando em demasia a técnica - como quem diz, “é o que é, o fogo faz o serviço, mas o segredo está no produto”. E é bem provável que essa seja a forma correta de entender o que apresenta no menu.
A abrir, uma papada de porco preto com cebola roxa em pickle, feito na casa, claro. É uma abertura impressionante e promissora. Daí em diante, o peixe é quem mais ordena, num alinhamento onde dois traços sobressaem: a presença do vinagre e a doçura dos pratos, num contraste fino e elegante.
A este balcão há muita acidez, mas também muito sabor suave. Tártaro de carpa, cação de escabeche e caldo de caldeirada (um caldo de beber, mesmo) chegam por ordem, antes do último prato principal, um ensopado de borrego desconstruído - muito criativo. No fim, um “pijaminha” com doçaria tradicional alentejana, mas interpretada à moda da casa - uma delícia, como é evidente. A acompanhar o alinhamento, um pairing de vinhos 100% alentejanos, com altos e baixos.
Viana do Alentejo é uma vila pacata, a cerca de meia-hora de Évora e uma hora da costa (Comporta, Carvalhal). A sua principal atração é o castelo em estilo gótico, bem no meio da vila, e é em torno dessa fortificação monumental que a vida de Viana se desenrola, entre cafés, tasquinhos e ateliers. É nestes que se encontra uma outra atração da zona: a olaria de Viana, que vale a pena explorar. Aconselha-se a procura pelas olarias que ainda operam, com os seus artesãos, e que se pode visitar. Não são difíceis de encontrar durante um passeio a pé.
A uma curta distância da vila, encontramos ainda um algo inesperado monumento barroco: o Santuário de N.ª Sr.ª d’Aires. No meio de um descampado, lá se ergue uma igreja cheia de história e destino de peregrinações. Entrando, descobrimos relíquias razoavelmente macabras ou, no mínimo, um bocadinho sinistras, tais como ossadas, esqueletos de répteis ou mechas de cabelo em forma de dádiva ou pagamento de promessas.
Para uma tarde bem passada, e para quem procura emoções intensas, aconselha-se a leitura dos descritivos que acompanham cada uma das dádivas. Quem preferir outro tipo de emoções, como o relaxamento, o descanso ou o simples viver a vida, deixando os defuntos em paz, o Moagem Industrial Lodge é a escolha ideal, com a sua calmaria isolada do mundo e as suas vistas sobre a peneplanície alentejana, quase a perder de vista.
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