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“O Mick Jagger já dormiu ali.” Richard Bowden solta a frase com um misto de ligeireza e desafio enquanto aponta para uma das novas alas do edifício, precisamente para uma zona envidraçada com um grande terraço cheio de vegetação ao lado. Aquela é uma das suítes mais modernas do Six Senses Douro Valley, hotel de cinco estrelas (sem contar com Mick Jagger) e muitos encantos, debruçado sobre o Rio Douro, rodeado de vinhas, recheado de vinhos e abundante em água.
Richard Bowden, diretor de marketing e comunicação do Six Senses, leva-nos pelos caminhos e edifícios, atravessa connosco espaços e salas, das garrafeiras ao ginásio, das piscinas e spa aos jardins, faz de guia numa primeira visita a todo o complexo. Não é difícil apaixonarmo-nos à primeira vista por este lugar idílico, onde a beleza natural se encontra harmoniosamente com a beleza acrescentada pela intervenção humana.
Estamos na Quinta do Vale Abraão, o mesmo Vale Abraão do livro de Agustina Bessa-Luís, o mesmo do filme de Manoel de Oliveira. Como o livro e o filme, este lugar não é para todos, por mais que lhe mudem o nome.
Chamado Six Senses Douro Valley desde há 11 anos, este é, mais do que de luxo, é um hotel de requinte, a começar pelo edifício original, cuja arquitetura impressiona pela elegância e pelo bom-gosto. Eduardo Johnston da Silva, o diretor-geral, classifica-o mesmo como “ultra luxo”, diferenciando-o da oferta “de luxo” que encontramos em Portugal.
Percebe-se que Agustina e Manoel de Oliveira tenham escolhido este sítio para as suas versões portuguesas e contemporâneas de Madame Bovary. Aqui a beleza bucólica não apenas convive com a sofisticação, mas antes se combina com esta, numa simbiose que aproxima o Douro Valley do destino perfeito.
O objetivo é desligar - da omnipresença digital, dos compromissos quotidianos, do trabalho como um fardo. E aqui há experiências concebidas para manter os convidados tão distantes da realidade mundana quanto possível.
Comecemos pela gastronomia. “Peço ovos Bennedict para usar como instrumento de avaliação de uma boa cozinha”, revela Richard Bowden, pródigo em frases-chave e soundbytes. Ao pequeno-almoço, aceitamos a revelação como sugestão e provamos os do Vale Abraão, restaurante principal do Douro Valley. Definitivamente, estão aprovados, o que é bom augúrio para as experiências seguintes.
No hotel, são várias as opções de cozinha durante o verão. No inverno, alguns dos espaços exteriores são subtraídos, tais como o quiosque da piscina - onde os pratos frios, as saladas e os cocktails são os principais pontos de interesse - ou o Summer Garden, que funciona apenas de junho a setembro, aproveitando as noites quentes do verão no vale do Douro.
No Summer Garden, além da experiência de jantar no exterior, imerso no jardim do hotel, as iguarias confecionadas em lume de lenha tornam a refeição ainda mais especial. Dir-se-ia que o Summer Garden é o ex-libris dos restaurantes do Douro Valley.
Contudo, é no interior, no restaurante Vale Abraão, que temos acesso à cozinha mais vincadamente regional, com alguns pratos tradicionais a constar da ementa, embora revisitados de forma contemporânea e sem deixar de parte surpresas como o carabineiro ou a massada de lavagante - e as amêijoas fumadas que, com grande pena nossa, não chegámos a provar (como o restaurante só trabalho com produto fresco, a cozinha está sempre sujeita à oferta; durante a nossa estadia, não houve fornecimento).
Um detalhe digno de apreço: na ementa do Vale Abraão, são discriminados todos os produtos regionais e os seus produtores, permitindo ao consumidor perceber de onde vem o que está diante de si, no prato. Saúda-se a presença constante de produtos locais e sazonais devidamente rastreados, e ainda a promoção do Six Senses aos pequenos produtores da região, cuja qualidade é inegável.
Falemos de vinho. Afinal, estamos no coração do Douro vinhateiro. Antes de mais, é importante perceber que existe todo um mundo maravilhoso por explorar para lá dos limites do hotel. Situado nos arredores de Peso da Régua, este é o lugar ideal para se ter como ponto de partida para pegar no mapa e partir em busca de algumas das melhores e mais célebres quintas vínicas do Douro. Os périplos possíveis são tão numerosos que seria ilógico sugerir um ou dois. O conselho que podemos é deixar é: vão, explorem, conheçam, provem. Com moderação, pois é preciso regressar ao hotel ao fim do dia.
Em todo o caso, e para uma experiência mais concentrada em torno dos vinhos do Douro, podemos sugerir uma visita ao Libatio (Solete Guia Repsol), em Peso da Régua, onde os petiscos complementam de forma exímia a prova de vinhos.
O Vale Abraão, dentro do hotel, possui também uma garrafeira que pode ser descrita como “generosa”, só para não exagerar no recurso ao termo “abundante”. Com cerca de 700 a 800 referências de vinhos, maioritária mas não exclusivamente nacionais, podemos encontrar um pouco de tudo, com justificado e compreensível enfoque nos vinhos do Douro, mas também do Dão e da Bairrada, por exemplo.
Entre as experiências que o hotel tem à disposição, encontram-se as provas de vinhos acompanhadas pela explicação técnica do sommellier, o que resulta num upgrade à atividade, que assim alia o prazer da degustação à aprendizagem sobre a prova, como se fosse um workshop.
Podemos simplesmente aproveitar para caminhar pela floresta, há todo um bosque plantado há mais de um século entre o edifício principal e o Rio Douro. O arvoredo entrecortado por estreitas veredas existe para que nos desliguemos da realidade dos nossos dias e nos sintonizemos com a natureza, a sua beleza e os seus ritmos, o som das águas a correr lá em baixo ou a cair na cascata no meio do bosque, o restolhar dos animais, o canto dos pássaros, interrompido ocasionalmente por um barco que cruza o Douro ou um comboio que passa na outra margem.
Ou podemos optar pelo explorar um dos pontos fortes do hotel: as águas. Da infinity pool no centro do complexo, com vista para o vale e para as serras, ao spa, com piscina interior, saunas (uma delas, de infra-vermelhos), banhos diversos (além do clássico banho turco, há cabines com banhos de sais, entre outros), hidromassagem, jacuzzi, enfim, todo um festim de mimos para o corpo, a que podemos acrescentar diversas massagens de relaxamento. Atingir o nirvana é só um resultado possível para uma tarde passada no spa.
Além dos circuitos de relaxamento físico, com os seus óbvios benefícios, o convidado pode desfrutar daquilo a que chamaremos “relaxamento pedagógico”. Todos os dias há uma lista de atividades disponíveis para os hóspedes. Normalmente, são workshops em que a filosofia do hotel - da qual constam palavras incontornáveis e saturadas como “sustentabilidade” - é demonstrada de um modo prático.
Podemos aprender a fazer pickles com produtos da própria horta ou a preparar biscoitos num forno solar, fazer perfumes e óleos esfoliantes, aprender sobre jardinagem, entre muitas outras atividades - não conseguiríamos experimentar todas numa estadia curta. O que significa que teremos de voltar. Quem professa que não devemos voltar aos sítios onde fomos felizes, decerto ainda não conheceu este pequeno pedaço de paraíso.
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