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A uma ponte de distância de Lisboa mora a promessa de longos areais, chinelo no pé e bons restaurantes. Nos últimos anos, a cidade mudou muito. Porém, há traços identitários que não esmoreceram: ao final do dia, ainda se veem as redes a serem puxadas do mar, honrando a tradição da arte Xávega trazida por pescadores da zona de Ílhavo e do Algarve que aqui se fixaram durante o século XVIII e XIX. Restaurantes, como O Veleiro (Solete Guia Repsol), o Retiro do Pescador ou a Tasquinha da Costa (Solete Guia Repsol) continuam a manter o receituário tradicional, com o peixe grelhado a ser tratado como divindade que é.
Em paralelo, foram surgindo negócios de outras latitudes e horizontes. Quem os abriu, fê-lo porque se apaixonou por Portugal e, em especial, por este pedaço de terra abençoada pelo sol, pelo mar e pelas ondas que fizeram da Costa de Caparica um destino de surf reconhecido além fronteiras.
Na Rua dos Pescadores e ao longo do paredão, começaram a misturar-se línguas, pão torrado e conquilhas com focaccias e tártaros, minis com cocktails de autor, uma babilónia de menus e influências. Fomos visitar três espaços que, por razões distintas, estão a moldar a nova paisagem da costa.
Desde que aqui chegou, em 2017, que Gregory Bernard, empresário francês e produtor de filmes, abrandou o ritmo e fez as pazes com a vida, antes submersa em stress. Começou a investir em negócios ligados ao bem-estar, hospitalidade, restauração, desporto e até se meteu em aventuras mais ousadas, como a da compra do Transpraia, o comboio turístico criado nos anos 60 que pretende reabilitar como solução de mobilidade urbana suave.
Do ecossistema Bernard, nome que homenageia o pai médico, fazem parte o hostel Vila Caparica, uma escola de surf, o wine bar O Gato que Bebe, focado em vinhos naturais, um centro de Wellness virado para o yoga e pilates e antigos armazéns transformados em espaços de residências artísticas. Mais investimentos virão, isso é certo, mas por ora foquemo-nos onde tudo começou, no Dr. Bernard (Solete Guia Repsol).
“Somos um bar de praia, com boa comida e boas bebidas”, diz Miguel Inácio, Diretor Geral do Dr Bernard. Dito desta forma, parece tudo muito simples, mas espreitando a cozinha liderada por Mateus Aguiar, percebemos que ali só entram “alimentos de verdade”: “As massas, os molhos, os pestos, tudo é feito aqui de raiz”, explica.
Um dos fortes da casa são as pizzas, entre as quais a Margherita e a Diavola, com salame ventriciana, as mais pedidas. Mas também as focaccias (de tomate seco, presunto ou salmão) e os hambúrgueres têm estatuto de estrela. Quem procura opções saudáveis, pode contar com uma curta, mas boa seleção de saladas, e para os devotos do petisco, as coxinhas de frango, os nachos com guacamole e queijo ou as gambas ao alho são o snack que se quer durante o pôr do sol.
E por falar em pôr do sol: entre quinta e domingo há sempre música ao vivo durante a “golden hour”, diz desta feita Donovan Mahé, Diretor de Marketing. Não raras vezes, a festa prolonga-se até às 2h da manhã, com DJ sets, numa curadoria que privilegia artistas locais.
Dr. Bernard. Praia do CDS, Apoio de Praia 11, Costa da Caparica. 927 461 763. 10h-23h (sexta e sábado fecha às 00h). Preço médio: €20
Anne e David são amantes do mar e do surf. Foi precisamente o surf que os trouxe pela primeira vez a Portugal, mas foi a pandemia que os casou em definitivo com este retângulo banhado pelo Atlântico. Ela despediu-se do seu emprego na área do Marketing, ele despediu-se dos seus pop ups, nos quais fazia pizzas numa food truck, venderam o apartamento que tinham em Budapeste e começaram uma nova vida na Costa de Caparica.
“Nunca pensámos na ideia de criar um negócio, mas quando aqui chegámos, esta tinha de ser a nossa ocupação principal”, recorda David sobre os primórdios do Blitz Pizza and Deli (Solete Guia Repsol). Antes de ser um pequeno restaurante com esplanada, encaixado nas galerias de um prédio, as pizzas do Blitz moraram no Dr Bernard durante dois anos. Findada a parceria, David e Anne assumiram as rédeas do seu próprio espaço, um lugar que tratam como se fosse casa. “Queremos oferecer algo que represente os nossos gostos e que nós próprios gostássemos de receber”.
As pizzas, de fermentação lenta, têm em conta a sazonalidade. Durante estes meses de verão podemos contar com uma deliciosa Summer Break, com queijo de cabra e figos da estação, guanciale, pecorino, cebola verde e azeite de figueira. “Gosto de mostrar o produto”, diz David, que chegou a viver em Itália, país que serviu de inspiração, mas cujas raízes gastronómicas nunca quis replicar, até porque há outras origens a mostrar.
Da Hungria trazem o Töki Pompos, “um snack de verão frito semelhante à vossa bola de Berlim, mas em salgado”, explica. A receita foi adaptada para o Blitz Pizza and Deli e, em vez de frita, a massa de pizetta é preparada no forno e vem com creme fraiche, cebola, pancetta, azeite de alho, parmigiano e burrata straciatella. De destacar também a sandes de almôndegas, servida em massa de pizza. Para acompanhar, há vinhos naturais, sidras artesanais, e outras bebidas escolhidas a dedo, numa seleção feita com gosto e sem exibicionismos.
Blitz Pizza&Deli. Avenida General Humberto Delgado, 7, Costa da Caparica. 968 837 410. 13h-22h30. Preço médio: €25
Três irmãos franceses, de seu nome Nini, Romain e Nico, chegaram a Portugal e ficaram embeiçados pela Praia do Irmão, na Costa de Caparica. Viram que havia lá um pequeno chiringuito e não pensaram duas vezes: compraram o espaço e fizeram-lhe um extreme makeover. O resultado? O chiringuito transformou-se n’O Irmão (Solete Guia Repsol), um restaurante-bar decorado com influências do Médio Oriente ao Japão, que tanto podia morar numa praia em Saïdia como num resort no Dubai ou na Indonésia.
“Isto é um grande bazar, com um pedacinho de vários lugares do mundo”, explica Guilherme Pires, diretor do espaço, enquanto nos sentamos numa das ilhas louge pousadas na areia, concebidas para pequenos grupos. Há também espreguiçadeiras e guarda-sois, uma esplanada convencional, um deck de madeira e um playground para crianças, sem esquecer a enorme bola de espelhos que é o epicentro das grandes festas que ali se fazem - desde “simples” dj sets de vinil a festivais como o SuncéBeat New Horizons.
À mesa, o chef Welder Silva e o pizzaiolo Rawezh Amin apresentam uma carta de grande nível, cheia de sabor e de técnica e de base mediterrânica. O produto é escolhido a dedo e aproveitado ao máximo. Veja-se o exemplo do lírio, usado no tártaro rebelde e cujas aparas são aproveitadas para o leite de tigre, do ceviche. Durante o verão, é imperioso provar o carpaccio de pêssego servido com straciatella e gispeck DOP ou a salada de courgette, com aparas de parmesão.
A acompanhar a refeição, peça um cocktail de autor, como o C’est La Vie, que leva rum Havana 3 e sumo de ananás dos Açores. Os Açores voltam a ser protagonistas nas sobremesas, através do ananás maturado grelhado, servido com pó de mel e caramelo salgado de miso. Há também uma bela mousse de chocolate negro com azeite ou uma panna cotta leve de frutas da época, com crumble de manjericão e amêndoas. Para provar de tudo um pouco, o truque é partilhar. Se for ao Irmão, leve a família toda consigo.
O Irmão. Estrada da Praça do Castelo, Costa da Caparica. 932 616 151. 12h-22h (sexta e domingo fecha às 00h; sábado fecha às 02h). Preço médio: €35
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