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O Pico é a ilha dos Açores que mais associamos ao vinho – mas nem sempre foi assim. Na verdade, esta é uma tradição que estava, até muito recentemente, quase extinta, tendo várias vinhas sido dizimadas por pragas consecutivas durante os séculos XIX e XX. Esta nova vida das vinhas do Pico começou no início da década de 2010, com o surgimento de grandes cooperativas e cerca de 10 produtores independentes.
Os resultados estão à vista: o Pico afirma-se hoje como uma das origens dos brancos mais elogiados do país. Este dinamismo em torno do vinho tem vindo a atrair um turismo mais exigente, abrindo espaço a um conjunto de restaurantes e unidades de alojamento que reinterpretam, de forma cuidada e contemporânea, a cultura, a gastronomia e a arquitetura tão singulares desta ilha.
A Azores Wine Company é amplamente apontada como um dos principais motores do renascimento vitivinícola do Pico na década de 2010 e, em 2021, expandiu a sua presença na costa norte da ilha com a abertura de um restaurante.
O Latitude (1 Sol Guia Repsol) integra o mesmo complexo das instalações de produção de vinho e do hotel da empresa — uma estrutura imponente, de traça contemporânea, dramaticamente envolvida pelas vinhas classificadas pela UNESCO.
A experiência gastronómica organiza-se em menus de degustação de quatro, seis ou dez momentos, idealmente acompanhados por harmonizações vínicas. Numa noite amena, sentamo-nos à grande mesa comum do restaurante, onde os subchefes Simão Ramalho e Nuno Ribeiro fazem uma breve introdução: “Vamos viajar entre ilhas.”
A viagem começa com um caldo inspirado nas sopas do Espírito Santo — uma sopa de carne, rica, aromatizada pelo endro, como é tradição na ilha natal do chef Rui Batista, Santa Maria. Seguem-se pratos que cruzam diferentes elementos açorianos: algas comestíveis do Faial, um bisque de lavagante aprofundado com café de São Jorge, peixes raramente vistos fora do arquipélago (como peixão (goraz), alfonsino e chicharro careca), borrego de Santa Maria e uma mousse surpreendentemente equilibrada entre o salgado e o doce, que junta queijos de três ilhas distintas.
Os pratos revelam-se elegantes com camadas adicionais de sabor e aroma trazidas pelos vinhos da casa — brancos de grande acidez, salinidade e estrutura, um tinto fresco e aromático e até um vinho fortificado com dez anos.
Rafael Ávila Melo e Franco Pinilla, os chefs por detrás do Bioma (1 Sol Guia Repsol), na costa sul do Pico, mantêm um Google Maps com vários pontos da ilha onde é possível recolher e colher ingredientes. “Talvez cinco por cento dos produtos venham de fora da ilha”, explica Melo, natural das Lajes, a cerca de 20 minutos do restaurante. “Temos de encomendar azeite, farinha — coisas desse género.”
A esmagadora maioria dos ingredientes servidos no Bioma — que podem ir da uva-do-mato a diferentes cortes de uma vaca Ramo Grande de 600 kg, arranjada integralmente pela dupla — tem origem no Pico ou noutras ilhas dos Açores. Ainda assim, não se espere aqui uma abordagem tradicional à cozinha açoriana. “Partimos de ideias da ilha, mas nunca fazemos pratos tradicionais”, diz-nos Franco, argentino de origem. “Começamos com um prato tradicional e transformamo-lo através da nossa experiência e conhecimento.”
Esta filosofia resulta num menu simultaneamente enraizado e livre. Na nossa visita o menu de degustação incluía momentos que cruzavam lírio fumado com meloa da Graciosa, gnocchi de inhame e um sorvete de uvas Isabella locais. O prato centrado na imponente vaca — carpaccio de Ramo Grande com limão — revela-se, como os restantes, intenso e aromático, convidando a abrandar e saborear cada garfada.
E, como se a pesca submarina e a recolha de ingredientes não fossem já ambiciosas, a dupla criou ainda uma horta no próprio espaço e planeia expandir o projeto com uma pequena unidade de produção de compotas feitas a partir dos frutos que apanham na ilha.
“A primeira regra aqui é: não há salmão”, afirma José David Sousa, proprietário do Mar Sushi Terrace (Restaurante Guia Repsol), na costa sul do Pico. O tom é leve, mas não está a brincar. “Abrimos o restaurante para tirar partido do peixe dos Açores — dos melhores do mundo”, explica. E, desde 2021, essa tem sido a sua missão, tão simples quanto exigente. Servir cozinha de inspiração japonesa no Pico está longe de uma tarefa fácil.
A procura varia muito ao longo do ano, o acesso a ingredientes japoneses é praticamente inexistente e, apesar de se tratar de uma ilha, nem sempre é fácil garantir peixe fresco. “A frota do Pico é pequena”, explica-nos David, acrescentando que a geografia submarina obriga os pescadores a aventurarem-se para longe da costa — algo difícil em embarcações de menor dimensão. No verão, consegue trabalhar com cerca de uma dúzia de espécies; “no inverno, se tivermos quatro, já é bom”.
Em meados de dezembro, por exemplo, provam-se os últimos lírios da época, servidos em fatias generosas de sashimi. “Veja estas linhas de gordura”, comenta Sousa, referindo-se a um dos peixes mais valorizados dos Açores
Há também uma seleção de sushi, que inclui espécies como lírio e bicuda, e lâminas de veja crua, realçadas com um toque cítrico de ponzu. Embora o peixe seja o foco, a carta inclui ainda algumas propostas de carne de porco e legumes com inspiração japonesa, bem como um cheesecake japonês leve, feito com queijo de São Miguel.
No verão, além de uma maior variedade de peixe, há ainda a vantagem de aproveitar a esplanada que dá nome ao restaurante — provavelmente uma das vistas mais impressionantes para uma refeição em todo o Pico.
“Não havia onde ficar para produtores, jornalistas e outros visitantes”, recorda Filipe Rocha sobre a realidade do alojamento no Pico quando, em 2015, começou a produzir vinho na ilha com o enólogo António Maçanita, seu parceiro fundador na Azores Wine Company.
A dupla escolheu um terreno na costa norte, inserido na zona classificada pela UNESCO, marcada pelos muros de pedra vulcânica — ideal para a produção tradicional, mas exigente do ponto de vista da construção devido às restrições associadas à classificação.
“Queríamos uma adaptação contemporânea do conceito de adega”, explica Filipe, referindo-se às pequenas construções de pedra nas vinhas do Pico, usadas tanto para apoio à produção como para estadias temporárias.
Com o apoio de arquitetos com experiência em áreas classificadas, criaram, em 2021, uma estrutura contemporânea em betão e pedra que articula adega, quartos, restaurante e sala de provas.
Situado no topo de um monte, com vista sobre o intricado mosaico de currais que se estende até ao mar, o edifício inspira-se, em parte, nos três conventos da ilha e esconde um pátio central, lembrando os claustros dos mosteiros.
Os cinco quartos apresentam uma estética discreta, com apontamentos industriais em tons de cinza e madeira clara, e incluem kitchenette, amplas janelas panorâmicas voltadas para a costa, pequenos terraços e minibares particularmente bem equipados — abastecidos sempre com vinhos de António Maçanita.
Talvez a adição mais arrojada ao panorama hoteleiro da ilha seja o Pico Vineyards. Inaugurado em 2025, o hotel nasceu a partir de um conjunto de quatro casas tradicionais num terreno interior, a poucos minutos do aeroporto da ilha.
A pedra vulcânica retirada durante a ampliação foi reaproveitada na construção dos 11 quartos, cinco dos quais com piscinas privadas diretamente ligadas aos quartos, além de chuveiros exteriores.
Os interiores apresentam uma estética minimalista e cuidada — quase escandinava — com contraste entre a pedra vulcânica escura e o cedro japonês claro, aromático e agradável, mobiliário simples e pavimentos de pedra pintados de vermelho, evocando o efeito dos tijolos.
Entre muros de pedra e vinhas, o conjunto desenrola-se como uma vinha em socalcos à maneira do Pico, mas com um pilar central imponente e algumas esculturas em madeira de inspiração quase tribal.
O hotel dispõe de piscina interior aquecida e de um elemento menos óbvio: descendo uma escadaria em espiral no átrio e atravessando um corredor subterrâneo decorado com arte, chega-se à adega subterrânea, um espaço cavernoso com tetos abobadados que se projetam dramaticamente, é aqui que decorrem as provas de vinho e outros eventos.
Para uma estadia mais personalizada, sugerimos o Lava Homes. Situado numa encosta íngreme na costa norte do Pico, o empreendimento é composto por 14 casas independentes, totalmente equipadas e individuais.
Os edifícios, amplos e confortáveis, variam entre uma e três suítes, todos com cozinha equipada; os maiores dispõem ainda de comodidades como máquinas de lavar e secar e lareiras a pellets.
A Lava Homes tem origem na Casa da Queijaria, uma casa tradicional que permanece integrada no complexo, enquanto as outras 13 mantêm a estética local, com pedra vulcânica escura e madeira rústica.
A maioria oferece varandas generosas com vistas que se estendem até à vizinha ilha de São Jorge, e o complexo inclui ainda piscina, estúdio de yoga (com aulas às quartas e sábados), sauna e restaurante.
Um benefício menos evidente é a sensação de isolamento do local, na ponta oeste do Pico, de onde se acede, através de uma curta, mas íngreme, caminhada, à zona balnear do Caisinho ou ao conjunto de casas de pedra vulcânica mais recôndito do Canto de São Amaro.
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