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Moderno e sofisticado, este é o novo turismo no Pico

Onde comer e onde ficar no Pico

Moderno e sofisticado, este é o novo turismo no Pico

Atualizada: 04/09/2026

Texto: Austin Bush

Fotografia: Austin Bush

Entre curraletas e castas locais, o crescimento do enoturismo no Pico levou ao aparecimento de novos espaços. São sofisticados, tanto na restauração como no alojamento, sem perder as raízes.
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O Pico é a ilha dos Açores que mais associamos ao vinho – mas nem sempre foi assim. Na verdade, esta é uma tradição que estava, até muito recentemente, quase extinta, tendo várias vinhas sido dizimadas por pragas consecutivas durante os séculos XIX e XX. Esta nova vida das vinhas do Pico começou no início da década de 2010, com o surgimento de grandes cooperativas e cerca de 10 produtores independentes.

Os resultados estão à vista: o Pico afirma-se hoje como uma das origens dos brancos mais elogiados do país. Este dinamismo em torno do vinho tem vindo a atrair um turismo mais exigente, abrindo espaço a um conjunto de restaurantes e unidades de alojamento que reinterpretam, de forma cuidada e contemporânea, a cultura, a gastronomia e a arquitetura tão singulares desta ilha.

Bons vinhos, boa mesa: Azores Wine Company

A Azores Wine Company é amplamente apontada como um dos principais motores do renascimento vitivinícola do Pico na década de 2010 e, em 2021, expandiu a sua presença na costa norte da ilha com a abertura de um restaurante.

O Latitude (1 Sol Guia Repsol) integra o mesmo complexo das instalações de produção de vinho e do hotel da empresa — uma estrutura imponente, de traça contemporânea, dramaticamente envolvida pelas vinhas classificadas pela UNESCO.

Lagosta dos Açores, raiz forte, bisque, no Latitude, o restaurante da Azores Wine Company
Lagosta dos Açores, raiz forte, bisque, no Latitude, o restaurante da Azores Wine Company

A experiência gastronómica organiza-se em menus de degustação de quatro, seis ou dez momentos, idealmente acompanhados por harmonizações vínicas. Numa noite amena, sentamo-nos à grande mesa comum do restaurante, onde os subchefes Simão Ramalho e Nuno Ribeiro fazem uma breve introdução: “Vamos viajar entre ilhas.”

A viagem começa com um caldo inspirado nas sopas do Espírito Santo — uma sopa de carne, rica, aromatizada pelo endro, como é tradição na ilha natal do chef Rui Batista, Santa Maria. Seguem-se pratos que cruzam diferentes elementos açorianos: algas comestíveis do Faial, um bisque de lavagante aprofundado com café de São Jorge, peixes raramente vistos fora do arquipélago (como peixão (goraz), alfonsino e chicharro careca), borrego de Santa Maria e uma mousse surpreendentemente equilibrada entre o salgado e o doce, que junta queijos de três ilhas distintas.

Peixe, beurre blanc, caldo de peixe e molho vilão caramelizado, do Latitude
Peixe, beurre blanc, caldo de peixe e molho vilão caramelizado, do Latitude

Os pratos revelam-se elegantes com camadas adicionais de sabor e aroma trazidas pelos vinhos da casa — brancos de grande acidez, salinidade e estrutura, um tinto fresco e aromático e até um vinho fortificado com dez anos.

Ideias locais, menu livre: Bioma

Rafael Ávila Melo e Franco Pinilla, os chefs por detrás do Bioma (1 Sol Guia Repsol), na costa sul do Pico, mantêm um Google Maps com vários pontos da ilha onde é possível recolher e colher ingredientes. “Talvez cinco por cento dos produtos venham de fora da ilha”, explica Melo, natural das Lajes, a cerca de 20 minutos do restaurante. “Temos de encomendar azeite, farinha — coisas desse género.”

Franco Pinilla e Rafael Ávila Melo, os chefs por trás do Bioma
Franco Pinilla e Rafael Ávila Melo, os chefs por trás do Bioma

A esmagadora maioria dos ingredientes servidos no Bioma — que podem ir da uva-do-mato a diferentes cortes de uma vaca Ramo Grande de 600 kg, arranjada integralmente pela dupla — tem origem no Pico ou noutras ilhas dos Açores. Ainda assim, não se espere aqui uma abordagem tradicional à cozinha açoriana. “Partimos de ideias da ilha, mas nunca fazemos pratos tradicionais”, diz-nos Franco, argentino de origem. “Começamos com um prato tradicional e transformamo-lo através da nossa experiência e conhecimento.”

Salmonete com arroz de caranguejo fidalgo e Alfajor de maracujá e bolacha de cerveja com doce de nêsperas, ambos do Bioma
Salmonete com arroz de caranguejo fidalgo e Alfajor de maracujá e bolacha de cerveja com doce de nêsperas, ambos do Bioma

Esta filosofia resulta num menu simultaneamente enraizado e livre. Na nossa visita o menu de degustação incluía momentos que cruzavam lírio fumado com meloa da Graciosa, gnocchi de inhame e um sorvete de uvas Isabella locais. O prato centrado na imponente vaca — carpaccio de Ramo Grande com limão — revela-se, como os restantes, intenso e aromático, convidando a abrandar e saborear cada garfada.

E, como se a pesca submarina e a recolha de ingredientes não fossem já ambiciosas, a dupla criou ainda uma horta no próprio espaço e planeia expandir o projeto com uma pequena unidade de produção de compotas feitas a partir dos frutos que apanham na ilha.

“A primeira regra aqui é: não há salmão”, afirma José David Sousa, proprietário do Mar Sushi Terrace (Restaurante Guia Repsol), na costa sul do Pico. O tom é leve, mas não está a brincar. “Abrimos o restaurante para tirar partido do peixe dos Açores — dos melhores do mundo”, explica. E, desde 2021, essa tem sido a sua missão, tão simples quanto exigente. Servir cozinha de inspiração japonesa no Pico está longe de uma tarefa fácil.

Preparação do sushi no Mar Sushi Terrace, no Pico
Preparação do sushi no Mar Sushi Terrace, no Pico
Buta No Kakuni, barriga de porco marinada sobre arroz branco, no Mar Sushi Terrace
Buta No Kakuni, barriga de porco marinada sobre arroz branco, no Mar Sushi Terrace

A procura varia muito ao longo do ano, o acesso a ingredientes japoneses é praticamente inexistente e, apesar de se tratar de uma ilha, nem sempre é fácil garantir peixe fresco. “A frota do Pico é pequena”, explica-nos David, acrescentando que a geografia submarina obriga os pescadores a aventurarem-se para longe da costa — algo difícil em embarcações de menor dimensão. No verão, consegue trabalhar com cerca de uma dúzia de espécies; “no inverno, se tivermos quatro, já é bom”.

Em meados de dezembro, por exemplo, provam-se os últimos lírios da época, servidos em fatias generosas de sashimi. “Veja estas linhas de gordura”, comenta Sousa, referindo-se a um dos peixes mais valorizados dos Açores

O Mar Sushi Terrace abriu em 2021
O Mar Sushi Terrace abriu em 2021

Há também uma seleção de sushi, que inclui espécies como lírio e bicuda, e lâminas de veja crua, realçadas com um toque cítrico de ponzu. Embora o peixe seja o foco, a carta inclui ainda algumas propostas de carne de porco e legumes com inspiração japonesa, bem como um cheesecake japonês leve, feito com queijo de São Miguel.

No verão, além de uma maior variedade de peixe, há ainda a vantagem de aproveitar a esplanada que dá nome ao restaurante — provavelmente uma das vistas mais impressionantes para uma refeição em todo o Pico.

Dormir no meio da lava: hotéis no Pico

“Não havia onde ficar para produtores, jornalistas e outros visitantes”, recorda Filipe Rocha sobre a realidade do alojamento no Pico quando, em 2015, começou a produzir vinho na ilha com o enólogo António Maçanita, seu parceiro fundador na Azores Wine Company.

A Azores Wine Company foi uma das grandes impulsionadoras do vinho do Pico
A Azores Wine Company foi uma das grandes impulsionadoras do vinho do Pico

A dupla escolheu um terreno na costa norte, inserido na zona classificada pela UNESCO, marcada pelos muros de pedra vulcânica — ideal para a produção tradicional, mas exigente do ponto de vista da construção devido às restrições associadas à classificação.

“Queríamos uma adaptação contemporânea do conceito de adega”, explica Filipe, referindo-se às pequenas construções de pedra nas vinhas do Pico, usadas tanto para apoio à produção como para estadias temporárias.

Com o apoio de arquitetos com experiência em áreas classificadas, criaram, em 2021, uma estrutura contemporânea em betão e pedra que articula adega, quartos, restaurante e sala de provas.

Situado no topo de um monte, com vista sobre o intricado mosaico de currais que se estende até ao mar, o edifício inspira-se, em parte, nos três conventos da ilha e esconde um pátio central, lembrando os claustros dos mosteiros.

Os quartos da Azores Wine Company têm vista para as tradicionais curraletas
Os quartos da Azores Wine Company têm vista para as tradicionais curraletas

Os cinco quartos apresentam uma estética discreta, com apontamentos industriais em tons de cinza e madeira clara, e incluem kitchenette, amplas janelas panorâmicas voltadas para a costa, pequenos terraços e minibares particularmente bem equipados — abastecidos sempre com vinhos de António Maçanita.

Talvez a adição mais arrojada ao panorama hoteleiro da ilha seja o Pico Vineyards. Inaugurado em 2025, o hotel nasceu a partir de um conjunto de quatro casas tradicionais num terreno interior, a poucos minutos do aeroporto da ilha.

A pedra vulcânica retirada durante a ampliação foi reaproveitada na construção dos 11 quartos, cinco dos quais com piscinas privadas diretamente ligadas aos quartos, além de chuveiros exteriores.

Os interiores apresentam uma estética minimalista e cuidada — quase escandinava — com contraste entre a pedra vulcânica escura e o cedro japonês claro, aromático e agradável, mobiliário simples e pavimentos de pedra pintados de vermelho, evocando o efeito dos tijolos.

Entre muros de pedra e vinhas, o conjunto desenrola-se como uma vinha em socalcos à maneira do Pico, mas com um pilar central imponente e algumas esculturas em madeira de inspiração quase tribal.

O Pico Vineyards abriu portas em 2025
O Pico Vineyards abriu portas em 2025

O hotel dispõe de piscina interior aquecida e de um elemento menos óbvio: descendo uma escadaria em espiral no átrio e atravessando um corredor subterrâneo decorado com arte, chega-se à adega subterrânea, um espaço cavernoso com tetos abobadados que se projetam dramaticamente, é aqui que decorrem as provas de vinho e outros eventos.

Para uma estadia mais personalizada, sugerimos o Lava Homes. Situado numa encosta íngreme na costa norte do Pico, o empreendimento é composto por 14 casas independentes, totalmente equipadas e individuais.

Os edifícios, amplos e confortáveis, variam entre uma e três suítes, todos com cozinha equipada; os maiores dispõem ainda de comodidades como máquinas de lavar e secar e lareiras a pellets.

A Lava Homes é composta por 14 casas independentes
A Lava Homes é composta por 14 casas independentes

A Lava Homes tem origem na Casa da Queijaria, uma casa tradicional que permanece integrada no complexo, enquanto as outras 13 mantêm a estética local, com pedra vulcânica escura e madeira rústica.

A maioria oferece varandas generosas com vistas que se estendem até à vizinha ilha de São Jorge, e o complexo inclui ainda piscina, estúdio de yoga (com aulas às quartas e sábados), sauna e restaurante.

Um benefício menos evidente é a sensação de isolamento do local, na ponta oeste do Pico, de onde se acede, através de uma curta, mas íngreme, caminhada, à zona balnear do Caisinho ou ao conjunto de casas de pedra vulcânica mais recôndito do Canto de São Amaro.