Desculpe, não há resultados para a sua pesquisa. Tente novamente!
Adicionar evento ao calendário
Tudo começa na mitologia, com o deus Saturno, vigilante e poderoso, a comandar as águas daquele lago na cidade. A estátua chegou ao pedestal onde hoje se encontra muito depois de o senado de Estremoz ter ordenado a construção do lago. Foi só no séc. XIX que a imagem de Saturno foi transposta do Convento dos Congregados para o meio das águas.
E foi também por essa altura que, à vista de todos, a estátua mudou de significado. O povo deixou de identificar Saturno e passou a notar a gadanha que ainda hoje a figura carrega na mão. E a “estátua do Gadanha” passou a influenciar as designações em seu redor.
Serve esta breve introdução para nos ajudar a começar pelo princípio — e o princípio é o nome. A Mercearia Gadanha (1 Sol Guia Repsol) chama-se assim porque está diante da praça onde fica a estátua de Saturno. Mais tarde, surgiu, noutro sítio, também no centro de Estremoz, um alojamento que inclui um restaurante associado à Mercearia e a que chamaram Casa do Gadanha. “A Mercearia e a Casa são quase duas linguagens diferentes da mesma história”, afirma Michele Marques, mentora de ambos os projetos, juntamente com o marido Ruben Trindade Santos (o chef deste último).
Tanto a Mercearia como a Casa do Gadanha receberam um Sol no Guia Repsol, o que é justificação mais do que suficiente para que queiramos conhecer a história, bem como um pouco do percurso de Michele Marques, que é chef na Mercearia. “Ambas nascem do mesmo olhar sobre o Alentejo: um olhar de admiração, de respeito e de profunda ligação ao território”, diz-nos sobre ambos os estabelecimentos.
A ideia de respeito e de valorização da identidade local está muito presente no discurso da chef, que reconhece a “enorme riqueza cultural e gastronómica” que existe no Alto Alentejo, “que merece ser celebrada com orgulho, mas também reinterpretada com sensibilidade e contemporaneidade”. E é neste ponto da reinterpretação “sensível e contemporânea” que a ideia da Mercearia começou por ganhar forma e sentido.
“Quando cheguei ao Alentejo, senti uma calma e uma autenticidade que temos de viver para perceber. Apaixonei-me pelo vagar, pela luz, pelos produtos, pela forma como o tempo aqui ainda respeita as estações e os encontros.” Michele Marques não é alentejana de nascença, embora sinta que o Alentejo a “acolheu verdadeiramente”. Nasceu no Brasil, cresceu em Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro. Aos 21 anos, quando estudava na universidade, viveu um episódio determinante para a sua vontade de se mudar: decidiu visitar uma amiga que tinha em Portugal e assim chegou ao Alentejo. “Senti que podia construir aqui uma vida com sentido”, assume.
Diz que a Mercearia nasceu de um “desejo muito simples”: criar um lugar onde a própria Michelle gostasse de estar. “Vendíamos, e ainda vendemos, produtos de proximidade, com muita qualidade”, diz, além de descrever o lugar como “um espaço vivo, próximo, sem formalismos, onde as pessoas podiam vir petiscar e levar algo para casa”.
“No início, a ideia era muito ligada ao produto, à mercearia tradicional, aos sabores locais, às pequenas produções, àquilo que existe de mais genuíno no Alentejo”, diz, para explicar que rapidamente perceberam que havia “uma vontade enorme de criar encontros à volta da comida”. “E a cozinha começou a ganhar cada vez mais espaço”, conclui.
Como a oferta em Estremoz, à época, ainda não era o que é hoje — “eram poucos, mas bons”, os restaurantes —, Michele percebeu que havia espaço para algo “diferente, contemporâneo, mas, ao mesmo tempo, profundamente respeitador da identidade local”, explica. “Sempre quisemos trabalhar com o território e não sobre o território. Ouvir os produtores, aprender com as pessoas da terra, respeitar os ingredientes e as tradições.” Michele acredita que foi essa postura e esse respeito que ajudaram a criar uma ligação tão forte entre a Mercearia e a cidade.
Michele Marques explica que a Casa do Gadanha surgiu “muito naturalmente”, que foi fruto da necessidade e resultado da procura que passou a existir. “Ao longo dos anos, muitas pessoas que vinham à Mercearia perguntavam-nos onde podiam ficar, queriam prolongar a experiência, viver Estremoz com mais tempo e profundidade. E nós próprios sentíamos vontade de criar um lugar de acolhimento mais completo.”
Não estava nos planos, inicialmente, mas a Casa do Gadanha tornou-se uma extensão lógica da Mercearia. Ou melhor, um complemento: um hotel com um restaurante lá dentro, com Ruben Trindade Santos ao leme da cozinha. “Foi crescendo connosco, quase organicamente. A certa altura percebemos que fazia sentido dar esse passo.”
Quando falamos sobre o que une e o que distingue estas cozinhas, Michele diz que “a Mercearia é mais descontraída, mais espontânea, mais quotidiana”. “Tem aquela energia de mesa partilhada, de copo de vinho ao final da tarde, de conforto.” Já a Casa permite explorar “uma dimensão mais sensorial e mais íntima da gastronomia, um pouco mais contemporânea”. A chef recorre a uma curiosa analogia para a descrever: “É o irmão mais novo, que viaja o mundo e volta cheio de histórias para contar através dos seus pratos, mas sem perder sua identidade Alentejana.”
Primeiro, foi a Mercearia, em 2025, a receber um Sol do Guia Repsol, em 2025. Este ano, foi a vez de a Casa do Gadanha receber distinção semelhante. “É uma sensação de enorme orgulho no trabalho que fazemos em equipa, mas também de gratidão”, diz Michele Marques a propósito dos Sóis. “Receber um reconhecimento destes é muito especial, porque valida anos de trabalho”, acrescenta, antes de revelar que a emociona “perceber que um projeto no interior do Alentejo, feito com tanta verdade e tanto respeito pelo território, consegue ter esse alcance”.
“Tem sido uma aventura intensa, desafiante e profundamente transformadora”, afirma, em relação ao empreendimento, desde o início, do tempo em que decidiu fundar a Mercearia. “Como em tudo na vida, há momentos difíceis, empreender no interior do país exige resistência, persistência e muita entrega.” E é por isso que diz que o Sol “não é apenas um prémio”, é um sinal de que vale a pena persistir e acreditar quando a ideia e o produto são genuínos, quando é “uma gastronomia com identidade”.
Para concluir, Michele Marques conta que aquilo que mais a sensibiliza é “ver pessoas felizes à mesa, ver clientes que regressam, ver Estremoz crescer e ser cada vez mais procurada”. “E é isso que dá sentido a tudo”, remata.
Casa do Gadanha: Rua Vasco da Gama 4, 7100-559 Estremoz. Telefone: 268 249 790. De sexta a terça, das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h.
Mercearia do Gadanha: Largo Dragões de Olivença 84, 7100-457 Estremoz. Telefone: 268 333 262. De terça a sábado, das 12h30 às 15h e das 19h30 às 22h30.
Em geral… como classificaria o site do Guia Repsol?
Dê-nos a sua opinião para que possamos oferecer-lhe uma melhor experiência
Agradecemos a sua ajuda!
Teremos em conta a sua opinião para fazer do Guia Repsol um espaço que mereça um brinde. Saúde!