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A nova vida do Calcinha, em Loulé

Café Calcinha: um Solete com história no Algarve

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Atualizada: 21/10/2026

Texto: Clara Silva

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Fotografia: Ana Brígida

O café quase centenário de Loulé marcou a cidade e continua a ser ponto de encontro de turistas e locais. Agora até tem francesinhas.
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“Uma mosca sem valor/ Pousa com a mesma alegria/ Na careca de um doutor/ Como em qualquer porcaria.” Terá sido numa das mesas do Café Calcinha (Solete Guia Repsol) que António Aleixo, famoso poeta do Algarve, escreveu uma das suas mais conhecidas quadras.

“Há quem diga que a quadra foi dedicada ao Frutuoso da Silva, que além de ter sido juiz, foi um grande mecenas da cultura de Loulé”, explica Luísa Martins, historiadora da Câmara Municipal da cidade. Na altura, em meados dos anos 30/40, Aleixo, de origens humildes, era “tolerado” no Café Calcinha pelos outros frequentadores, de classes sociais mais abastadas.

A estátua do poeta António Aleixo à porta do Café Calcinha, de Lagoa Henriques, o mesmo autor do Fernando Pessoa d’A Brasileira, no Chiado
A estátua do poeta António Aleixo à porta do Café Calcinha, de Lagoa Henriques, o mesmo autor do Fernando Pessoa d’A Brasileira, no Chiado

Aliás, diz-se que foi no café que pediu emprestado o fato que usou na cerimónia de entrega dos prémios literários dos Jogos Florais, em Faro, onde deu nas vistas em público pela primeira vez, em 1937: “Ontem rei, hoje sem trono/ Cá ando outra vez na rua/ Entreguei a roupa ao dono / E a miséria continua”, escreveria mais tarde.

No Café Calcinha, inaugurado com o nome de Café Central em 1929, Aleixo ganhou a sua própria mesa, num canto e à janela, onde costumava observar o movimento da Praça da República, no centro da cidade. Hoje, o poeta continua representado à porta, através de uma estátua da autoria de Lagoa Henriques, o mesmo autor do Fernando Pessoa d’A Brasileira, no Chiado.

Joaquim Prado esteve quase 40 anos à frente do Calcinha
Joaquim Prado esteve quase 40 anos à frente do Calcinha. Ele próprio ficou conhecido como “o Calcinha”, embora essa seja a alcunha do antigo dono

“No início, o Aleixo não podia entrar no café porque estava mal vestido”, conta Joaquim Prado, de 69 anos, que durante quase 40 anos esteve à frente do Café Calcinha. “Havia uma separação. Nas mesas do lado direito, costumavam ficar os ricos, os médicos, os grandes comerciantes, os proprietários. Do lado esquerdo, ficavam os mais pobres.” Aos poucos, António Aleixo, que inicialmente ficava à porta “a beber o seu galão”, foi ganhando lugar no interior.

Batota, telefone público e o primeiro bilhar do Algarve

Joaquim só chegou ao café bem mais tarde, em novembro de 1977, com 19 anos, quando o fundador, José Domingos Cavaco, “já velhote para isto”, conta, queria trespassar o espaço por 10 contos por mês. O valor pagava-se só com a exploração do bilhar – “o primeiro bilhar de três bolas que veio para o Algarve”, recorda – e com a gestão do posto de telefone público que também existia no café.

Durante o Festival Med, no final de junho, o café transforma-se em palco de concertos
Durante o Festival Med, no final de junho, o café transforma-se em palco de concertos. Tem sido assim nos últimos quatro anos

“Quando aqui cheguei, acabei logo com a batota que acontecia lá atrás, nos camarins”, continua, referindo-se a uma parte do café que chegou a ter uma entrada pelas traseiras e que agora já não existe. No entanto, nas mesas com tampos de mármore, que o café mantém nos dias de hoje, mas já recuperadas, continuava a jogar-se ao dominó e às damas – “e a dinheiro, às minhas escondidas”, continua.

Cálices e camarins

O Café Calcinha, como ficou conhecido graças ao seu fundador, é um dos marcos mais importantes de Loulé. Já era quando foi inaugurado, manteve-se nas décadas seguintes e, nos dias de hoje, continua a ser um ponto de encontro na cidade, a juntar turistas e locais a qualquer hora do dia.

“O nome Calcinha vem de cálice”, esclarece Joaquim que, mais tarde, também acabou por herdar a alcunha do fundador do café. “As pessoas vinham aqui e pediam-lhe um calicinho e depois ficou Calcinha.”

Além dos folhados de Loulé, o café tornou-se conhecido pelos doces, bolos e até pelas francesinhas
Além dos folhados de Loulé, o café tornou-se conhecido pelos doces, bolos e até pelas francesinhas

Quando o café foi inaugurado, no final dos anos 20, a inspiração foi a “arquitetura dos cafés da Belle Époque”, conta a historiadora Luísa Martins. O interior seria a réplica de cafés como os de São Paulo, daí que algumas das madeiras – “que não deixam entrar bicho nenhum”, comenta Luísa” – tenham sido trazidas nessa altura do Brasil.

Striptease e tuberculose

Na década de 50, passou até a chamar-se Café Carioca em homenagem a estas origens brasileiras, mas o nome Calcinha falou mais alto. “Para a sociedade [do Algarve] acabou por ser um café que marcou muito”, comenta a historiadora. “Para uns de maneira positiva, para outros de maneira negativa.”

Se, durante o dia, era aqui que se fechavam muitos negócios e aconteciam reuniões e encontros importantes, à noite o ambiente era boémio. “Batota, striptease, era tudo muito masculino”, salienta Luísa, que afirma que uma mulher só terá entrado no café como cliente a partir dos anos 60 – e acompanhada pelo marido.

“Falei com uma senhora, não vou dizer o nome, porque ela é muito conhecida, que me disse que a maior desgraça que aconteceu àquela família foi o Café Calcinha”, conta. “O pai dela vinha para aqui e era batota e era mulheres. Acabou por apanhar tuberculose.”

A nova vida do Café Calcinha

Joaquim Prado esteve à frente do café quase quatro décadas, até 2015, quando a Câmara Municipal de Loulé decidiu comprar o espaço e recuperá-lo, tendo em conta fotografias antigas e preocupações como a preservação dos espelhos art déco e do chão original, em mosaico hidráulico. As obras duraram quase três anos, até que a concessão do espaço foi atribuída.

Em 2015, a Câmara Municipal de Loulé decidiu comprar o café e recuperá-lo a partir de fotografias antigas e mantendo o chão e os espelhos de art déco
Em 2015, a Câmara Municipal de Loulé decidiu comprar o café e recuperá-lo a partir de fotografias antigas e mantendo o chão e os espelhos de art déco

Agora, é Ricardo Vaz, de 37 anos, ao lado do pai e da madrasta, quem está à frente do Calcinha. Natural do Porto, não quis que o espaço – que integra a Rota dos Cafés com História de Portugal e é membro da European Historic Cafés Association – se transformasse apenas numa espécie de museu. “Somos ativos e dinâmicos, essa é a nossa imagem de marca”, diz.

Começou por apostar na qualidade do café, de várias origens e com uma máquina de torrefação, e depois avançou para escolhas mais ousadas, como levar as francesinhas para o Algarve. A verdade é que foram bem recebidas. De tal maneira que o café organiza uma Semana da Francesinha, com uma diferente todos os dias: “de camarão, hambúrguer ou picanha”. “Um sucesso”, afirma.

Nos últimos quatro anos, durante o Festival Med, de world music, que todos os anos acontece em Loulé no final de junho, o café é palco de concertos e transforma-se quase na cantina de muitas das bandas que passam pela cidade.

No final de junho, a cidade de Loulé transforma-se para receber o Festival Med.
No final de junho, a cidade de Loulé transforma-se para receber o Festival Med. O Calcinha, além de palco, também é cantina de muitos artistas

A história continua a ser recordada através das fotografias nas paredes, que mostram alguns dos ilustres frequentadores do espaço, ou através dos folhados de Loulé, o histórico doce da cidade, que chegou ao Algarve pelas mãos de mulheres locais que costumavam trabalhar em casas de aristocratas na zona da Figueira da Foz, uma das especialidades da casa. Já as moscas, como dizia António Aleixo, continuam a pousar onde querem.

Café Calcinha. Praça da República, 67, Loulé, Algarve. De segunda-feira a domingo, 8h-23h. T. 934 250 079