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Há qualquer coisa de satisfatório num estabelecimento de restauração cujo funcionamento se assemelha a uma linha de montagem. E pode muito bem ser por causa da procura. Vejamos: se os responsáveis pela casa chegaram à conclusão que seria melhor atender os clientes mediante um sistema de senhas, é porque estamos a falar de muitos clientes. O serviço tem de ser rápido e tem de evitar conflitos que as filas mal organizadas tendem a gerar.
Também há a questão dos tabuleiros: só não o leva quem pede para fora. Se o consumo é feito dentro de portas, cada cliente trata do transporte do que lhe é devido até à mesa correspondente.
Sejamos sinceros: se isto for aplicado a um restaurante que serve almoços e jantares como habitualmente os entendemos — refeições feitas com garfo e faca, essencialmente — o mais provável é que a área ganhe contornos de cantina e, nesse caso, o sucesso não vai acontecer.
Ninguém quer pagar para se sentir no pavilhão polivalente da escola secundária. Mas se isto for assim num espaço em que não há hora marcada para comer e em que o mais próximo de "comida de prato" é do campeonato dos rissóis e dos croquetes, então nesse caso tudo é permitido.
Falamos de uma casa antiga chamada Pastelaria Santo António (Solete Guia Repsol). Antiga porque foi fundada na década de 40 do século passado, mas seria difícil ser mais atual. E por que é que aqui o tal sistema familiar de uma linha de montagem funciona? Porque esta casa é, na essência, uma padaria-pastelaria-geladaria, com morada na zona de Santo António que lhe dá nome, bem no coração da Costa de Caparica.
É um sítio onde parece ser verão o ano inteiro e é daí que lhe vem a fama — daí e de uns quantos produtos que conquistaram, merecidamente, estatuto de referência.
Fica na avenida que vai da rotunda central da Costa de Caparica, à chegada da via rápida, até às praias de São João e consequente curva para a Trafaria. É paragem habitual para quem se abastece de felicidade a caminho da praia. É visita costumeira no passeio domingueiro daqueles que procuram o sol de inverno.
E é pouso obrigatório para irreflectidos que estão dispostos a atravessar o Tejo (o autor destas linhas pode ou não ser um deles) em busca de iguarias impossíveis de igualar noutro destino.
Importa clarificar o que está em causa. Há vários protagonistas. O pão é um bom princípio, sobretudo aquelas bolas para os gulosos que apreciam farinha branca que cresceu densa e justa, num forno acarinhado por calor consistente (passem-lhe manteiga e depois atrevam-se a dizer que não viram a luz).
O mesmo pão dá vida ao dito com chouriço que é uma refeição inteira, com a gordura do enchido a tomar conta do panificado, como desejávamos que acontecesse mesmo antes de fazer o pedido.
O café é proveniente de torrefacção própria, bem equilibrado entre o amargo e o ácido, de corpo cheio e cor de agradável memória. E ainda que este trabalho sobre a cafeína mereça destaque e atenção, talvez uma das maiores atracções desta casa seja a bola de Berlim.
Vou escusar-me a escolher entre o creme ou a sua ausência, até porque ambas as soluções têm valências, dependendo da vontade, do dia, da hora e de tantas outras incógnitas. Esta bola não é uma fartura. Este creme não é de pasteleiro. As miniaturas não são para enganar. Falamos de uma almofadinha de prazer que é sempre repetida na perfeição e que, da primeira para a frente, pode mudar a relação que temos com este doce.
Mas os croissants também merecem (muito) respeito. As improváveis línguas de veado, quando acabadas de fazer, exaltam toda a crocância que, ao longo da História, as tornou viciantes. E, claro, os pastéis de Santo António, derivação do pastel de natal, mediante receita própria que ganhou vida, fama e muitas vezes se confunde como nome oficial desta firma que está aberta todos os dias e que, primeiro que tudo, convida ao lugar sentado na esplanada.
O espaço é longo e largo, vemos famílias atarefadas, crianças alegres e de boca satisfeitamente cheia. Vemos estrangeiros com dúvidas sobre o que comer e como proceder relativamente ao aportuguesamento das práticas doceiras. Há quem leia e quem reflita. Há quem entre pela primeira vez e quem ali faça o chá das cinco diário.
Pastéis de Santo António é nome de estabelecimento familiar e individual, tem espaço para ambas as verdades, com um serviço que é sobretudo rotativo e sazonal, pouco dado às relações que as pastelarias antigas providenciaram noutros tempos, mas ainda assim com eficácia garantida. E as senhas e os tabuleiros não atrapalham, antes pelo contrário.
Pastéis de Santo António: Avenida Afonso de Albuquerque 227, 285-458 Costa de Caparica. Telefone: 212 900 065. Todos os dias, das 07h às 20h.
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