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A dada altura, Diogo Noronha terá olhado para o limoeiro. Há uns meses, os limões que agora vemos na árvore eram umas flores brancas, mas o momento inspirou o chefe de cozinha. O bolo de limão confit com azeite, açafrão-da-Índia e nata azeda é uma receita vencedora do Clara Café.
Para provar este bolo denso e guloso, é preciso entrar na Brotéria, a centenária revista ligada à Companhia de Jesus que ganhou a forma de um centro cultural às portas do Bairro Alto. O Palácio dos Condes de Tomar, com a sua escadaria imponente e os tetos trabalhados, junta uma galeria de arte contemporânea, biblioteca, livraria, salas para trabalhar, uma agenda de encontros (conversas, conferências...) e uma cafetaria.
Diogo Noronha e Fernão Gonçalves viram aqui um lugar alinhado com a vida que procuravam. “Tínhamos decidido que não queríamos mais restauração”, diz Fernão, lembrando o percurso que começaram a trilhar juntos há 12 anos — primeiro na Casa de Pasto (2014), depois no Rio Maravilha e no Pesca.
“A Brotéria tem uma dinâmica própria. É um projeto com uma vertente cultural, com horários mais calmos. Basta entrar no edifício e sente-se logo a diferença, a intensidade baixa”, elogia o mixologista e co-autor do livro Bar Aberto — O Mundo dos Cocktails. No pátio onde nos encontramos, que serve de esplanada ao Clara Café, ouve-se apenas a água que cai na fonte. Fazer uma pausa aqui é um privilégio.
A dupla criativa assumiu a gestão da cafetaria em fevereiro com vontade de lhe dar uma “roupagem diferente”. O Clara acompanha o horário da Brotéria, de segunda a sábado, entre as 10h e as 18 horas, com a cozinha sempre a funcionar. “É uma carta leve, muito à base de legumes, sazonal, e o mais biológica possível”, sintetiza Diogo Noronha, salientando as parcerias com pequenos produtores.
O horário contínuo reflete-se numa ementa sem as divisões rígidas das refeições, acompanhando antes a dinâmica da casa. Na primeira folha, apresentam opções para o dia inteiro: croissants, tostas, torradas de pão de centeio ou de trigo, granola com iogurte natural, omeletes e ovos Benedict – tudo bem guarnecido. Na segunda folha encontram-se propostas mais substanciais: sopa, saladas, sanduíches e quiches especiais.
No dia em que passámos por lá, provámos a sanduíche de rosbife em shocopan (pão japonês feito com leite), sementes de mostarda em pickle, ovo de codorniz curado em koji e beterraba, folhas de rúcula e cornichons, e a taça de camarão, couscous, ovo cozido, abacate, courgette e espargos verdes, salsa verde de pepino e ervas, sésamo tostado e sementes de coentros. Para rematar, o tal bolo de limão.
De início, contam, apostaram num registo mais de cafetaria, mas rapidamente perceberam que teriam de aumentar a oferta à hora do almoço, respondendo aos apetites das várias tribos que frequentam a Brotéria. Diogo e Fernão falam da comunidade de estudantes que frequenta as salas de cowork, no primeiro andar, mas também de quem trabalha e de quem vive (sobretudo estrangeiros) nesta zona.
A apresentação do que chega à mesa é irrepreensível. Se Diogo Noronha surpreende com receitas cheias de sabor, fazendo da cozinha um laboratório de fermentados e aproveitamento de sobras, Fernão Gonçalves faz a sua magia em bebidas aparentemente simples. Por exemplo? O chá de pêssego e a soda artesanal de laranja sanguínea e infusão de rooibos.
Também há sumos e smoothies, matcha latte e iced latte. O café é um lote de arábica especial feito em parceria com a Flor da Selva, torrefação familiar no bairro da Madragoa, os chás da Companhia Portuguesa do Chá, na Rua Poço dos Negros, e a cerveja artesanal é da Musa, em Marvila. Mesmo sabendo que este não é propriamente um sítio para consumir álcool, selecionaram quatro vinhos de pequenos produtores.
Quem já conhecia a cafetaria da Brotéria, talvez dê por pequenas diferenças em termos de decoração. Na sala luminosa, com 22 lugares, as mesas de madeira são as mesmas. Mudaram o balcão, atrás do qual podemos observar a dinâmica na cozinha, e, ao fundo, encontra-se uma estante com revistas — entre estas, a da casa.
Lá fora, no pátio (48 lugares), a natureza segue o seu ritmo. O jasmim cobre por agora a pérgula em ferro, criando uma sombra sobre as mesas, há pés de louro viçoso nos canteiros, limões prontos a serem colhidos e o marmeleiro exibe uns bons exemplares, anunciando a próxima estação. Olhando para eles, o que será que Diogo Noronha irá pôr na ementa?
Clara Café: Brotéria, Rua São Pedro de Alcântara, 3, Lisboa. Segunda a sábado, das 10h às 18h. Telefone: 932 266 422
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