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No Estádio da Tapadinha, comida, música e arte prolongam o convívio para lá dos jogos

Onde comer em Alcântara

No Estádio da Tapadinha, comida, música e arte prolongam o convívio para lá dos jogos

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Atualizada: 29/10/2026

Texto: Inês Belo

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Fotografia: Ana Brígida

A casa do Atlético Clube de Portugal, em Alcântara, é também morada d'A Curva. Uma bancada onde se pode comer uma trifana, beber uma cerveja e dançar com vista sobre Lisboa
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Na gíria do futebol, “curva” é a zona atrás da baliza de um estádio onde fica a claque de apoio a um clube. É aí, atrás da baliza sul do Estádio da Tapadinha que se encontra A Curva.

Na antiga bancada em pé, onde se acumulavam as aparas de relva, inaugurou-se em maio passado uma zona de lazer com três roulottes de comida, mesas e bancos corridos de madeira, uns quantos sofás, matraquilhos, um insuflável para crianças e dois bares – o maior com um terraço em cima, o melhor sítio para olhar a Ponte 25 de Abril e o Cristo Rei, na outra margem do Tejo.

Curva é o nome que se dá à zona atrás da baliza onde fica a claque de apoio ao clube da casa
Curva é o nome que se dá à zona atrás da baliza onde fica a claque de apoio ao clube da casa

Depois do apito final dos jogos, seja quando o Atlético Clube de Portugal joga em casa ou nos dias em que transmitem partidas de futebol no ecrã gigante, solta-se a música e abre-se espaço para a pista de dança.

João Catita, morador em Alcântara, gosta do que vê e, há menos de um mês, fez-se sócio do Atlético. “Está fantástico”, diz, elogiando a iniciativa de quem quis recuperar este clube histórico, hoje a competir na Liga 3, e abri-lo à cidade.

Ainda não teve a oportunidade de conhecer o norte-americano que dá a cara pelo grupo de investidores que comprou o Atlético e é presidente da Sociedade Anónima Desportiva (SAD). Mas afirma que Gifford Miller “tem bom gosto”: “É do Partido Democrata.”

Nós acrescentamos que o ex-deputado municipal e speaker da câmara de Nova Iorque foi o principal dinamizador do High Line, um parque verde suspenso numa linha de comboio desativada em Manhattan, frequentado pelos nova-iorquinos e visitado por turistas. Em Lisboa, para onde se mudou em 2011, viu potencial na Tapadinha.

Sai uma trifana e umas queijadas de Sintra

“Os estádios sempre foram um ponto de encontro”, lembra João Carvalho, CEO do Atlético. “Queremos tornar a Tapadinha num local de referência em Lisboa com coisas sempre a acontecer, onde os adeptos se juntam mas também as pessoas se encontram, sem precisar de estar a combinar.” Vivam perto ou longe, sejam lisboetas ou estrangeiros, mais novos ou mais velhos, todos são bem-vindos.

Quem gosta de futebol sabe que uma ida à bola inclui comes e bebes. E a casa do Atlético pode gabar-se de ser o único estádio em Portugal onde se pode ver um jogo ao vivo enquanto se bebe uma cerveja fresca. Aos 20 minutos da partida, grita-se golo para alegria da massa adepta vestida com as camisolas da loja oficial.

A Trifana, um Solete Guia Repsol, junta cachaço, barriga e cabeça de xara
A Trifana, um Solete Guia Repsol, junta cachaço, barriga e cabeça de xara

Usar equipamento desportivo com um design retro tornou-se cool e o clube sabe disso. A primeira leva de camisolas que fizeram não chegou para as encomendas, conta-nos João Carvalho. “Vendemos para o mundo inteiro.”

No campeonato das comidas, a Trifana (Solete Guia Repsol) do chefe Vasco Lello tem aqui um lugar cativo. Em alternativa à sanduíche de carne de porco, que junta cachaço, barriga e cabeça de xara, molho picante e cebola em pickle (€6,50), servem o veggie bun, um cogumelo portobello temperado com harissa em pão brioche (€8).

A Vetrina, do grupo Pasta Non Basta, apresenta sanduíches (€8,50) e pizzas em schiacciata (€5,50), o pão tradicional da Toscana semelhante à focaccia mas mais fino e leve. Os ingredientes vêm de Itália, sempre que possível: mozzarella, burrata, presunto, mortadela, pomodorini, tomate seco, pesto, trufa e pepperoni. Os gulosos podem provar o tiramisù (€4,90).

À esquerda um mural de Vhils (aka Alexandre Farto); à direita, uma pizza em schiacciata do Vetrina
À esquerda um mural de Vhils (aka Alexandre Farto); à direita, uma pizza em schiacciata do Vetrina

A completar o trio de roulottes prateadas, o Kau dá a provar o barbacue americano numa sanduíche de pulled pork (€9) e na texan cheesesteak (€16).

À beira do intervalo, o Atlético CP vence por duas bolas a zero. Enquanto as equipas descansam no balneário, Luís Sousa faz o que lhe compete nos últimos 30 anos: passa entre o público, sorri e acena com os pacotinhos de queijadas de Sintra.

A arte entra em jogo com o MAAT

A recente parceria com o MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia vem reforçar essa ideia de tornar o estádio como um lugar de encontro. Na entrada para A Curva, ergue-se o imponente anel Solitário #3 de Joana Vasconcelos, peça criada em 2018 para o exterior do Guggenheim de Bilbau que pertence à coleção da Fundação EDP. Composta por jantes douradas e copos de whisky de cristal, a obra remete para a aliança entre arte, desporto e comunidade.

Do guarda-redes do Carcavelinhos ao maior marcador da história do clube, são várias as figuras da história do Atlético representadas no mural de Vhils
Do guarda-redes do Carcavelinhos ao maior marcador da história do clube, são várias as figuras da história do Atlético representadas no mural de Vhils

Bela Silva concebeu dois painéis de azulejo com pinceladas fortes nas cores oficiais do Atlético (azul e amarelo) a dar as boas-vindas aos visitantes. Já dentro do recinto, num topo da bancada central, Vhils (Alexandre Farto) esculpiu em baixo-relevo um retrato de família: do guarda-redes do Carcavelinhos (foi da união deste clube com o União Foot-Ball Lisboa que nasceu o Atlético em 1942) aos miúdos da academia de futebol, de Ben David (o maior marcador da história do clube) à equipa de futsal feminina e a funcionários de sempre.

Além da bola, agora há razões gastonómicas e artísticas para visitar a Tapadinha
Além da bola, agora há razões gastonómicas e artísticas para visitar a Tapadinha

A próxima fase do projeto “MAAT + Atlético” resultará de um concurso já lançado, aberto a artistas emergentes, para a criação de uma obra de arte que ficará no túnel de acesso ao relvado.

Em nome do futebol, música, gastronomia e lazer no Estádio da Tapadinha

Já nos descontos, ouve-se de novo golo no estádio. O clube da casa soma três pontos e segue para a próxima jornada.

Neste final de tarde de um sábado, A Curva recebe o Pieces Chess Club, projeto nascido em Lisboa que promove o xadrez em encontros descontraídos ao som de música. O alinhamento, com a curadoria do Baile Funk Experience, conta com as atuações dos DJ Décio, Saint Caboclo, S4do, Gavi, SoundPreta e Ramon Sucesso.

Comida, música ou tabuleiros de xadrez entram em campo depois do apito final
Comida, música ou tabuleiros de xadrez entram em campo depois do apito final

Alguns dos adeptos e moradores de Alcântara deixam-se ficar, misturando-se agora com uma leva de jovens na casa dos 20 e 30 anos. Entre conversas animadas e jogadas de xadrez, a cerveja fresca (€2) continua a sair a bom ritmo, servem-se caiprinhas (€4,50 pequena, €8 grande) e gin tónico (€10).

Depois de uma bancada com consumo de álcool, a Tapadinha poderá vir a ser “o primeiro estádio pet friendly da Europa”, diz João Carvalho. Tudo em nome do futebol, até porque esta Curva funciona como uma fonte de receita para investir na equipa. Ver o Atlético Clube de Portugal subir de divisão dará, com certeza, uma imensa alegria à sua claque.

A Curva. Estádio da Tapadinha, R. Professor Vieira Natividade, Lisboa. Sexta, das 19h às 23h, sábado e domingo, das 12h às 23h